Nova lei padroniza direitos, amplia acesso a políticas públicas e coloca a dor crônica no centro do debate sobre inclusão social no Brasil
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
A partir de janeiro de 2026, entrou em vigor no Brasil a Lei nº 15.176/2025, que reconhece oficialmente a fibromialgia como uma condição passível de enquadramento como deficiência, desde que haja impacto funcional comprovado. A medida representa um avanço histórico no reconhecimento institucional da dor crônica e amplia o debate sobre inclusão, acessibilidade e garantia de direitos para milhões de brasileiros.
A fibromialgia é caracterizada por dor musculoesquelética difusa e persistente, associada a sintomas como fadiga intensa, distúrbios do sono, dificuldades cognitivas, ansiedade e depressão. Estimativas da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) indicam que a condição afeta entre 2% e 3% da população brasileira, o que corresponde a cerca de 6 milhões de pessoas, com maior prevalência entre mulheres de 30 a 50 anos.
O que diz a nova legislação
A nova lei não classifica automaticamente todas as pessoas com fibromialgia como pessoas com deficiência (PCD). O reconhecimento dependerá de avaliação biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional, composta por médicos, psicólogos e outros profissionais de saúde.
Essa avaliação considerará não apenas os critérios clínicos, mas também os impactos da condição na vida social, profissional e funcional do paciente, como limitações para o trabalho, locomoção ou autocuidado. Para acesso a benefícios previdenciários e assistenciais, permanecem válidos os critérios contributivos exigidos pela Previdência Social.
Com a nova norma, o objetivo é uniformizar nacionalmente direitos e benefícios que antes dependiam de interpretações regionais ou decisões judiciais isoladas.
Entre os direitos que podem ser acessados, mediante avaliação, estão:
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Participação em cotas para concursos públicos;
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Possibilidade de benefícios assistenciais e previdenciários, conforme critérios legais;
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Isenções fiscais, quando aplicáveis;
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Estímulo à inclusão no mercado de trabalho e adaptações razoáveis no ambiente laboral.
Fortalecimento das políticas públicas no SUS
Outro eixo central da Lei nº 15.176/2025 é o fortalecimento do atendimento integral no Sistema Único de Saúde (SUS). O texto estabelece diretrizes para o cuidado da fibromialgia, incluindo:
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Atendimento multidisciplinar;
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Capacitação de profissionais de saúde;
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Disseminação de informações confiáveis sobre a síndrome;
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Incentivo à pesquisa científica.
A proposta é ir além do tratamento medicamentoso, promovendo autonomia, funcionalidade e participação social das pessoas com fibromialgia.
Reconhecimento e dignidade
Para o autor da lei, o reconhecimento legal representa um avanço em termos de justiça social e dignidade. Segundo ele, a fibromialgia historicamente foi subestimada por se tratar de uma condição de dor crônica sem sinais visíveis, o que dificultou o acesso a direitos e tratamentos adequados.
Impacto na qualidade de vida
Um dos principais desafios enfrentados por pacientes com fibromialgia é a validação da dor, considerada invisível e subjetiva. O intervalo entre o início dos sintomas e o diagnóstico costuma ser longo, atrasando o tratamento e agravando o sofrimento físico e emocional.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia, a fibromialgia está relacionada a alterações no sistema nervoso central, que amplificam a percepção da dor. Assim, estímulos que normalmente não causariam dor passam a gerar desconforto intenso.
Embora não exista cura, a condição pode ser controlada. O tratamento é individualizado e inclui:
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Prática regular de exercícios físicos;
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Fortalecimento muscular;
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Acompanhamento psicológico;
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Uso criterioso de medicamentos, quando indicado.
Essas medidas ajudam a reduzir a fadiga, melhorar o sono e minimizar sintomas associados, como ansiedade e depressão.
Visibilidade e debate internacional
Nos últimos anos, a fibromialgia ganhou maior visibilidade internacional com relatos públicos de personalidades que convivem com a síndrome. Esses depoimentos contribuíram para ampliar a compreensão da sociedade e combater o estigma de que se trata de uma condição menor ou exagerada.
Nesse contexto, a nova legislação brasileira se alinha a uma tendência global de reconhecer a fibromialgia como potencialmente incapacitante, desde que haja comprovação de impacto funcional.
Mais do que ampliar benefícios, a lei lança luz sobre uma população historicamente negligenciada e reforça a necessidade de políticas públicas baseadas em cuidado, inclusão e respeito.
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