Tabagismo continua caindo no Brasil, mas ritmo desacelera e ameaça meta de redução até 2030

Crise econômica, menor investimento em políticas públicas e avanço dos cigarros eletrônicos preocupam especialistas em saúde pública
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Apesar de o número de fumantes no Brasil continuar diminuindo, especialistas alertam que a velocidade dessa redução caiu nos últimos anos, o que pode comprometer a meta nacional de controle do tabagismo até 2030. Estudos recentes indicam que fatores como crise econômica, redução de investimentos em políticas públicas de prevenção e o avanço dos dispositivos eletrônicos para fumar estão dificultando novos avanços no combate ao consumo de tabaco no país.

Durante grande parte do século XX, fumar era um hábito amplamente aceito no Brasil. O cigarro era associado a status, elegância e modernidade, e seu consumo era comum em ambientes fechados, inclusive na presença de crianças. Esse cenário começou a mudar a partir da década de 1980, quando o país passou a estruturar políticas mais rigorosas de controle do tabaco, impulsionadas por evidências científicas sobre os impactos do hábito na saúde.

Dados históricos mostram a dimensão dessa mudança. Em 1989, cerca de 34,8% da população adulta brasileira era fumante, segundo levantamento publicado no Bulletin of the World Health Organization. Desde então, a prevalência do tabagismo vem caindo de forma consistente, resultado de campanhas de conscientização, restrições à publicidade e aumento de impostos sobre produtos derivados do tabaco.

O Brasil passou a ser considerado referência internacional em políticas de controle do tabagismo, mas pesquisadores alertam que os avanços recentes não têm ocorrido na mesma intensidade registrada nas décadas anteriores.

Queda mais lenta preocupa pesquisadores

Um estudo publicado em dezembro de 2025 na revista científica Ciência & Saúde Coletiva, baseado em dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas (Vigitel) do Ministério da Saúde, aponta que a redução da prevalência de fumantes nas capitais brasileiras vem ocorrendo em ritmo mais lento desde meados de 2015.

Em 2006, cerca de 15,7% da população adulta fumava. Em 2023, esse índice caiu para 9,3%, representando uma redução média anual de aproximadamente 3,3%. Embora o resultado seja positivo, pesquisadores afirmam que o ritmo atual pode não ser suficiente para atingir o objetivo estabelecido pelo governo brasileiro.

De acordo com projeções do estudo, caso a tendência atual se mantenha, o país deverá chegar a 2030 com cerca de 7,96% da população fumante, índice superior à meta de 6,24% definida no Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis (DANT).

A médica e pesquisadora Deborah Carvalho Malta, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e uma das autoras da pesquisa, aponta que fatores econômicos e políticos contribuíram para a desaceleração do controle do tabaco.

Segundo ela, os anos de 2015 e 2016 foram marcados por forte instabilidade política e crise fiscal no país, o que resultou em medidas de austeridade e cortes em políticas públicas. Esse contexto afetou diretamente o financiamento de campanhas de prevenção e fiscalização relacionadas ao tabagismo.

Além disso, especialistas destacam que o preço dos cigarros permaneceu praticamente congelado entre 2016 e 2024, reduzindo o impacto de uma das estratégias mais eficazes de controle do consumo: o aumento da carga tributária sobre produtos de tabaco.

Outros fatores citados incluem menor investimento na fiscalização do comércio ilegal de cigarros e propostas legislativas que tentaram reduzir o preço desses produtos.

Avanço dos cigarros eletrônicos cria novo desafio

Outro elemento que preocupa autoridades sanitárias é a popularização dos dispositivos eletrônicos para fumar, conhecidos como cigarros eletrônicos, vapes ou pods.

Esses dispositivos surgiram no início dos anos 2000 com a proposta de ajudar fumantes a reduzir ou abandonar o cigarro convencional. Com o passar do tempo, a indústria passou a desenvolver novas formulações de nicotina, incluindo os chamados sais de nicotina, que provocam menos irritação na garganta e facilitam a absorção da substância pelo organismo.

