Relatos de ex-funcionários apontam jornadas de até 40 horas sem descanso, falta de pagamento, intimidação com ameaças e condições de trabalho degradantes sob responsabilidade do empregador identificado como Henrique.
Por Redação | GNEWSUSA
A empresa Bozetti’s, administrada pelo empregador identificado como Henrique, é alvo de denúncias graves feitas por trabalhadores brasileiros nos Estados Unidos. Relatos, áudios e prints de conversas no WhatsApp obtidos pelas vítimas revelam um cenário alarmante de abusos, violência psicológica, ameaças e exploração laboral, que pode configurar trabalho em condições análogas à escravidão.
O grupo que atuava na empresa afirma que vivia uma rotina marcada por medo, pressão intensa e constante, além da ausência de direitos básicos.
Segundo relatos, durante uma forte tempestade de neve, os trabalhadores foram obrigados a cumprir jornadas exaustivas de 36 e até 40 horas seguidas, sem descanso.

Os denunciantes afirmam que a pressão era constante e acompanhada de ameaças, com frases como “coloca pressão nesses brasileiros pra eles voltarem logo pro Brasil” e “vocês têm que se lascar pra vocês aprenderem”. Segundo eles, esse tipo de postura era recorrente no ambiente de trabalho.
Em outro episódio grave, Henrique teria ameaçado colocar um trabalhador dentro de uma vala e jogar terra por cima, além de afirmar que andava armado, em uma tentativa de intimidação. Em áudios obtidos pela equipe do jornal, o empregador também teria feito ameaças de “fazer desaparecer” o trabalhador caso ele faltasse ao serviço, citando até o uso de meios ilegais para intimidá-lo.

Os trabalhadores relatam ainda ameaças de perseguição após começarem a denunciar os abusos. Segundo os depoimentos, o empregador afirmou que iria atrás dos trabalhadores e de suas famílias no Brasil, dizendo que iria “mover o inferno” para encontrá-los e que sabia onde moravam. As famílias, segundo os relatos, vivem com medo dessas ameaças.
As denúncias também incluem episódios de humilhação e agressões verbais. Em um dos casos, Henrique ordena que joguem água no rosto de um trabalhador. Em outros momentos, funcionários são xingados e desqualificados.
Outro ponto relatado é o fornecimento de equipamentos inadequados para o trabalho. Segundo os trabalhadores, eles eram obrigados a trabalhar com pás quebradas e ferramentas em más condições, sendo informados de que isso era “para aprender a trabalhar”, evidenciando negligência e possível exposição a riscos.

Os relatos também apontam situações graves de desrespeito à saúde dos trabalhadores. Em um dos episódios, durante uma jornada exaustiva, um trabalhador passou mal a ponto de quase desmaiar. Em áudios, ele informa ao empregador que estava com fortes dores de cabeça, mesmo após medicação, e que temia perder a consciência. Ainda assim, segundo os relatos, foi ignorado e obrigado a continuar trabalhando. A resposta do empregador teria sido: “nem hoje e nem amanhã você pode ficar doente, só quarta-feira”, exigindo a continuidade do serviço mesmo diante do evidente estado de debilidade.
Além disso, os trabalhadores denunciam a imposição de contratos que teriam sido assinados sem pleno entendimento das condições.
Segundo os relatos, esses documentos os enquadravam como subcontratados. O contrato previa obrigações típicas desse modelo, como a atuação independente e a responsabilidade dos próprios trabalhadores por impostos, custos e encargos.

No entanto, os trabalhadores afirmam que não receberam orientação adequada sobre o conteúdo dos documentos e não compreenderam, no momento da assinatura, as implicações práticas desse tipo de contratação — que, na prática, os colocava na posição de prestadores de serviço independentes, como se fossem uma empresa.
De acordo com os depoimentos, o empregador teria orientado que os documentos fossem assinados, minimizando sua relevância e afirmando que se tratava apenas de um “contrato de gaveta”. Os trabalhadores relatam que, diante dessa orientação, acabaram assinando sem buscar esclarecimentos adicionais e sem compreender integralmente o conteúdo dos documentos no momento da assinatura. Trata-se, segundo os relatos, de trabalhadores de origem simples, o que pode ter contribuído para a dificuldade de compreensão técnica dos documentos.

