Mudanças climáticas, desigualdade social e globalização ampliam o alcance das DTNs, que já afetam mais de 1,5 bilhão de pessoas no mundo
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Celebrado em 30 de janeiro, o Dia Mundial das Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs) chama a atenção para um grupo de enfermidades historicamente invisibilizadas nas políticas globais de saúde, mas que hoje representam um desafio crescente também para países desenvolvidos. Impulsionadas pelas mudanças climáticas, pela mobilidade humana e pelas desigualdades sociais persistentes, essas doenças deixaram de ser uma preocupação restrita a regiões tropicais e passaram a integrar o debate internacional sobre saúde pública, prevenção e equidade.
O que são as Doenças Tropicais Negligenciadas
Dengue, Zika, chikungunya, esquistossomose e doença de Chagas têm algo em comum além do impacto na saúde: todas fazem parte do grupo das Doenças Tropicais Negligenciadas, classificação adotada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a partir dos anos 2000. O objetivo foi dar visibilidade a enfermidades que, apesar de afetarem milhões de pessoas, receberam historicamente pouco investimento em pesquisa, prevenção e tratamento.
Atualmente, a OMS reconhece 21 DTNs, a maioria de origem infecciosa — causadas por vírus, bactérias, fungos ou parasitas — que atingem mais de 1,5 bilhão de pessoas em todo o mundo, sobretudo em populações em situação de vulnerabilidade social. Essas doenças são mais frequentes em áreas rurais, regiões periféricas, zonas de conflito ou locais com acesso limitado a saneamento básico, água potável e serviços de saúde.
Segundo a pesquisadora científica e diretora do Laboratório de Parasitologia do Instituto Butantan, Eliana Nakano, as DTNs formam um ciclo difícil de romper. “Elas são, ao mesmo tempo, causa e consequência da pobreza estrutural. Ambientes com infraestrutura precária favorecem a transmissão, enquanto a doença reduz a capacidade produtiva e aprofunda a exclusão social”, explica.
Principais Doenças Tropicais Negligenciadas no Brasil
O Brasil está entre os países mais impactados pelas DTNs na América Latina. Entre as mais frequentes estão:
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Doença de Chagas, causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, transmitido pelo barbeiro
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Leishmaniose (visceral e cutânea), transmitida pelo mosquito-palha
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Hanseníase, doença crônica que afeta pele e nervos periféricos
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Esquistossomose, associada a caramujos de água doce
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Dengue, Zika e chikungunya, transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti
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Raiva, transmitida por mamíferos infectados
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Helmintíases, infecções por parasitas presentes em solo contaminado
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Tracoma, infecção ocular que pode levar à cegueira
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Envenenamento por picadas de serpentes
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Sarna, causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei, transmitida por contato direto
Avanços globais e metas até 2030
A OMS tem intensificado esforços para combater as DTNs nas últimas décadas. Entre as principais iniciativas estão a criação de um Departamento específico para controle dessas doenças, a Declaração de Londres, lançada em 2012, e o Roteiro Global para DTNs 2021–2030, apresentado durante a Assembleia Mundial da Saúde.
O documento estabeleceu metas ambiciosas, como:
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Reduzir em 90% o número de pessoas que necessitam de intervenções contra DTNs
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Diminuir em 75% as mortes por doenças transmitidas por vetores
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Garantir que 100 países eliminem ao menos uma DTN
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Assegurar que 90% dos países coletem e divulguem dados desagregados por gênero
Foi nesse contexto que o 30 de janeiro passou a ser oficialmente reconhecido como o Dia Mundial das Doenças Tropicais Negligenciadas.
Por que as DTNs preocupam cada vez mais
Embora não estejam entre as principais causas de morte, as DTNs geram alto impacto em termos de morbidade. “São doenças crônicas que afastam o indivíduo de sua vida cotidiana, do trabalho e da escola, comprometendo anos de vida saudável”, destaca Eliana Nakano.
Além disso, fatores como mudanças climáticas e globalização ampliaram o risco de disseminação dessas enfermidades. O aumento das temperaturas e das chuvas altera o comportamento de vetores, enquanto migrações forçadas por conflitos, crises econômicas ou eventos climáticos extremos facilitam a circulação de patógenos. “Hoje, já observamos casos em regiões que antes não eram consideradas endêmicas, como partes da Europa e da América do Norte”, alerta a pesquisadora.
Prevenção, saneamento e vigilância
Especialistas reforçam que o controle das DTNs exige ações integradas. Investimentos em saneamento básico, água tratada, educação ambiental, vacinação e monitoramento ambiental de vetores são estratégias centrais. A subnotificação também é um desafio, já que muitas pessoas infectadas não procuram atendimento médico, especialmente quando os sintomas são leves ou inespecíficos.
“O conceito de Saúde Única, defendido pela OMS, integra saúde humana, animal e ambiental. Monitorar vetores e o ambiente permite interromper cadeias de transmissão antes que surtos ocorram”, explica Eliana.
O papel do Instituto Butantan
Desde sua fundação, o Instituto Butantan atua diretamente no enfrentamento das Doenças Tropicais Negligenciadas. A instituição é referência nacional na produção de soros antiofídicos, desenvolve e produz vacinas contra dengue, chikungunya, além de pesquisas avançadas para Zika, raiva e doença de Chagas.
Na área da esquistossomose, o Butantan investe em bioprospecção, buscando compostos ativos na biodiversidade brasileira — como algas marinhas e venenos de animais — para combater o caramujo transmissor da doença de forma menos agressiva ao meio ambiente.
“Divulgar informações, investir em ciência e conscientizar a população também fazem parte da nossa missão enquanto instituto de saúde pública”, afirma Eliana Nakano.
Um desafio que exige atenção contínua
O Dia Mundial das Doenças Tropicais Negligenciadas reforça que essas enfermidades não são apenas um problema do passado ou de países pobres. Elas representam um desafio global, que exige cooperação internacional, investimento científico e políticas públicas sustentáveis para romper um ciclo histórico de invisibilidade e desigualdade.
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