Sistema Córtex é alvo de investigação após milhões de consultas suspeitas

Auditoria do Ministério da Justiça identifica indícios de automação, CPFs falsamente registrados e consultas irregulares envolvendo pessoas politicamente expostas; PF já apura suspeitas de crimes e possível uso político do sistema
Por Tatiane Martinelli | GNEWSUSA

Dados de milhões de brasileiros podem ter sido utilizados de forma irregular para realizar consultas no Córtex, plataforma de monitoramento do Ministério da Justiça, por meio de acessos vinculados a órgãos de segurança do Governo do Rio de Janeiro.

A auditoria conduzida pela pasta, chefiada por Ricardo Lewandowski, identificou que 69,2 milhões de CPFs foram registrados como responsáveis por 213 milhões de pesquisas usando uma das chaves de acesso do sistema — volume equivalente a cerca de um terço da população do país. A análise aponta “fortes indícios” de automação das consultas e possível geração de CPFs para burlar os mecanismos de bloqueio da plataforma. O levantamento corresponde a 236 dias de uso, a partir de setembro de 2024.

Paralelamente, a Polícia Federal instaurou inquérito para investigar possíveis crimes de inserção de dados falsos em sistema informatizado, violação de sigilo funcional e invasão de dispositivo informático. As apurações também miram consultas relacionadas a Pessoas Politicamente Expostas (PEPs).

O caso emerge em meio a tensões entre o governo Lula e parte dos governadores sobre política de segurança pública, acentuadas pela aprovação, na Câmara, da versão modificada do PL Antifacção — vitória aplaudida por Cláudio Castro (PL) e considerada derrota para o Planalto.

Criado durante o governo Jair Bolsonaro (PL), o Córtex permite a órgãos conveniados acessar informações em tempo real sobre pessoas e veículos, incluindo a função de “cercamento eletrônico”, que rastreia alvos móveis e gera alertas sobre indivíduos com indícios criminais.

O Governo do Rio possui duas chaves de acesso — uma da PM e outra da Secretaria de Governo (Segov). Inicialmente tratadas como pertencentes ambas à PM, a polícia e o Palácio Guanabara informaram posteriormente que a chave sob suspeita seria da Segov.

A investigação indica que, uma vez dentro do sistema, essas chaves teriam sido usadas com CPFs de milhões de cidadãos sem vínculo com o governo, supostamente para evitar bloqueios automáticos por excesso de consultas de um mesmo usuário.

O Ministério da Justiça destaca o risco de uso político das informações, pois quase 80 mil CPFs de PEPs — cerca de 60% do total desse grupo — aparecem nas buscas, somando cerca de 100 mil consultas. Entre os nomes usados sem autorização estão o delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina, Ulisses Gabriel, e o ex-deputado federal Loester Trutis, ambos afirmando desconhecer completamente o sistema.

Os documentos revelam ainda consultas em massa feitas com CPFs de autoridades — um secretário municipal de Goiás teve seu registro usado mais de 4 mil vezes.

O ministério e a PF cobram explicações da PM do Rio, que afirmou que a chave questionada estaria vinculada ao programa Operação Segurança Presente, coordenado pela Segov. A secretaria confirmou ter sido notificada da investigação e afirmou ter solicitado à Polícia Civil a abertura de inquérito próprio.

A Segov declarou ainda que procurou o Ministério da Justiça para tentar reverter um bloqueio anterior da conta no Córtex, sendo informada de que acessos haviam sido barrados por falta de pertinência às forças de segurança e de que havia ocorrido uma violação no sistema — sem detalhamento.

Em outra credencial, que a PM afirma ser sua, a auditoria identificou 7,63 milhões de consultas feitas por 30,5 mil usuários entre setembro de 2024 e setembro de 2025. A corporação, contudo, nega qualquer uso irregular e diz que apenas policiais em atividade-fim têm permissão para acessar o sistema.

O Ministério da Justiça reforça que as análises ainda estão em fase inicial, mas assegura que tomou medidas para preservar a integridade da plataforma, incluindo bloqueios preventivos, reforço de controles e apuração individual de responsabilidades.

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