País precisará de até 1,3 milhão de novos trabalhadores para equilibrar relação entre ativos e pensionistas; imigrantes já têm papel central nas contribuições
Por Chico Gomes | GNEWSUSA
Portugal terá de incorporar entre 1,2 e 1,3 milhão de novos trabalhadores ativos até 2030 para garantir o equilíbrio financeiro da Segurança Social. A conclusão é de um estudo desenvolvido pelo Centro de Formação Prepara Portugal, com base em dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), da Pordata e do próprio sistema previdencial português.
A investigação parte de um dos principais indicadores da sustentabilidade das pensões: a relação entre a população ativa e o número de reformados. Estudos atuariais e relatórios de referência apontam que o país precisa se aproximar de um rácio de 2,5 trabalhadores no ativo para cada pensionista, a fim de assegurar o financiamento regular das pensões nas próximas décadas. Atualmente, esse rácio está em torno de 1,7 trabalhador por reformado.
O cenário revela um desafio estrutural ligado ao envelhecimento da população e tem sido analisado de forma continuada por Higor Cerqueira, criador e diretor pedagógico do Prepara Portugal, reconhecido pelo trabalho junto à comunidade imigrante e pela análise técnica dos impactos da mobilidade internacional na economia portuguesa.
“Com base nos registos oficiais, o estudo estima que, para atingir esse equilíbrio até 2030, seria necessário um reforço acumulado entre 1,2 e 1,3 milhões de trabalhadores ativos líquidos. Este volume inclui a necessidade de compensar a saída de cerca de 500 mil pessoas para a reforma, num país com forte tendência de envelhecimento”, explica Cerqueira, que em março estará à frente do Estrela do Atlântico, prêmio que valoriza iniciativas de imigrantes na Europa.
As análises foram coordenadas pelo formador Pedro Stob, no âmbito do curso de Análise de Dados e TI Aplicada à Gestão, e utilizam séries estatísticas públicas referentes ao período entre 2010 e 2025.
Os dados mostram ainda que a imigração tem sido um dos principais vetores de reforço da população ativa. O número de imigrantes residentes em Portugal passou de cerca de 430 mil em 2010 para mais de 1,5 milhões em 2024. Mais relevante do que o crescimento absoluto é a composição etária: cerca de 85% dos imigrantes estão em idade ativa, entre os 18 e os 64 anos.
A taxa de emprego dessa população atingiu 67% em 2025, segundo dados do INE e da Segurança Social, aproximando-se da taxa de emprego dos nacionais, que se situa em torno de 72% no mesmo período. Esse reforço da força de trabalho tem impacto direto no sistema de proteção social.
Atualmente, Portugal apresenta uma taxa de dependência de idosos superior a 37%, de acordo com o INE, o que significa que há um número crescente de pensionistas para cada trabalhador ativo. Segundo Cerqueira, o risco de desequilíbrio é claro. “Um cenário de rutura ocorre quando as contribuições deixam de ser suficientes para garantir o pagamento regular das pensões, obrigando o Estado a recorrer de forma continuada ao Orçamento do Estado, ao aumento de impostos ou à redução das prestações”, alerta.
Pedro Stob acrescenta que o estudo permite mensurar essa pressão de forma objetiva. Cada variação de 0,1 no rácio entre ativos e pensionistas representa, na prática, a necessidade de mais 150 mil a 170 mil pessoas a trabalhar e a descontar. “Pequenas alterações demográficas traduzem-se rapidamente em dezenas de milhares de novos contribuintes necessários para manter o equilíbrio financeiro da Segurança Social”, explica.
Entre 2010 e 2025, a participação dos trabalhadores imigrantes na base contributiva da Segurança Social mais que duplicou, passando de cerca de 3% para uma projeção de 6% do total. Em termos absolutos, os números reforçam essa tendência: em 2024, as contribuições dos estrangeiros ultrapassaram os 3,6 mil milhões de euros, representando mais de 12% do total arrecadado pelo regime contributivo, com saldo líquido positivo em relação às prestações recebidas.
Apesar dos indicadores favoráveis, o estudo alerta para um risco estrutural que pode comprometer esse contributo. A lentidão nos processos de reconhecimento de qualificações académicas e profissionais, na validação de competências adquiridas no estrangeiro e nos trâmites administrativos para obtenção e renovação da residência legal tem levado muitos trabalhadores a procurar outros países europeus.
Para Higor Cerqueira, este é o ponto central do debate. “A questão que Portugal precisa enfrentar não é apenas quantas pessoas entram, mas quantas conseguem efetivamente trabalhar, contribuir e permanecer. Quando um profissional qualificado fica meses ou anos impedido de exercer, existe um custo direto para a economia e para a Segurança Social, porque essas contribuições deixam de existir”, afirma.
Ele destaca que a integração eficaz passa por políticas públicas mais céleres, acesso à informação e formação alinhada às necessidades reais do mercado de trabalho. “O Prepara Portugal atua exatamente nesse cruzamento entre análise de dados, capacitação técnica e a experiência prática de quem vive diariamente o processo migratório em Portugal”, conclui.
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