Relatório da ONU aponta que os danos à saúde pública, ao meio ambiente e aos meios de subsistência superam amplamente as perdas econômicas seguradas, exigindo novos critérios de prevenção e resposta aos desastres climáticos
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Os incêndios florestais registrados ao longo de 2025 deixaram um rastro de destruição que vai muito além das perdas materiais imediatas. De acordo com análise divulgada pelo Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres (UNDRR), os chamados “custos invisíveis” dessas tragédias representam hoje uma das maiores ameaças à saúde pública, à segurança alimentar e à resiliência ambiental no mundo.
Segundo o relatório, cerca de 390 milhões de hectares foram queimados globalmente em 2025, afetando ecossistemas, áreas agrícolas e regiões habitadas. Embora os danos econômicos diretos tenham sido estimados em US$ 224 bilhões, apenas US$ 108 bilhões estavam cobertos por seguros, o que evidencia uma lacuna significativa na proteção financeira e social das populações atingidas.
Para a ONU, o impacto real dos incêndios florestais não pode ser medido apenas pelos prejuízos segurados ou pela reconstrução de infraestrutura. Grande parte das consequências se manifesta ao longo do tempo, especialmente na saúde das populações expostas.
Incêndios e saúde pública: efeitos que persistem após as chamas
Do ponto de vista sanitário, os incêndios florestais têm sido associados ao aumento expressivo de doenças respiratórias e cardiovasculares, sobretudo entre idosos, crianças e pessoas com condições crônicas. A inalação prolongada de fumaça e partículas finas pode agravar quadros de asma, bronquite, hipertensão e insuficiência cardíaca, além de elevar o risco de mortalidade indireta.
O UNDRR ressalta que esses impactos raramente entram nas estatísticas oficiais de perdas, o que dificulta o planejamento de políticas públicas de saúde e a alocação adequada de recursos emergenciais e preventivos.
Além dos efeitos diretos, as queimadas comprometem a qualidade da água, aumentam a contaminação do solo e elevam o risco de surtos de doenças em comunidades que dependem diretamente de recursos naturais para a sobrevivência.
Los Angeles: o incêndio mais caro do ano
Entre os eventos extremos de 2025, o incêndio ocorrido em janeiro, na região de Los Angeles, foi considerado o mais dispendioso do período. As chamas atingiram cerca de 23 mil hectares, provocaram a morte de 30 pessoas e causaram prejuízos estimados em US$ 53 bilhões, segundo dados da resseguradora Munich Re. Desse total, aproximadamente US$ 40 bilhões estavam cobertos por seguros.
Em comparação, o terremoto de magnitude 7,7 que atingiu Mianmar em março de 2025 resultou na morte de cerca de 4,5 mil pessoas e gerou perdas econômicas estimadas em US$ 12 bilhões. Para a ONU, a diferença evidencia como os incêndios florestais vêm se consolidando como um dos desastres naturais mais onerosos, especialmente em áreas densamente urbanizadas.
África concentra a maior área queimada do planeta
O relatório do UNDRR aponta que mais da metade da área total queimada em 2025 — cerca de 246 milhões de hectares — localizou-se no continente africano. Nessas regiões, a maioria das perdas não é segurada, e milhões de pessoas dependem diretamente da terra para subsistência, agricultura e práticas culturais.
As consequências incluem insegurança alimentar, deslocamentos forçados, perda de renda e impactos psicológicos prolongados, além da sobrecarga de sistemas de saúde já fragilizados.
A Austrália também figurou entre os países com maior proporção de território afetado por incêndios no último ano, reforçando o caráter global e recorrente do problema.
Exposição crescente e riscos subestimados
De acordo com o UNDRR, as perdas associadas aos incêndios florestais aumentaram, em média, US$ 170 milhões por ano desde 1970, impulsionadas principalmente pela expansão de moradias e assentamentos humanos em áreas de risco. Nas últimas duas décadas, o número de pessoas vivendo nessas zonas cresceu mais de 40%.
Apesar disso, muitos países ainda não dispõem de indicadores completos para mensurar o risco real dos incêndios, como perdas anuais médias ou cenários de perdas máximas prováveis. Essa limitação contribui para a subvalorização do problema no planejamento financeiro, nas decisões de investimento e nas políticas de prevenção.
Tornar visíveis os custos invisíveis
Para as Nações Unidas, reconhecer os impactos indiretos e de longo prazo dos incêndios florestais é essencial para reduzir danos futuros. A organização defende o fortalecimento da coleta de dados que integrem saúde, meio ambiente e economia, de modo a apoiar políticas públicas mais eficazes e sustentáveis.
Segundo o UNDRR, a forma como os riscos são medidos influencia diretamente a forma como são geridos. Tornar visíveis os custos invisíveis dos incêndios florestais é um passo decisivo para compreender plenamente o impacto desses eventos e preparar respostas mais eficientes diante de um cenário climático cada vez mais extremo.
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