Pesquisa com animais indica que medicamentos amplamente usados contra problemas gástricos podem interferir na absorção de minerais e afetar a saúde óssea
Por Paloma de Sá |GNEWSUSA
Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros acendeu um alerta sobre os possíveis efeitos do uso prolongado de medicamentos conhecidos como inibidores da bomba de prótons (IBPs), classe que inclui fármacos amplamente prescritos como omeprazol, pantoprazol e esomeprazol. De acordo com a pesquisa, o consumo contínuo desses medicamentos pode comprometer a absorção de minerais essenciais e provocar desequilíbrios que afetam tanto a saúde óssea quanto o sistema imunológico.
O trabalho foi desenvolvido por cientistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com a Faculdade de Medicina do ABC (FMABC) e contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Os resultados foram publicados em uma revista científica internacional especializada em química e biociências.
Alterações na absorção de minerais
A investigação avaliou, em modelo experimental com ratos, os efeitos do uso contínuo de inibidores da bomba de prótons sobre a absorção e a distribuição de minerais fundamentais ao funcionamento do organismo, como ferro, cálcio, zinco, magnésio, cobre e potássio.
Os pesquisadores observaram que os animais submetidos ao uso prolongado do medicamento apresentaram alterações significativas na forma como esses minerais eram distribuídos no corpo. Houve acúmulo de alguns nutrientes no estômago, além de desequilíbrios em órgãos como o fígado e o baço, responsáveis por funções metabólicas e imunológicas importantes.
No sangue, os resultados chamaram atenção para um aumento expressivo dos níveis de cálcio, acompanhado de redução da concentração de ferro. Segundo os pesquisadores, esse padrão pode indicar que o cálcio esteja sendo mobilizado dos ossos para a corrente sanguínea, o que representa um fator de risco para o desenvolvimento de osteoporose. Já a queda nos níveis de ferro pode favorecer quadros de anemia, especialmente quando o uso do medicamento ocorre sem acompanhamento médico adequado.
Impactos além do sistema digestivo
Embora os inibidores da bomba de prótons atuem diretamente na redução da acidez do estômago, os efeitos observados pelo estudo vão além do sistema digestivo. Os pesquisadores também identificaram alterações em células do sistema imunológico, sugerindo que o desequilíbrio de minerais pode interferir na resposta imune do organismo.
Especialistas explicam que a acidez gástrica desempenha papel fundamental na absorção de diversos nutrientes. Ao reduzir de forma prolongada essa acidez, os IBPs podem dificultar a absorção adequada de minerais essenciais, especialmente quando utilizados por períodos superiores aos recomendados em bula ou prescritos sem reavaliação clínica.
Uso prolongado exige cautela
Os autores do estudo ressaltam que os inibidores da bomba de prótons são medicamentos eficazes e seguros quando utilizados corretamente, dentro das indicações e pelo tempo recomendado. No entanto, o uso contínuo e indiscriminado — prática comum entre pacientes que recorrem ao omeprazol de forma preventiva ou sem orientação médica — pode trazer riscos à saúde a médio e longo prazo.
A pesquisa reforça a importância do acompanhamento médico regular, especialmente em tratamentos prolongados, além da avaliação periódica de possíveis deficiências nutricionais. Em alguns casos, pode ser necessária a suplementação de minerais ou a reavaliação da estratégia terapêutica.
Alerta para a população
Embora o estudo tenha sido realizado em animais, os pesquisadores destacam que os resultados contribuem para o entendimento dos possíveis efeitos do uso crônico desses medicamentos em humanos e reforçam achados de pesquisas anteriores que associam os IBPs a problemas ósseos e nutricionais.
O alerta é claro: medicamentos amplamente utilizados e considerados seguros não estão isentos de riscos quando usados de forma prolongada e sem acompanhamento adequado. O uso racional e orientado continua sendo a principal medida para garantir eficácia terapêutica sem prejuízos à saúde.
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