Julio Casares renuncia à presidência do São Paulo após crise na gestão

Foto: Reprodução.
Saída ocorre após crise administrativa, denúncias internas e votação favorável ao impeachment no Conselho Deliberativo
Por Schirley Passos|GNEWSUSA

A gestão de Julio Casares à frente do São Paulo Futebol Clube teve início em 12 de dezembro de 2020 e ficou marcada por conquistas esportivas relevantes, decisões administrativas de alto impacto e, nos últimos anos, por uma grave crise institucional que culminou em sua renúncia ao cargo de presidente.

Eleito para o triênio 2021–2023, Casares encerrou um jejum de 16 anos no Campeonato Paulista ao conquistar o título estadual de 2021, sob o comando de Hernán Crespo. No ano seguinte, o São Paulo foi vice-campeão paulista e também da Copa Sul-Americana, já com Rogério Ceni à frente da equipe.

Reeleito no fim de 2023 para o mandato 2024–2026, Casares teve como principal feito esportivo a conquista inédita da Copa do Brasil, em 2024, com Dorival Júnior, encerrando mais uma longa fila de títulos do clube. Em 2025, o São Paulo ainda venceu a Supercopa do Brasil ao bater o Palmeiras, com Thiago Carpini como treinador.

O sucesso esportivo, porém, veio acompanhado de forte impacto financeiro. Para viabilizar a campanha vencedora da Copa do Brasil, o clube realizou contratações de peso, como Lucas Moura e James Rodríguez, além de recusar propostas de venda por jogadores valorizados, como Pablo Maia, Welington e Rodrigo Nestor. Como consequência, a dívida do São Paulo saltou de R$ 635 milhões, em 2021, para R$ 968 milhões, em 2024.

Diante do desequilíbrio financeiro, a diretoria foi obrigada a mudar sua estratégia administrativa, adotando novas práticas de gestão, entre elas a criação do Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), como tentativa de reorganizar o fluxo de caixa do clube.

Em 2025, o fraco desempenho esportivo aliado à venda de jovens jogadores por valores considerados abaixo do mercado provocou forte desgaste da imagem de Casares junto à torcida. A crise se agravou no fim do ano, após denuncia de venda clandestina de um camarote do estádio do Morumbis.

Áudios divulgados apontaram a participação de Mara Casares e Douglas Schwartzmann em um esquema para uso irregular de um camarote durante o show da cantora Shakira, realizado em fevereiro de 2025, ampliando a pressão política sobre a presidência.

Com o aumento das denúncias, conselheiros do São Paulo protocolaram, em 23 de dezembro, um pedido de convocação de reunião extraordinária para discutir o impeachment do presidente. O requerimento reuniu 57 assinaturas, incluindo membros da oposição e também da situação.

Paralelamente, a Polícia Civil já mantinha inquéritos abertos para investigar supostas irregularidades no clube, envolvendo o departamento de futebol e movimentações financeiras do São Paulo e do próprio Julio Casares. Entre os pontos apurados estão depósitos em dinheiro que somam R$ 1,5 milhão nas contas pessoais do dirigente e 35 saques realizados nas contas do clube entre 2021 e 2025, totalizando R$ 11 milhões.

Após perder a votação no Conselho Deliberativo com 188 votos favoráveis ao impeachment, 45 contrários e dois em branco, Julio Casares optou por renunciar ao cargo antes da realização da assembleia geral de sócios, que poderia confirmar seu afastamento definitivo.

Com a saída de Casares, o vice-presidente Harry Massis Junior, de 80 anos, assumiu o comando do São Paulo até o fim do mandato, previsto para dezembro de 2026.

