Pesquisa revela que glóbulos vermelhos desempenham papel inesperado no controle da glicose em ambientes com pouco oxigênio
Por Paloma de Sá |GNEWSUSA
Pessoas que vivem em regiões de alta altitude, como áreas dos Andes e do Himalaia, apresentam menor incidência de diabetes — uma associação já observada há anos pela ciência. Agora, um novo estudo traz evidências mais claras sobre os mecanismos por trás desse fenômeno, revelando um papel até então pouco explorado dos glóbulos vermelhos na regulação do açúcar no sangue.
A relação entre altitude elevada e menor risco de diabetes sempre intrigou pesquisadores. Em ambientes com menor disponibilidade de oxigênio — condição conhecida como hipóxia — o organismo humano precisa se adaptar para manter suas funções vitais.
Um estudo recente publicado na revista científica Cell Metabolism investigou justamente como essas adaptações podem influenciar o metabolismo da glicose. A pesquisa foi conduzida por cientistas da University of Maryland, da University of Colorado e dos Gladstone Institutes.
Os resultados indicam que os glóbulos vermelhos — conhecidos principalmente por transportar oxigênio — também podem atuar como reguladores diretos da glicose no sangue.
Glóbulos vermelhos como “reguladores ocultos”
Durante os experimentos, realizados inicialmente em camundongos, os pesquisadores observaram que a exposição a baixos níveis de oxigênio levou a uma resposta metabólica inesperada.
Nessas condições, os glóbulos vermelhos passaram a absorver quantidades significativamente maiores de glicose. Esse processo ocorre com a ajuda de uma proteína chamada GLUT1, responsável por transportar glicose para dentro das células.
Com maior atividade dessa proteína, essas células chegaram a captar até três vezes mais glicose do que em condições normais.
Além de reduzir a quantidade de açúcar circulante no sangue, essa adaptação também favorece a liberação de oxigênio para os tecidos — um mecanismo duplo que ajuda o corpo a lidar com a escassez de oxigênio e, ao mesmo tempo, melhora o controle glicêmico.
Segundo a bioquímica Isha Jain, autora principal do estudo, os glóbulos vermelhos representam um “compartimento oculto” no metabolismo da glicose, ainda pouco compreendido pela ciência.
O que isso significa para o diabetes
Os achados ajudam a explicar por que populações que vivem em grandes altitudes apresentam menores taxas de diabetes tipo 2, embora fatores como estilo de vida, alimentação e nível de atividade física também influenciem esse cenário.
Além disso, a descoberta abre caminho para novas abordagens terapêuticas.
Os cientistas testaram um composto experimental chamado HypoxyStat, que simula no organismo os efeitos da hipóxia. A ideia é reproduzir, por meio de medicamentos, o aumento da capacidade dos glóbulos vermelhos de consumir glicose.
Se essa estratégia se mostrar eficaz e segura em humanos, poderá representar uma nova linha de tratamento — complementar às terapias atuais, que se concentram principalmente na ação da insulina.
Resultados ainda são preliminares
Apesar do avanço, especialistas alertam que os resultados ainda estão em fase inicial. A maior parte dos testes foi realizada em animais, e estudos clínicos em humanos ainda são necessários para confirmar a eficácia e a segurança dessas descobertas.
Isso significa que, por enquanto, não há recomendação para que pessoas busquem exposição à altitude como forma de prevenção ou tratamento do diabetes.
Um novo olhar sobre o metabolismo
A pesquisa reforça uma mudança importante na forma como a ciência entende o controle da glicose no organismo. Até então, o foco estava quase exclusivamente em hormônios como a insulina.
Agora, os glóbulos vermelhos surgem como protagonistas inesperados nesse processo, ampliando as possibilidades de investigação e tratamento.
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