Pesquisa revisa dados arqueológicos e indica que enterramentos em abrigos rochosos integravam tradição funerária ampla no oeste dos Estados Unidos
Por Tatiane Martinelli | GNEWSUSA
Um novo estudo arqueológico revela que os sepultamentos realizados em cavernas e abrigos rochosos na região da Grande Bacia, no oeste dos Estados Unidos, eram mais frequentes do que se acreditava. Diferentemente de interpretações anteriores, que classificavam essa prática como rara ou excepcional, a pesquisa indica que esse tipo de enterramento fez parte de uma tradição consolidada ao longo de milhares de anos.
O estudo reexamina dados funerários de duas áreas centrais da região: a bacia hidrográfica inferior do rio Lahontan, no oeste de Nevada, e a bacia de Bonneville, no oeste de Utah. Trabalhos anteriores tratavam a porção inferior de Lahontan como um caso isolado, enquanto sugeriam que sepultamentos em cavernas eram incomuns em outras partes da Grande Bacia. A nova análise, no entanto, demonstra que a prática ocorreu em diferentes regiões, ainda que em proporções variadas.
Para sustentar essa conclusão, os pesquisadores reuniram registros de escavações em cavernas, abrigos rochosos e sítios a céu aberto nas duas bacias. Somente na Bacia de Bonneville foram identificados 18 sítios com restos humanos em cavernas ou abrigos, totalizando ao menos 91 indivíduos. Também há ocorrências na parte superior da Bacia de Lahontan, em áreas ocupadas sazonalmente por grupos do Holoceno tardio ligados à região de Bonneville. Embora os números sejam menores do que os registrados na bacia inferior de Lahontan, eles confirmam que o sepultamento em cavernas fazia parte do repertório funerário regional.
A análise revelou ainda que, na Bacia de Bonneville, muitos enterramentos ocorreram em locais utilizados para atividades cotidianas. Vestígios de lareiras, ferramentas e restos de alimentos foram encontrados associados aos sepultamentos, indicando que esses espaços tinham uso multifuncional. Duas exceções se destacam: as cavernas Lehman e Snake Creek, que funcionavam como armadilhas naturais e foram usadas predominantemente como cemitérios, com mais de 30 indivíduos sepultados e poucos indícios de ocupação doméstica regular.
Na Bacia de Lahontan, padrões semelhantes foram observados. Algumas cavernas serviam como moradia temporária ou áreas de trabalho, enquanto outras continham exclusivamente sepultamentos. Em contraste, os enterramentos a céu aberto são numericamente mais frequentes nas duas bacias, ocorrendo em antigos pisos de habitação, próximos a depósitos de resíduos ou em cemitérios ao ar livre. A quantificação exata, contudo, é dificultada por fatores como erosão, saques e limitações nas escavações.
A ocupação humana das duas regiões remonta a cerca de 13 mil a 14 mil anos. Desde então, há registros de sepultamentos tanto em cavernas quanto em áreas abertas. A partir de aproximadamente 5 mil anos atrás, observa-se um aumento no número de enterramentos, coincidindo com visitas sazonais mais frequentes às cavernas, associadas à coleta de alimentos, armazenamento de ferramentas e exploração de zonas úmidas produtivas.
Segundo o estudo, a maior concentração de sepultamentos em cavernas na bacia inferior de Lahontan está mais relacionada à densidade populacional do que a práticas rituais distintas. A região, rica em pântanos e áreas úmidas, oferecia recursos estáveis que atraíam grupos humanos de forma recorrente. A abundância de cavernas secas adequadas para abrigo temporário e armazenamento também ampliou as possibilidades para esse tipo de enterramento.
Evidências arqueológicas e etnográficas apontam ainda para mudanças culturais ao longo do tempo. Comunidades Paiute do Norte, em períodos mais recentes, evitavam cavernas que continham sepultamentos por respeito, o que sugere que parte desses enterramentos antecede sua ocupação. Elementos da cultura material e tradições orais indicam a presença de grupos ancestrais Washoe em áreas da Bacia de Lahontan, além de outros povos cujos descendentes hoje vivem majoritariamente na Califórnia. Estudos genéticos reforçam a ocorrência de migrações e transformações territoriais nos dois milênios anteriores ao contato europeu.
De forma geral, os dados indicam que os sepultamentos em cavernas e abrigos rochosos integravam uma tradição funerária ampla na Grande Bacia, e que as diferenças regionais refletem principalmente fatores ambientais e demográficos — e não práticas culturais isoladas.
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