Brasil, maior economia do bloco, perde protagonismo e passa a concentrar exigências ambientais da Europa
Por Ana Raquel |GNEWSUSA
Depois de mais de duas décadas de negociações, a União Europeia e o Mercosul formalizaram neste sábado (17), no Paraguai, o acordo que cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. O tratado reúne cerca de 720 milhões de consumidores e um Produto Interno Bruto combinado estimado em US$ 22 trilhões, com impacto direto sobre exportações, investimentos e cadeias produtivas globais.
Apesar de o Brasil ser a maior economia do Mercosul e peça central nas negociações, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não participou da cerimônia de assinatura. Ele foi o único chefe de Estado sul-americano ausente do evento, que contou com a presença da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, do presidente do Conselho Europeu, António Costa, e dos presidentes da Argentina, Uruguai, Bolívia e Paraguai.
A ausência ocorre um dia após Lula receber von der Leyen no Rio de Janeiro, onde afirmou que o acordo foi resultado de “25 anos de sofrimento”. Mesmo assim, o presidente brasileiro optou por não comparecer ao ato formal que selou o tratado, abrindo espaço para críticas sobre a condução política do processo e o enfraquecimento do protagonismo brasileiro no bloco.
Europa avança enquanto impõe condições ao Brasil
Do lado europeu, o acordo foi aprovado provisoriamente pelo Comitê de Representantes Permanentes da União Europeia (Coreper), autorizando Ursula von der Leyen a assinar o texto em nome do bloco. A decisão foi tomada por maioria qualificada, apesar da resistência de alguns países.
Mesmo com a assinatura, o tratado ainda precisará passar pelo Parlamento Europeu e, possivelmente, por parlamentos nacionais, o que pode atrasar sua entrada em vigor.
Exigências ambientais recaem sobre o governo Lula
No Mercosul, o acordo também depende da aprovação dos Congressos nacionais. No caso brasileiro, a ratificação ocorre sob pressão direta da União Europeia para que o governo comprove avanços ambientais — exigência concentrada principalmente sobre o Brasil.
Setores do agronegócio e da indústria avaliam que o governo Lula aceitou discutir compromissos ambientais adicionais sem garantir, até o momento, contrapartidas equivalentes de acesso ao mercado europeu. A crítica recorrente é de que o Brasil passou a ser tratado como parte que precisa “comprovar boa conduta”, enquanto países europeus mantêm barreiras protecionistas para seus próprios produtores.
O texto do acordo prevê redução gradual de tarifas, abertura de mercados industriais e agrícolas, regras comuns de comércio e estímulo a investimentos. No entanto, especialistas alertam que compromissos regulatórios assimétricos podem comprometer a competitividade brasileira, especialmente do agronegócio, principal motor das exportações do país.
Ratificação será o verdadeiro teste político
No Mercosul, o tratado precisará ser aprovado pelos Parlamentos do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Há discussão sobre a aplicação provisória de partes do acordo, como a redução tarifária, mas a proposta enfrenta resistência política.
Após 25 anos de negociações, o acordo UE–Mercosul avança, mas o Brasil chega à fase decisiva sem liderança clara no processo. A ausência de Lula na assinatura e a concentração de cobranças ambientais sobre o país reforçam críticas de que o governo priorizou alinhamento ideológico externo em detrimento do protagonismo político e da defesa dos interesses produtivos nacionais.
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