Lantânio, neodímio e térbio impulsionam cores vibrantes e motores de alta performance
Por Ana Raquel|GNEWSUSA
Pouco conhecidas do grande público, as chamadas terras raras ocupam hoje um papel central na economia global, na segurança nacional e na transição tecnológica. Embora raramente apareçam nas manchetes do cotidiano, esses minerais são indispensáveis para produtos que vão de smartphones e carros elétricos a sistemas militares de alta precisão. O controle sobre sua produção e processamento se tornou um dos eixos silenciosos da disputa entre potências globais.
Apesar do nome, terras raras não se referem a territórios ou jazidas misteriosas, mas a um conjunto de 17 elementos químicos usados em pequenas quantidades e com alto valor estratégico. O desafio não está na existência desses minerais, mas na capacidade tecnológica e industrial de extraí-los, separá-los e refiná-los, etapas complexas que concentram poder econômico e geopolítico.
O que são as terras raras e por que elas importam
As terras raras pertencem majoritariamente ao grupo dos lantanídios, elementos descobertos no século XIX e que, à época, pareciam escassos por estarem diluídos em rochas de difícil processamento. Hoje, sabe-se que eles estão relativamente espalhados pela crosta terrestre, mas exigem alto investimento, tecnologia sofisticada e rigor ambiental para se tornarem economicamente viáveis.
Entre os principais elementos estão neodímio, lantânio, cério, térbio, európio e gadolínio, cada um com aplicações específicas. Sem eles, grande parte das tecnologias modernas simplesmente não funcionaria ou perderia eficiência.
Presença invisível no cotidiano e na transição energética
No dia a dia, as terras raras atuam como componentes discretos, porém decisivos. Ímãs de alta potência feitos com neodímio são essenciais para motores de veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de áudio. Já o európio e o térbio são responsáveis pelas cores vibrantes de telas de TVs, celulares e monitores.
Além disso, esses minerais são fundamentais para:
• Eletrônicos de consumo, como smartphones, fones de ouvido e computadores
• Energia limpa, incluindo geração eólica e mobilidade elétrica
• Saúde, em exames de imagem e equipamentos médicos de precisão
• Iluminação eficiente, como LEDs
• Indústria pesada e de alta tecnologia, com ligas especiais e catalisadores
Esse conjunto explica por que as terras raras são frequentemente chamadas de insumo-chave da economia digital e verde.
Geopolítica, defesa e dependência estratégica
No campo militar, a relevância é ainda maior. Sistemas de mísseis guiados, radares, satélites, submarinos e aeronaves de combate utilizam sensores, ligas metálicas e componentes magnéticos produzidos com terras raras. Quem domina essa cadeia não controla apenas um mercado, mas ganha vantagem estratégica sobre adversários.
Por isso, o país que concentra não só a extração, mas principalmente o processamento industrial, passa a deter poder econômico, tecnológico e militar. É nesse ponto que a China se destaca.
Como a China construiu um monopólio silencioso
A China apostou cedo nas terras raras como ativo estratégico. Ao longo das últimas décadas, estruturou uma cadeia integrada que vai da mineração ao componente final, aceitando margens baixas, subsídios estatais e regras ambientais mais flexíveis. O resultado foi a eliminação gradual de concorrentes e a criação de uma dependência global.
Hoje, Pequim responde pela maior parte do refino e processamento mundial, mesmo quando o minério é extraído em outros países. Na prática, isso significa que economias ocidentais dependem da China para abastecer setores vitais de suas indústrias e de suas forças armadas.
Brasil: riqueza mineral sem estratégia industrial
O Brasil aparece frequentemente entre os países com maior potencial de reservas de terras raras, com áreas promissoras em Minas Gerais, Goiás, Bahia, Mato Grosso e na Amazônia. No entanto, a participação brasileira na produção global ainda é irrisória, e o país carece de uma cadeia industrial capaz de transformar minério em produto de alto valor.
Sem planejamento estratégico, o risco é repetir um velho padrão: exportar matéria-prima barata e importar tecnologia cara, abrindo mão de soberania econômica e de oportunidades industriais. Além disso, a exploração exige atenção ambiental rigorosa, já que o histórico internacional mostra impactos severos quando não há controle adequado de rejeitos e resíduos tóxicos.
Soberania, meio ambiente e pragmatismo
Para analistas ligados à economia liberal e à segurança nacional, o debate sobre terras raras exige menos ideologia e mais pragmatismo. Países que ignoram esse tema tendem a se tornar dependentes de regimes autoritários e a perder espaço em setores estratégicos do futuro.
O Brasil tem a chance de transformar seu potencial mineral em vantagem econômica e geopolítica, desde que combine regulação responsável, incentivo à iniciativa privada, tecnologia nacional e política industrial realista. Caso contrário, continuará assistindo de fora a uma das disputas mais relevantes do século XXI.
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