Falhas na higiene doméstica colocam alimentos em risco e aumentam chance de surtos bacterianos no Brasil

Pesquisa nacional revela práticas inseguras no manuseio e armazenamento de alimentos em milhares de lares brasileiros, mesmo durante período de maior atenção sanitária
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Hábitos cotidianos adotados dentro de casa, como lavar carnes na pia da cozinha, consumir alimentos malpassados ou armazenar sobras de forma inadequada, continuam expondo milhões de brasileiros a doenças transmitidas por alimentos. É o que aponta um amplo estudo nacional que analisou práticas de higiene, manipulação e conservação de alimentos em domicílios de todas as regiões do país.

Um levantamento conduzido por pesquisadores do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC) identificou falhas recorrentes nos cuidados domésticos com alimentos, capazes de favorecer a proliferação de bactérias patogênicas e elevar o risco de surtos de infecção alimentar. A pesquisa ouviu cerca de 5 mil domicílios brasileiros, abrangendo diferentes faixas de renda e realidades regionais.

O estudo, desenvolvido no âmbito dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão apoiados pela FAPESP, evidenciou que práticas inadequadas seguem sendo comuns, mesmo em um período marcado por maior preocupação com higiene, como foi a pandemia de Covid-19. Os resultados foram publicados em revista científica internacional especializada em alimentação e sociedade.

Segundo os pesquisadores, uma das principais fragilidades está na higienização de frutas, verduras e legumes. Apenas pouco mais de um terço dos participantes afirmou realizar a limpeza correta desses alimentos. Como muitos desses produtos são consumidos crus, a falha no processo aumenta significativamente o risco de ingestão de microrganismos nocivos à saúde.

A recomendação sanitária inclui lavagem em água corrente, seguida de imersão em solução sanitizante apropriada por tempo adequado e enxágue final com água potável. Ainda assim, o estudo constatou que parte expressiva da população utiliza apenas água ou produtos inadequados, como detergente ou sabão, que não eliminam agentes patogênicos e podem deixar resíduos químicos.

As proteínas animais também aparecem como um ponto crítico. Metade dos entrevistados afirmou lavar carnes cruas na pia da cozinha, prática contraindicada por favorecer a contaminação cruzada. O contato da água com a carne pode espalhar bactérias como Salmonella e Campylobacter para utensílios, superfícies e outros alimentos próximos. Além disso, uma parcela significativa da população relatou consumir carnes e ovos crus ou malpassados, aumentando o risco de infecções.

O armazenamento incorreto dos alimentos é outro fator de alerta. Quase 40% dos participantes disseram descongelar alimentos fora da geladeira, em temperatura ambiente, enquanto parte deles mantém sobras prontas fora da refrigeração por tempo prolongado. Essas condições favorecem a multiplicação acelerada de microrganismos, especialmente quando os alimentos permanecem na chamada “zona de perigo”, entre 10 °C e 50 °C.

De acordo com os especialistas, alimentos perecíveis devem ser refrigerados em até duas horas após o preparo. Em temperaturas inadequadas, bactérias podem dobrar de quantidade em poucos minutos, elevando o risco de intoxicações e infecções alimentares, inclusive em ambientes domésticos.

Em uma etapa complementar do estudo, moradores da Região Metropolitana de São Paulo monitoraram a temperatura de seus refrigeradores por três dias consecutivos. Os dados mostraram que a maioria dos equipamentos operava dentro da faixa considerada segura, o que indica que o principal problema não está no eletrodoméstico em si, mas nos hábitos adotados antes e depois do armazenamento.

A análise também revelou desigualdades associadas à renda familiar. Famílias com maior poder aquisitivo tendem a adotar práticas mais seguras, como o uso de soluções sanitizantes adequadas e o respeito às orientações de armazenamento. Já entre os grupos de menor renda, são mais comuns métodos ineficazes, como o uso de vinagre diluído para higienização e o descongelamento fora da geladeira.

Para os pesquisadores, os dados oferecem um retrato inédito e detalhado dos hábitos alimentares da população brasileira dentro de casa. Além de evidenciar riscos à saúde, o levantamento pode subsidiar políticas públicas, campanhas educativas e ações de prevenção voltadas à segurança dos alimentos.

O estudo reforça que pequenas mudanças no cotidiano — como a higienização correta de vegetais, o cozimento adequado de carnes e o armazenamento seguro — podem reduzir significativamente a ocorrência de doenças transmitidas por alimentos, protegendo a saúde das famílias brasileiras.

  • Leia mais:

https://gnewsusa.com/2026/01/virus-nipah-volta-a-preocupar-autoridades-de-saude-na-asia/

https://gnewsusa.com/2026/01/lutador-de-mma-e-condenado-a-prisao-perpetua-por-deixar-filha-de-5-anos-morrer-de-fome-nos-eua/

https://gnewsusa.com/2026/01/queda-de-aviao-no-nordeste-da-colombia-mata-15-pessoas/

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*