Pesquisa identifica duas bactérias que degradam o muco intestinal e podem explicar por que milhões de pessoas não respondem a tratamentos tradicionais
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Um estudo conduzido por cientistas da Universidade de Nagoya, no Japão, identificou duas bactérias do microbioma intestinal associadas ao desenvolvimento da constipação crônica. A pesquisa, publicada na revista científica Gut Microbes, aponta que a ação combinada dos microrganismos Akkermansia muciniphila e Bacteroides thetaiotaomicron pode degradar o muco que protege e lubrifica o intestino grosso, provocando fezes ressecadas e dificuldade de evacuação — condição que pode surgir anos antes de sintomas da doença de Parkinson.
Bactérias podem causar um novo tipo de constipação
A constipação é um dos distúrbios gastrointestinais mais comuns no mundo e, em geral, é definida quando a pessoa evacua menos de três vezes por semana. Tradicionalmente, o problema é associado à lentidão dos movimentos do intestino, conhecida como motilidade intestinal reduzida.
No entanto, a nova pesquisa sugere um mecanismo diferente para parte dos pacientes. Os cientistas identificaram o que chamaram de “constipação bacteriana”, provocada pela interação entre duas espécies do microbioma intestinal.
Essas bactérias atuam em conjunto destruindo a mucina colônica, uma substância gelatinosa que recobre as paredes do intestino grosso. Essa camada de muco é essencial para manter o cólon lubrificado, preservar a hidratação das fezes, facilitar a passagem do conteúdo intestinal e proteger o tecido intestinal contra microrganismos nocivos.
Quando essa camada é degradada em excesso, as fezes perdem água e tornam-se duras e difíceis de eliminar.
Como as bactérias degradam o muco intestinal
Os pesquisadores descobriram que as duas bactérias atuam em duas etapas complementares.
Primeiro, a Bacteroides thetaiotaomicron produz uma enzima chamada sulfatase, responsável por remover grupos sulfato presentes na mucina. Esses grupos funcionam como uma espécie de “escudo químico” que protege o muco da degradação bacteriana.
Após essa proteção ser removida, entra em ação a Akkermansia muciniphila, que passa a decompor e consumir a mucina exposta. O resultado é o enfraquecimento da camada de muco que mantém o intestino lubrificado.
Com a perda dessa proteção natural, as fezes ficam mais secas, dificultando a evacuação.
Por que alguns tratamentos não funcionam
A descoberta ajuda a explicar por que muitas pessoas com constipação crônica não apresentam melhora mesmo usando laxantes ou medicamentos que estimulam a movimentação intestinal.
Segundo os pesquisadores, esses tratamentos focam em aumentar a motilidade do intestino, mas não resolvem o problema central quando ele está relacionado à perda da mucina intestinal causada por bactérias.
Isso significa que, em alguns casos, o intestino pode até se movimentar normalmente, mas as fezes continuam ressecadas por falta de lubrificação.
Relação com a doença de Parkinson
Outro ponto relevante do estudo é a associação com a doença de Parkinson. Pesquisas anteriores já indicavam que muitos pacientes apresentam constipação de 10 a 20 anos antes do surgimento dos tremores característicos da doença.
Na nova análise, os cientistas observaram que pessoas com Parkinson apresentavam níveis mais elevados das duas bactérias que degradam a mucina intestinal. Isso sugere que alterações no microbioma podem desempenhar um papel importante no desenvolvimento precoce da doença.
Embora a relação ainda esteja sendo investigada, o achado reforça evidências científicas de que o eixo intestino-cérebro pode influenciar doenças neurológicas.
Caminhos para novos tratamentos
Os pesquisadores também realizaram experimentos em laboratório para testar possíveis intervenções. Ao modificar geneticamente a bactéria Bacteroides thetaiotaomicron para impedir a produção da enzima sulfatase, eles observaram que a mucina intestinal permaneceu intacta e a constipação não se desenvolveu em modelos experimentais.
Esse resultado abre caminho para o desenvolvimento de medicamentos capazes de bloquear a ação dessa enzima, protegendo a mucina e prevenindo a constipação.
Segundo os autores do estudo, essa abordagem pode beneficiar especialmente pacientes com constipação crônica resistente a tratamentos convencionais.
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