Bolsonaro e generais podem ir para presídio comum se perderem patentes no STM

Decisão do tribunal militar pode impactar critérios de custódia de ex-presidente e oficiais da reserva

Por Ana Raquel |GNEWSUSA 

O Superior Tribunal Militar (STM) deu início à fase de análise de representações que tratam da possível perda de postos e patentes de militares com decisões penais já proferidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em processos decorrentes das investigações instauradas após as eleições de 2022.

Entre os nomes alcançados pelas representações está o do ex-presidente Jair Bolsonaro, capitão reformado do Exército, além de oficiais-generais que ocuparam cargos de comando nas Forças Armadas e funções ministeriais em governos anteriores.

O procedimento atualmente em curso no STM não reavalia as condenações criminais impostas pelo STF, nem rediscute fatos, provas ou tipificações penais. Trata-se de uma análise estritamente funcional e administrativa, cujo objetivo é verificar se as condutas atribuídas aos réus, já reconhecidas pela Justiça comum, são compatíveis com a manutenção da condição de oficial das Forças Armadas, à luz do Estatuto dos Militares e da Constituição Federal.

Qual é o papel do STM nesse tipo de processo

A Constituição brasileira estabelece que a perda de posto e patente de oficiais somente pode ser declarada pelo Superior Tribunal Militar, mesmo quando a condenação criminal tenha ocorrido em outro ramo do Judiciário. Esse mecanismo funciona como uma instância específica de controle institucional das Forças Armadas, voltada à preservação da hierarquia, da disciplina e da imagem da carreira militar.

A sanção analisada pelo STM é classificada como administrativo-disciplinar, distinta da pena criminal. Em termos práticos, o tribunal avalia se o oficial condenado se tornou indigno ou incompatível com o oficialato, conceito jurídico previsto na legislação castrense e aplicado historicamente em situações consideradas graves sob a ótica militar.

Composição do tribunal e critérios de julgamento

O STM é composto por 15 ministros, sendo a maioria oriunda das próprias Forças Armadas — Exército, Marinha e Aeronáutica — além de ministros civis. Essa composição confere ao tribunal uma leitura própria e especializada sobre temas sensíveis como cadeia de comando, dever funcional, disciplina e responsabilidade institucional, distintos da abordagem adotada pela Justiça comum.

No julgamento das representações, não se analisa conveniência política nem repercussão pública, mas sim a adequação da permanência do oficial nos quadros militares, considerando parâmetros internos da carreira.

Consequências possíveis em caso de decisão desfavorável

Caso o STM decida pela perda de posto e patente, os efeitos não são automáticos sobre a execução penal, mas podem gerar desdobramentos relevantes:

1. Rompimento do vínculo institucional

O militar deixa de integrar oficialmente as Forças Armadas, perdendo prerrogativas, honrarias e direitos vinculados ao posto.

2. Reavaliação do local de custódia

Atualmente, alguns dos condenados cumprem pena em instalações militares ou policiais, em razão da condição funcional ou por critérios de segurança institucional. Uma eventual exclusão pode levar o Judiciário a reavaliar a adequação desses locais, embora qualquer transferência dependa de decisão específica do juízo da execução penal, não sendo consequência automática da perda de patente.

3. Impacto sobre remuneração e benefícios

Com uma eventual expulsão das Forças Armadas, o militar deixa de receber salários e vantagens vinculadas à carreira. Nesses casos, a legislação militar aplica um mecanismo administrativo que encerra o vínculo do expulso com a instituição, tratando-o, para fins internos, como desligado de forma definitiva.

Essa medida, no entanto, não retira automaticamente o direito de cônjuge e filhos à pensão, benefício que segue garantido pela lei e que atualmente é objeto de discussão no Congresso Nacional no contexto da reforma administrativa.

Cautela institucional e contexto político

Fontes do meio jurídico e militar avaliam que o STM tende a conduzir o processo com elevado grau de cautela, diante do peso institucional e simbólico dos nomes envolvidos, incluindo um ex-presidente da República e oficiais-generais.

O tribunal atua em um cenário marcado por tensões entre Poderes, debates sobre ativismo judicial, concentração de competências no STF e questionamentos sobre segurança jurídica. Nesse ambiente, decisões que possam gerar efeitos imediatos e sensíveis — como transferências abruptas para presídios comuns — tendem a ser analisadas com prudência, a fim de evitar escaladas institucionais ou interpretações de motivação política.

Diferença entre Justiça Penal e Justiça Militar

Especialistas ressaltam que a atuação do STM ocorre em um campo distinto daquele ocupado pelo STF. Enquanto a Suprema Corte julgou crimes de natureza penal, o tribunal militar examina exclusivamente a compatibilidade funcional dos condenados com a carreira militar, respeitando o princípio da separação de competências previsto no ordenamento jurídico brasileiro.

Esse modelo busca impedir que decisões penais produzam, de forma automática, efeitos administrativos irreversíveis, garantindo um rito próprio e específico para as Forças Armadas.

Tramitação e próximos passos

O processo no STM não possui prazo definido para conclusão e deve se estender ao longo de 2026. A tramitação envolve apresentação de defesas, manifestações do Ministério Público Militar, eventuais sustentações orais e posterior deliberação do colegiado.

O desfecho poderá estabelecer precedente relevante sobre os limites da responsabilização funcional de militares envolvidos em episódios de forte repercussão política.

Conclusão

A análise em curso no Superior Tribunal Militar representa mais um capítulo dos desdobramentos jurídicos do período pós-2022 e recoloca no centro do debate temas como equilíbrio entre Poderes, segurança jurídica e preservação institucional das Forças Armadas. Independentemente do resultado final, o caso tende a marcar a história recente da Justiça Militar brasileira e a influenciar futuras interpretações sobre a relação entre política, direito e carreira militar.

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