Para especialistas, essas mudanças ajudaram a tornar os produtos mais atrativos, principalmente entre jovens.

A pneumologista Telma Antunes, do Hospital Israelita Albert Einstein, explica que a indústria do tabaco investiu fortemente em marketing para apresentar os dispositivos eletrônicos como alternativas modernas e menos prejudiciais à saúde.

O resultado foi o aumento do consumo entre adolescentes e jovens adultos.

Um estudo publicado em 2022 na Revista Brasileira de Epidemiologia, com base em dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), revelou que o uso de produtos de tabaco entre adolescentes brasileiros subiu de 10,4% para 14,8% entre 2015 e 2019. O crescimento foi associado principalmente ao uso de cigarros eletrônicos e narguilé, enquanto o consumo de cigarro convencional permaneceu estável.

Mesmo com a comercialização desses dispositivos proibida no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), especialistas afirmam que os produtos continuam circulando amplamente por meio do comércio informal e das redes sociais.

Esse fenômeno criou novos desafios para as políticas de controle do tabagismo, pois o consumo de nicotina tornou-se mais discreto e socialmente aceito em determinados ambientes.

Impactos diretos na saúde pública

O tabagismo continua sendo uma das principais causas evitáveis de morte no mundo. No Brasil, o hábito está associado a diversas doenças graves, incluindo câncer de pulmão, boca e laringe, além de infarto, acidente vascular cerebral (AVC), bronquite crônica e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).

Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o tabagismo foi responsável por mais de 161 mil mortes no Brasil em 2020.

A nicotina, substância presente no tabaco, é altamente viciante e atua no sistema nervoso central estimulando a liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer. O uso contínuo pode aumentar a pressão arterial, acelerar os batimentos cardíacos e afetar o desenvolvimento cerebral, especialmente em adolescentes.

Os efeitos do tabagismo também atingem pessoas que não fumam. O chamado tabagismo passivo ocorre quando indivíduos respiram a fumaça liberada por fumantes, ficando expostos a substâncias tóxicas e cancerígenas.

Especialistas ressaltam que não existe forma segura de consumo de tabaco. Em alguns casos, os riscos podem ser ainda maiores.

Uma sessão de narguilé, por exemplo, pode equivaler à inalação de fumaça semelhante à de aproximadamente 100 cigarros, devido ao longo tempo de exposição. Já o cigarro de palha, por não possuir filtro e atingir temperaturas mais elevadas, aumenta o risco de câncer de boca e garganta.

Impacto econômico bilionário

Além das consequências para a saúde, o tabagismo também gera custos elevados para o sistema público.

Um estudo publicado em maio de 2025 na Revista Brasileira de Cancerologia, elaborado pelo INCA, estima que o impacto econômico do tabagismo no Brasil chega a R$ 153,5 bilhões por ano, considerando gastos com tratamento médico, perda de produtividade e mortes prematuras.

Esses custos representam uma pressão significativa sobre o sistema de saúde e reforçam a necessidade de ampliar políticas de prevenção e tratamento.

Fortalecimento das estratégias de combate

Diante da desaceleração na queda do número de fumantes, especialistas defendem o fortalecimento das estratégias de controle do tabagismo.

Entre as medidas consideradas essenciais estão a retomada de campanhas públicas de conscientização, aumento de impostos sobre produtos derivados do tabaco, intensificação da fiscalização e atualização das políticas regulatórias voltadas aos dispositivos eletrônicos.

O tratamento para quem deseja parar de fumar também continua sendo um pilar importante dessas estratégias. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece acompanhamento gratuito com apoio psicológico, atendimento em grupo e medicamentos que ajudam a reduzir a dependência da nicotina, como bupropiona e terapias de reposição de nicotina em adesivos ou gomas.

Especialistas afirmam que, embora o Brasil tenha avançado significativamente nas últimas décadas, manter a tendência de queda do tabagismo exigirá políticas públicas consistentes e adaptadas aos novos desafios impostos pela indústria do tabaco e pelas mudanças no comportamento dos consumidores.

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