Por Angélica Cunha | GNEWS USA
RIO DE JANEIRO – Em meio ao desgaste da classe política e à crescente desconfiança da
população nas instituições, um nome começa a chamar atenção não pelo histórico nos
corredores do poder, mas justamente pela ausência dele.
Aos 61 anos, Roseli Ferreira surge como uma figura que tensiona a lógica tradicional da
política fluminense. Sem histórico de mandato, sem padrinhos políticos e sem vínculos com
estruturas de poder, ela construiu sua trajetória fora dos gabinetes, diretamente no
enfrentamento de problemas sociais que, segundo afirma, muitas vezes não encontram
resposta no próprio Estado.
“Minha história foi eu que construí. Não estou atrelada a ninguém”, afirma.
Filiada ao Partido Novo, Roseli se apresenta como alguém “sem vícios políticos”, em
contraste com o que classifica como um sistema baseado em apadrinhamento e interesses
cruzados.Para ela, o modelo atual pode comprometer a independência dos agentes públicos.
“Quando você pega um apadrinhamento político, aquela pessoa não vai confrontar erros. Existe um compromisso ali.”
Sua atuação pública, segundo relata, se desenvolveu sem vínculos políticos tradicionais, o
que, em sua avaliação, contribui para maior liberdade de posicionamento.
Da comunidade ao protagonismo
Carioca, criada no Complexo do Alemão, Roseli carrega uma história marcada por escassez e
trabalho precoce. Filha de uma mulher analfabeta que criou dez filhos, começou a trabalhar
ainda na infância e construiu carreira como gerente de produção.
Hoje, Roseli atua como pastora evangélica e participa de iniciativas sociais voltadas a dependentes
químicos e famílias em situação de vulnerabilidade, e diz que a vida foi sua principal escola e que a experiência prática foi determinante em sua formação.
Essa vivência, segundo ela, moldou sua visão sobre os problemas sociais.
“Eu lido com o povo. Eu faço parte da história dessas pessoas.”
Atuação em casos sociais
Um dos pontos centrais de sua narrativa está na atuação direta em casos sociais complexos.
Entre eles, relata o caso de uma mãe que teria enfrentado dificuldades para reaver a guarda da
filha, em um processo marcado por entraves institucionais. Roseli afirma ter reunido provas,
mobilizado testemunhas e acompanhado o caso ao longo do processo.
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A criança, segundo o relato, foi posteriormente encontrada em condições precárias.
Casos como esse são apresentados como indicativos de falhas estruturais, como omissão de
órgãos públicos, fragilidade na aplicação de leis e desassistência de famílias vulneráveis.
“As pessoas não encontram solução. Eu procuro ajudar dentro do que está ao meu alcance”, afirma.
Roseli também se ancora em uma leitura política clara: o Rio de Janeiro, segundo ela, possui
forte presença de eleitores com posicionamento conservador.

Como exemplo, cita mobilizações populares na Praia de Copacabana e resultados eleitorais
recentes que favoreceram candidatos alinhados à direita, como Jair Messias Bolsonaro.
Seu posicionamento dialoga com esse público, com ênfase em temas como família, políticas
sociais, educação e segurança.
Educação, saúde e inclusão
Entre os temas mais recorrentes em suas falas estão três áreas centrais: educação, saúde e
inclusão.
Na educação, Roseli critica o que chama de “aprovação compulsória” e aponta para um
cenário de dificuldades na aprendizagem.
“Tem aluno no sexto ano que não consegue escrever quatro linhas.”
Também questiona aspectos do modelo educacional atual e defende maior clareza na divisão
de responsabilidades entre escola e família.
Na área da saúde, aponta falhas estruturais e dificuldades no acesso a serviços básicos,
especialmente em comunidades.
Na inclusão, destaca a falta de suporte adequado a crianças com necessidades especiais, como
ausência de equipes multidisciplinares e acompanhamento especializado.
Entre o preconceito e a resistência
Mulher, negra e oriunda de comunidade, Roseli afirma enfrentar resistência e descrédito –
muitas vezes antes mesmo de apresentar suas propostas.
Relata episódios de preconceito e tentativas de deslegitimação de sua trajetória pública.
“As pessoas já têm frases prontas para te diminuir.”
Ainda assim, afirma que transforma essas experiências em motivação.
“Isso não mostra quem eu sou, mas quem a pessoa é.”
Fé, propósito e atuação pública
A espiritualidade é um dos pilares de sua trajetória, mas ela faz questão de separar os papéis.
“A política é um trabalho. O sacerdócio não se negocia.”
Segundo afirma, sua atuação religiosa não se confunde com sua atuação pública, embora
reconheça que sua fé orienta valores e decisões pessoais. Roseli também menciona iniciativas de cunho social, como o projeto “Butterfly”, voltado ao desenvolvimento de mulheres em contextos de vulnerabilidade.
“Você pode nascer em um lugar improvável, mas não precisa permanecer nele.”
Seu objetivo declarado é contribuir para a construção de novas perspectivas de vida,
especialmente para mulheres de comunidades.
Com o lema “Vamos fazer diferente”, Roseli Ferreira apresenta sua visão sobre participação
pública e atuação política. Ela afirma estar ciente dos desafios do cenário, sem fazer
projeções sobre resultados futuros, e destaca sua própria trajetória como principal referência.
“Nada é impossível. O impossível é a especialidade de Deus.”
O olhar do eleitor
Em um ambiente marcado por polarização, descrença institucional e disputas ideológicas
intensas, trajetórias como a de Roseli Ferreira evidenciam um fenômeno crescente.
O surgimento de lideranças que emergem da base social e buscam espaço no debate público.
Resta observar como esse tipo de perfil será recebido pelo eleitorado, especialmente em um
cenário onde confiança e representatividade se tornaram fatores centrais no processo
democrático.

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