Venezuela anuncia libertação de presos políticos após captura de Maduro pelos EUA

Medida ocorre sob governo interino de Delcy Rodríguez e é apresentada como gesto unilateral de pacificação; Washington atribui ação à influência direta de Donald Trump
Por Tatiane Martinelli | GNEWSUSA

O presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, anunciou nesta quinta-feira a libertação de um “número significativo” de presos por razões políticas, entre eles cidadãos estrangeiros e figuras emblemáticas da oposição ao chavismo. A medida inclui a ativista Rocío San Miguel, detida desde 2024 sob acusações de traição à pátria, terrorismo e conspiração, além do ex-candidato à Presidência Enrique Márquez.

Segundo Rodríguez, as solturas começaram “a partir deste exato momento”, sem divulgação do número total de beneficiados. O anúncio ocorre em meio a uma reconfiguração inédita do poder no país, após a operação militar dos Estados Unidos que resultou, no último fim de semana, na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.

Trata-se das primeiras libertações desde que Delcy Rodríguez assumiu interinamente o comando do governo venezuelano, após a ação militar norte-americana realizada em 3 de janeiro. Maduro e Cilia Flores estão detidos em Nova York, onde respondem a diversos processos judiciais, incluindo acusações ligadas ao narcotráfico.

Em discurso no Palácio Legislativo, em Caracas, Jorge Rodríguez afirmou que a decisão foi tomada “em nome da convivência pacífica” e negou que tenha havido qualquer tipo de negociação formal com governos estrangeiros ou grupos políticos internos. Ainda assim, agradeceu publicamente a atuação do ex-presidente espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e do governo do Catar, que, segundo ele, atenderam prontamente a um pedido da presidente interina.

— Considerem este gesto do governo bolivariano como uma contribuição para que a República continue sua vida pacífica — declarou Rodríguez, classificando a medida como “unilateral” e orientada pela busca da estabilidade.

Apesar do agradecimento, o grau de envolvimento efetivo dos governos citados permanece incerto. Meses antes da ofensiva militar americana, já havia confirmação da abertura de canais de comunicação entre o Palácio de Miraflores, governos estrangeiros e representantes do setor privado, com o objetivo de evitar um cenário de guerra regional.

Horas depois do anúncio, Lula e o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, divulgaram nota conjunta saudando a libertação dos presos, ao mesmo tempo em que expressaram “grande preocupação com o uso da força contra um país sul-americano”, classificando a intervenção militar como uma violação ao direito internacional, à Carta das Nações Unidas e à soberania venezuelana.

Washington, por sua vez, atribuiu diretamente a iniciativa à atuação do presidente Donald Trump. Em comunicado à AFP, a vice-secretária de imprensa da Casa Branca, Anna Kelly, afirmou que a soltura dos presos é “um exemplo de como o presidente está usando toda a sua influência para fazer o que é certo para os povos americano e venezuelano”.

O anúncio de Jorge Rodríguez ocorreu um dia após o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, revelar que o governo americano estruturou um plano de três fases para a Venezuela. Segundo ele, a primeira etapa prevê a estabilização do país, evitando o colapso institucional; a segunda inclui a libertação de opositores, concessão de anistias e a reconstrução da sociedade civil; e a terceira corresponde à transição política.

Rubio destacou que o plano busca estabelecer um caminho claro para o período pós-Maduro, embora não haja prazo definido para o encerramento da tutela política norte-americana. Em entrevista ao New York Times, Trump afirmou que os Estados Unidos deverão permanecer envolvidos na condução política da Venezuela “por muito mais tempo”.

Espanhóis entre os libertados

Ao menos cinco cidadãos espanhóis estão entre os libertados, segundo fontes diplomáticas ouvidas pelo El País. São eles Andrés Martínez Adasme, José María Basoa, Miguel Moreno, Ernesto Gorbe e uma mulher com dupla nacionalidade, cuja identidade não foi divulgada. O grupo já se prepara para retornar à Espanha com apoio da embaixada em Caracas.

Além deles, há pelo menos outros 14 detentos hispano-venezuelanos sobre os quais ainda não há confirmação oficial de soltura.

Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores da Espanha classificou a medida como “um passo positivo na nova etapa da Venezuela”. O presidente espanhol, Pedro Sánchez, também celebrou a libertação, descrevendo-a como “um ato de justiça e um passo necessário para o país”.

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