Investigações analisam modelo de crédito criado em governos estaduais e hoje sob apuração
Por Ana Raquel |GNEWSUSA
As investigações em curso sobre fraudes envolvendo crédito consignado do INSS e operações financeiras do Banco Master expõem mais do que irregularidades bancárias: revelam um modelo estruturado a partir de decisões adotadas durante governos do PT, sustentado por discurso social e transformado em engenharia financeira de alto risco, hoje sob apuração da Polícia Federal, do Banco Central e do Ministério Público.
No centro desse enredo está o empresário Augusto “Guga” Lima, apontado por investigadores como peça-chave na ligação entre políticas públicas estaduais e a expansão de operações privadas que movimentaram bilhões de reais segundo apurações em andamento, sem lastro comprovado.
Lima foi sócio de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Ambos chegaram a ser presos preventivamente na Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em novembro, para apurar suspeitas de fraudes financeiras. Embora tenham sido soltos por decisão do TRF da 1ª Região, seguem sob monitoramento eletrônico e devem prestar novos depoimentos à PF entre 26 e 28 de janeiro.
A raiz do problema: quando política social vira instrumento financeiro
A origem do escândalo remonta à Cesta do Povo, empresa estatal criada nos anos 1970 pelo governo da Bahia como política de abastecimento popular. Durante décadas, o programa teve caráter social claro e função limitada.
Essa lógica começou a mudar nos anos 2000 e foi radicalmente alterada entre 2015 e 2018, período em que governos do PT no estado converteram o programa em uma plataforma de crédito consignado, com desconto direto em folha de pagamento de servidores públicos, aposentados e pensionistas.
Sob o argumento de “ampliação do alcance social”, o Estado passou a operar como porta de entrada para a geração massiva de crédito, usando rendas públicas como lastro e transferindo o risco para o sistema financeiro.
O operador privado fora do Estado
Segundo informações reunidas pelas autoridades, a engenharia operacional e financeira desse novo modelo foi conduzida por Guga Lima, que atuava fora da estrutura formal do Estado, mas operando um sistema diretamente dependente de políticas públicas.
O mecanismo combinava a venda de itens básicos com a adesão dos beneficiários a operações de crédito consignado. Na prática, isso criou uma máquina contínua de geração de recebíveis, que rapidamente passou a ser utilizada como base para operações financeiras complexas.
A chancela política do PT e a entrada do Banco Master
Em 2018, já no governo Rui Costa (PT), o modelo foi oficialmente institucionalizado, consolidando a transformação de uma política social em ferramenta de crédito. No mesmo período, Guga Lima firmou acordo de compartilhamento das operações do CredCesta com o Banco Master, abrindo as portas do sistema bancário privado para um modelo gestado dentro do governo estadual.
Em 2020, Lima tornou-se sócio de Vorcaro. A partir daí, o desenho criado sob administrações PT na Bahia passou a ser replicado em escala nacional, tornando-se um dos pilares da expansão do Banco Master.
Consignados, fundos e alavancagem
As carteiras de crédito consignado passaram a ser cedidas, securitizadas e usadas como lastro em fundos de investimento, FIDCs e outras estruturas financeiras. Esse fluxo contínuo de ativos contribuiu diretamente para a alavancagem do grupo e foi utilizado como parte das garantias na tentativa de venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB).
Em 2024, o CredCesta já operava em 176 municípios de 24 estados, segundo dados apresentados pela própria instituição — um crescimento acelerado sustentado por crédito vinculado a benefícios públicos.
Associações frágeis e bilhões sem lastro
Relatórios preliminares do Banco Central, da Polícia Federal e do Ministério Público Federal indicam que parte relevante desses créditos foi originada por associações de servidores públicos da Bahia, entidades que não apresentavam estrutura, base de associados ou capacidade financeira compatíveis com os valores movimentados.
As investigações apontam que, entre 2021 e 2025, o banco firmou centenas de milhares de contratos de consignado com beneficiários do INSS, sendo que uma parcela significativa não foi apresentada às autoridades reguladoras.
Os números sob apuração são expressivos:
• R$ 6,7 bilhões em consignados sem comprovação documental adequada
• R$ 5,5 bilhões classificados como valores acessórios ou prêmios financeiros sem explicação econômica clara
• R$ 12,2 bilhões em carteiras apresentadas ao BRB, hoje no centro das investigações
Fundos públicos, risco oculto e irresponsabilidade institucional
Parte desses créditos circulou por fundos estruturados, alguns deles com recursos ligados ao setor público. Especialistas alertam que, embora esse tipo de operação não seja ilegal em tese, o uso de estruturas intermediárias pode ocultar riscos reais, especialmente quando o lastro dos ativos é frágil ou inexistente.
O resultado é um modelo que privatiza ganhos e socializa riscos, padrão recorrente em escândalos financeiros associados à má gestão e à captura política do Estado.
Congresso travado e blindagem institucional
No Congresso Nacional, a tentativa de instalar uma CPI específica para investigar o Banco Master enfrenta resistência. A oposição tem recorrido à CPMI do INSS e à CPI do Crime Organizado para avançar nas apurações.
Parlamentares relatam ainda que decisões do Supremo Tribunal Federal vêm limitando o acesso a provas já reunidas pela Polícia Federal, o que reforça a percepção de blindagem institucional em torno de personagens centrais do caso.
Um padrão que se repete
À medida que as investigações avançam, fica evidente um padrão: estruturas associativas frágeis, crédito lastreado em benefícios públicos, circulação por fundos e ausência de fiscalização eficaz.
As mesmas associações envolvidas no caso do Banco Master aparecem também nas investigações da CPMI do INSS, que apura descontos associativos irregulares e possíveis vínculos sem consentimento válido de aposentados e pensionistas.
Para investigadores, o escândalo do Banco Master não é um acidente, mas o resultado direto de decisões políticas tomadas ao longo de anos, sob governos que transformaram políticas sociais em instrumentos financeiros sem controle adequado.
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