LEIA A CARTA DE CASARES NA INTEGRA:

Ao longo de minha trajetória na Presidência do São Paulo Futebol Clube, atuei com seriedade, firmeza, responsabilidade e total compromisso com a defesa da instituição, sempre pautado pelo respeito à sua história, à sua grandeza e à sua torcida. Nos últimos meses, porém, o clube passou a viver um ambiente de intensa instabilidade, marcado por ataques recorrentes, narrativas distorcidas e pressões externas que extrapolaram o debate institucional legítimo.

O que teve início como versões frágeis e boatos passou a ser repetidamente reproduzido, amplificado e, gradualmente, tratado como verdade, mesmo sem a apresentação de fundamentos consistentes ou provas robustas. Criou-se, assim, um cenário de grave contaminação do debate, no qual ilações passaram a substituir fatos, e suposições foram apresentadas como certezas, em um processo que transformou versões construídas em aparentes verdades.

Não cabe, neste momento, apontar autores, métodos ou responsabilidades específicas, até porque tais questões devem ser devidamente apuradas pelos órgãos competentes. Ainda assim, é impossível ignorar a existência de articulações de bastidores, distorções deliberadas e uma trama política marcada por interesses, traições institucionais e práticas incompatíveis com a história e os valores do São Paulo Futebol Clube,  fatos que o tempo e a história haverão de registrar.

Esse ambiente comprometeu profundamente a governança do clube e, de maneira absolutamente inaceitável, ultrapassou os limites da esfera institucional, atingindo minha família e minha vida pessoal.

Não apresentei minha renúncia anteriormente por entender ser meu dever exercer, até o fim, o direito à ampla defesa e ao contraditório. Enfrentei esse processo de forma direta, presencial e com dignidade, mesmo diante de um ambiente já contaminado por narrativas previamente estabelecidas.

Na prática, a manifestação feita na tribuna foi o único espaço efetivo que me foi concedido para apresentar minha defesa, dentro de um rito sumário que, a meu juízo, restringiu a necessária produção de provas e o pleno esclarecimento dos fatos.

A decisão tomada por este Conselho encerra um processo de natureza política. Respeito essa decisão, embora dela discorde, e reafirmo, com absoluta convicção, que jamais pratiquei qualquer irregularidade. Minha renúncia não representa confissão, reconhecimento de culpa ou validação das acusações que me foram dirigidas.

Diante da continuidade desse cenário, da necessidade de preservar minha saúde e, sobretudo, de proteger minha família de ataques e ameaças gravíssimas, bem como para evitar que essa disputa política continue prejudicando o time de futebol e o ambiente esportivo do clube, apresento minha renúncia ao cargo de Presidente, com efeitos imediatos, antecipando, inclusive, o direito estatutário de aguardar a Assembleia Geral.

Registro que deixo um clube esportivamente estruturado, com um time competitivo, que voltou a disputar decisões, alcançar finais e conquistar títulos relevantes. Destaco, de forma especial, a conquista da Copa do Brasil de 2023, título inédito e histórico, símbolo do trabalho sério, responsável e comprometido desenvolvido ao longo da gestão.

Esse desempenho é resultado do esforço conjunto de atletas, comissão técnica e profissionais do clube, aos quais manifesto meu respeito e confiança. Tenho plena convicção de que seguirão honrando esta camisa e lutando por novas conquistas, com o apoio da torcida e da instituição.

Meu afastamento também tem como objetivo permitir que eventuais apurações ocorram de maneira ampla, técnica e isenta, sem qualquer alegação de interferência, para que a verdade possa ser plenamente buscada e esclarecida. Reitero, por fim, minha convicção de que o São Paulo Futebol Clube é maior do que qualquer cargo, circunstância ou narrativa construída.

Ao São Paulo Futebol Clube, amor de infância e da minha vida, jamais renunciarei. Renuncio, sim, a um ambiente de conspirações, distorções, mentiras e disputas de poder que ultrapassaram os limites democráticos e tentaram manchar trajetórias, biografias e a própria história do clube. Despeço-me com respeito, gratidão e amor permanente por esta instituição, que sempre honrarei. Júlio Casares

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