Estudo internacional confirma eficácia elevada da Butantan-DV cinco anos após aplicação e reforça importância do imunizante no enfrentamento da dengue
Por Paloma de Sá |GNEWSUSA
Um acompanhamento científico de longo prazo revelou que a vacina brasileira contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan mantém proteção consistente contra as formas mais perigosas da doença mesmo cinco anos após a imunização. Os resultados, divulgados na revista científica internacional Nature Medicine, apontam que o imunizante Butantan-DV alcançou 80,5% de eficácia na prevenção de dengue grave e de casos com sinais de alerta, considerados os quadros mais preocupantes da infecção.
A pesquisa analisou o desempenho da vacina ao longo de meia década em milhares de voluntários brasileiros, confirmando que o imunizante oferece não apenas proteção individual, mas também potencial para contribuir na redução das hospitalizações associadas à doença.
Estudo acompanhou quase 17 mil participantes no país
O trabalho científico faz parte do ensaio clínico de fase 3 da vacina, etapa considerada decisiva para avaliar segurança e eficácia antes da adoção em larga escala. Ao todo, 16.235 pessoas entre dois e 59 anos participaram do estudo, conduzido em 16 centros de pesquisa distribuídos pelas cinco regiões do Brasil.
Os voluntários foram divididos em dois grupos: 10.259 receberam a vacina, enquanto 5.976 receberam placebo, permitindo que os pesquisadores comparassem diretamente os resultados ao longo do tempo.
Durante os cinco anos de acompanhamento, os cientistas observaram que a proteção contra formas graves da doença permaneceu elevada. Um dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi o impacto sobre internações: nenhum participante vacinado precisou ser hospitalizado por dengue, enquanto oito casos de hospitalização foram registrados entre aqueles que receberam placebo.
No balanço geral do estudo, a vacina apresentou 65% de eficácia contra casos sintomáticos da doença causados por qualquer sorotipo do vírus, índice considerado robusto para um imunizante contra dengue.
De acordo com a diretora médica de Ensaios Clínicos do Instituto Butantan, Fernanda Boulos, os resultados reforçam a relevância da vacina para o controle da doença no país.
“Os dados de acompanhamento de longo prazo demonstram que a proteção gerada pela vacinação permanece consistente e que o perfil de segurança do imunizante se mantém positivo em todos os grupos avaliados”, afirmou.
Imunização começou em 2026 no Brasil
A vacina Butantan-DV recebeu autorização para uso da Agência Nacional de Vigilância Sanitária em novembro de 2025, sendo indicada para pessoas entre 12 e 59 anos.
Após a aprovação regulatória, o Instituto Butantan iniciou o envio das primeiras remessas ao Programa Nacional de Imunizações, responsável por organizar a distribuição das doses dentro do Sistema Único de Saúde.
O Ministério da Saúde iniciou a aplicação da vacina em janeiro de 2026, por meio de um projeto piloto implementado em três municípios brasileiros:
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Nova Lima
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Maranguape
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Botucatu
A iniciativa tem como meta imunizar até 90% do público-alvo nessas localidades, permitindo avaliar a logística e a efetividade da vacinação em condições reais de uso.
Segurança avaliada em diferentes idades
Além da eficácia, os cientistas também monitoraram possíveis efeitos adversos associados à vacina. O estudo indica que o imunizante apresenta perfil de segurança considerado sólido, sem registros de problemas relevantes ao longo do período de acompanhamento.
Entre os efeitos relatados pelos participantes, os mais frequentes foram leves ou moderados, incluindo dor de cabeça, cansaço, erupções na pele, coceira e dor muscular.
Outro ponto destacado pelos pesquisadores é que não foram observados riscos adicionais em pessoas que nunca haviam tido contato prévio com o vírus da dengue, condição conhecida como soronegatividade.
Durante os cinco anos de análise, nenhum caso de dengue grave foi registrado entre os participantes que receberam a vacina. No grupo imunizado, apenas seis pessoas desenvolveram dengue com sinais de alerta, quadro intermediário da doença.
Proteção varia conforme histórico de infecção
Os resultados também indicaram diferenças na resposta ao imunizante dependendo da exposição anterior ao vírus.
Entre os participantes que já haviam contraído dengue anteriormente, a eficácia da vacina contra qualquer sorotipo do vírus foi estimada em 77,1%. Já entre aqueles sem histórico prévio da doença, a proteção ficou em 58,9%.
Segundo os pesquisadores, essa variação ocorre porque o sistema imunológico reage de forma mais intensa quando já possui memória de contato com o vírus.
A análise por sorotipo mostrou resultados positivos especialmente para:
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DENV-1, com eficácia de até 79,4% entre indivíduos previamente expostos;
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DENV-2, com eficácia de 75,2% nesse mesmo grupo.
Durante o período do estudo, os sorotipos DENV-3 e DENV-4 tiveram circulação limitada no Brasil, o que impossibilitou a medição estatística completa da eficácia contra essas variantes.
Mesmo assim, os pesquisadores destacam que a vacina foi projetada para proteger contra os quatro sorotipos conhecidos do vírus da dengue.
Eficácia tende a ser maior entre adultos
A análise por faixa etária também indicou variações nos níveis de proteção. Após cinco anos de acompanhamento, a eficácia contra dengue sintomática foi estimada em:
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74,8% entre adultos de 18 a 59 anos
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69,5% entre adolescentes de 7 a 17 anos
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60,6% entre crianças de dois a seis anos
Os cientistas explicam que adultos tendem a apresentar maior proteção porque uma parcela significativa dessa população já teve contato prévio com o vírus ao longo da vida, o que fortalece a resposta imunológica após a vacinação.
Tecnologia utiliza vírus atenuados
A Butantan-DV é uma vacina tetravalente, desenvolvida para estimular o organismo a reconhecer os quatro sorotipos da dengue: DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4.
O imunizante utiliza vírus vivos atenuados, ou seja, versões enfraquecidas do vírus que não provocam a doença, mas são capazes de induzir o sistema imunológico a produzir anticorpos protetores.
A tecnologia utilizada tem origem em pesquisas conduzidas pelos National Institutes of Health dos Estados Unidos e foi posteriormente adaptada e desenvolvida pelo Instituto Butantan no Brasil.
Após a aplicação, ocorre uma replicação controlada do vírus vacinal no organismo, processo que estimula a produção de anticorpos específicos capazes de reconhecer e neutralizar futuras infecções.
Dose única facilita campanhas de vacinação
Um dos principais diferenciais da vacina brasileira é o esquema de aplicação em dose única.
Segundo os pesquisadores, a primeira dose já é capaz de gerar uma resposta imunológica suficientemente robusta. Estudos demonstraram que uma segunda aplicação não produz aumento significativo na produção de anticorpos, característica comum a algumas vacinas de vírus vivos atenuados.
Essa particularidade pode facilitar estratégias de vacinação em larga escala, uma vez que simplifica a logística de distribuição e aumenta a adesão da população, fatores considerados essenciais para ampliar a cobertura vacinal.
O ensaio clínico da Butantan-DV contou com financiamento do Ministério da Saúde do Brasil, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e da Fundação Butantan.
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