Análise da USP indica que desigualdade persiste mesmo quando fatores sociais e regionais são controlados
Por Tatiane Martinelli | GNEWSUSA
Pessoas negras apresentam maior risco de morte por homicídio no Brasil quando comparadas a pessoas brancas, mesmo entre indivíduos com perfil social semelhante e residentes em regiões com níveis próximos de violência. A conclusão é de um estudo conduzido pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), com base em dados nacionais de óbitos registrados em 2022.
A pesquisa combinou técnicas de análise geoespacial com métodos estatísticos avançados para reduzir vieses na comparação entre grupos populacionais. Os dados indicam que pessoas pardas e pretas representaram quase 78% das vítimas de homicídio no país, enquanto pessoas brancas corresponderam a pouco mais de 21% das mortes violentas.
Ao aplicar uma metodologia de identificação de aglomerados espaciais, os pesquisadores classificaram os municípios brasileiros em áreas de alta incidência de homicídios, chamadas de hotspots, e áreas de baixa incidência, conhecidas como coldspots. Nos municípios considerados hotspots, a taxa padronizada de homicídios chegou a 43,2 mortes por 100 mil habitantes — quase cinco vezes superior à observada nos coldspots, onde o índice foi de 8,8 por 100 mil.
Nessas regiões mais violentas, a disparidade racial se mostrou ainda mais acentuada: cerca de nove em cada dez vítimas de homicídio eram negras, com predominância de pessoas pardas. O mapeamento revelou maior concentração de hotspots no Nordeste, além de áreas do Norte e de regiões específicas da Amazônia. Já municípios do Sul e do Sudeste figuram majoritariamente entre aqueles com menores taxas de homicídio.
Para verificar se as diferenças observadas poderiam ser explicadas apenas por fatores geográficos ou socioeconômicos, os autores utilizaram o chamado escore de propensão, que permite a comparação entre grupos estatisticamente equivalentes. Foram considerados critérios como sexo, idade, escolaridade, estado civil e tipo de município. Mesmo após esses ajustes, a cor da pele permaneceu associada a maior risco de morte violenta.
No cenário mais conservador da análise, pessoas negras apresentaram 49% mais chance de morrer por homicídio em relação a pessoas brancas. Em modelos menos restritivos, esse risco chegou a ser duas vezes maior.
Segundo os pesquisadores, os resultados reforçam evidências já apontadas por estudos anteriores sobre a concentração da violência letal em determinados grupos populacionais, agora analisada de forma integrada com o território. O uso combinado de ferramentas estatísticas e espaciais, afirmam, contribui para identificar áreas prioritárias para políticas públicas e para uma alocação mais eficiente de recursos na segurança e prevenção da violência.
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