Por outro lado, os elementos relatados indicam uma dinâmica distinta daquela prevista no próprio contrato. Segundo os depoimentos, os trabalhadores não possuíam empresa própria nem qualquer registro formal como prestadores de serviço, não tinham autonomia na execução das atividades e seguiam ordens diretas do empregador. Além disso, utilizavam uniforme da própria empresa Bozetti’s, o que caracteriza um padrão mais comum de vínculo empregatício.
Outro ponto que chama atenção são os valores pagos. De acordo com os relatos, houve casos de trabalhadores recebendo cerca de 18 dólares por hora — valor considerado incompatível com o modelo de subcontratação, já que, nessa modalidade, o profissional, por atuar como empresa, normalmente recebe quantias mais elevadas para arcar com impostos, custos próprios e ausência de benefícios.
Também foi relatada a ausência de descontos básicos que normalmente aparecem no contracheque de funcionários registrados nos Estados Unidos, como “Federal Income Tax”, “Social Security” e “Medicare”, o que levanta ainda mais questionamentos sobre a forma de contratação.

Diante desse cenário, especialistas apontam que a utilização do subcontrato, nesses moldes, pode ter sido uma estratégia para evitar obrigações trabalhistas e reduzir custos, transferindo responsabilidades aos trabalhadores. Dessa forma, o empregador se resguardaria juridicamente.
No campo financeiro, os trabalhadores afirmam não ter recebido pelos serviços prestados. Em um dos casos, o empregador teria respondido que não pagaria “nem um centavo” e que o funcionário poderia “ir à corte” se quisesse receber. Há também relatos de ameaça de sustar o cheque, ou seja, cancelar o pagamento do valor devido, como forma de pressão.

Outro ponto grave é a prática de exigir trabalho além do horário sem pagamento. Segundo um dos trabalhadores, quando o serviço ultrapassava o horário previsto, os funcionários eram obrigados a continuar trabalhando sem remuneração, sob a justificativa de que teriam “enrolado” durante o expediente.
Os relatos também indicam que os trabalhadores recebiam valores inferiores aos praticados no mercado. Enquanto outros empregadores pagam até 40 dólares por hora em trabalhos pesados durante tempestades de neve, a empresa Bozetti’s pagaria cerca de 25 dólares por hora.
Além disso, há denúncias de que os ex-funcionários eram obrigados a arcar com custos de ferramentas e equipamentos de trabalho, muitas vezes comprando materiais com recursos próprios e sem reembolso. Também relatam que, em caso de danos a veículos da empresa, teriam que trabalhar sem receber para compensar os prejuízos.
A situação se agrava pelo fato de muitos brasileiros estarem em condição de vulnerabilidade, seja pela dificuldade com o idioma, pelo desconhecimento das leis locais ou pelo medo de represálias. Esse contexto favorece a ocorrência de abusos sistemáticos, segundo especialistas.
Diante da gravidade das denúncias, os trabalhadores procuraram o repórter investigativo Thathyanno Desa, conhecido por dar voz a brasileiros no exterior e expor casos de injustiça. O jornalista já atuou em diversas denúncias semelhantes, ajudando a trazer à tona situações que, muitas vezes, permanecem escondidas pela distância e pelo medo das vítimas.
Procurado pela reportagem para apresentar sua versão dos fatos, o empregador identificado como Henrique demonstrou resistência ao ser questionado pelo repórter investigativo e não forneceu esclarecimentos detalhados sobre as denúncias até o fechamento desta matéria.
Especialistas apontam que os fatos relatados podem configurar crimes como assédio moral, ameaça, exploração de mão de obra e até trabalho em condições análogas à escravidão.
O caso levanta um alerta sobre a situação de trabalhadores brasileiros no exterior e reforça a necessidade de investigação e atuação das autoridades. Para as vítimas, mais do que reparação financeira, a busca é por justiça e pela recuperação da dignidade.
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