Imunizante já protegia contra câncer de colo do útero, da vulva, da vagina e do ânus; agora, bula passa a reconhecer oficialmente nova cobertura
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a ampliação da indicação da vacina nonavalente contra o papilomavírus humano (HPV), fabricada pela farmacêutica MSD. A partir de agora, a bula do imunizante passa a reconhecer oficialmente a proteção contra o desenvolvimento de câncer de orofaringe e de cabeça e pescoço, tipos de tumores que vêm apresentando crescimento significativo nos últimos anos, especialmente entre homens.
Até então, a vacina já era indicada para a prevenção de câncer de colo do útero, da vulva, da vagina e do ânus, além de lesões pré-cancerosas, verrugas genitais e infecções persistentes causadas pelo HPV. A nova recomendação é válida para crianças, adolescentes e adultos de 9 a 45 anos de idade, independentemente do sexo.
Segundo a Anvisa, a decisão se baseia em evidências científicas robustas que demonstram a capacidade da vacina de impedir infecções persistentes pelos principais tipos oncogênicos do vírus. “A nova indicação é fundamentada na prevenção da infecção persistente pelos tipos de HPV 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58, reconhecidos como os principais agentes etiológicos desses cânceres, além da comprovação de resposta imunológica eficaz contra esses tipos virais”, informou a agência em nota.
Crescente impacto do HPV nos cânceres de cabeça e pescoço
O HPV é atualmente reconhecido como uma das principais causas de câncer de orofaringe, que afeta regiões como amígdalas, base da língua e parte posterior da garganta. Estudos internacionais apontam que, em diversos países, a maioria desses tumores já está associada à infecção pelo vírus, especialmente pelos subtipos 16 e 18.
No Brasil, especialistas alertam para o crescimento contínuo desses diagnósticos, sobretudo entre homens adultos, grupo que historicamente apresenta menor cobertura vacinal. A ampliação da indicação da vacina representa, portanto, um avanço estratégico no enfrentamento da doença.
Diferença entre as vacinas: quadrivalente e nonavalente
A vacina nonavalente protege contra nove tipos do HPV: 6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58. Atualmente, ela está disponível apenas na rede privada, com custo médio de cerca de R$ 800 por dose, o que pode totalizar mais de R$ 2 mil no esquema completo, dependendo da idade do paciente.
Já o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece gratuitamente a vacina quadrivalente, que protege contra quatro tipos do vírus (6, 11, 16 e 18). Ela é aplicada em dose única em meninas e meninos de 9 a 14 anos, além de pessoas imunossuprimidas até os 45 anos. Até junho deste ano, o Ministério da Saúde também está vacinando jovens de 15 a 19 anos que não receberam o imunizante na idade recomendada.
Apesar de a versão quadrivalente não conter todos os subtipos presentes na nonavalente, o Instituto Butantan — responsável pela produção nacional da vacina — destaca que os tipos 16 e 18 estão fortemente associados não apenas ao câncer do colo do útero, mas também aos cânceres de pênis e de orofaringe, garantindo ampla proteção contra os principais agentes oncogênicos.
Possível inclusão da vacina nonavalente no SUS
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou recentemente, durante o lançamento de um investimento de R$ 1,4 bilhão no Instituto Butantan, que o governo federal pretende incorporar a vacina nonavalente ao Programa Nacional de Imunizações (PNI). A medida, se concretizada, poderá ampliar significativamente a proteção da população brasileira contra diversos tipos de câncer associados ao HPV.
Cobertura vacinal ainda abaixo da meta
Embora a vacina contra o HPV esteja disponível gratuitamente no SUS há mais de uma década, a cobertura vacinal segue abaixo do ideal. Dados do Ministério da Saúde mostram que, em 2025, 85,9% das meninas e 74,3% dos meninos de 9 a 14 anos foram vacinados — índices inferiores à meta de 90% preconizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Especialistas reforçam que a imunização deve ocorrer preferencialmente antes do início da vida sexual, já que o HPV é transmitido principalmente por contato sexual. A vacinação precoce garante maior eficácia e proteção duradoura.
HPV e o impacto global nos casos de câncer
Segundo estudo da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), vinculada à OMS, publicado recentemente na revista Nature Medicine, cerca de 10,2% de todos os casos de câncer no mundo estão relacionados a infecções, sendo o HPV o principal agente responsável.
O vírus está diretamente ligado a tumores de colo do útero, ânus, pênis, vagina, vulva e orofaringe, o que torna a vacinação uma das ferramentas mais eficazes na prevenção de múltiplos tipos de câncer.
A possibilidade real de eliminar o câncer de colo do útero
Graças à elevada eficácia das vacinas contra o HPV, a OMS estabeleceu a meta global de eliminar o câncer de colo do útero como problema de saúde pública até 2030. Para isso, é necessário alcançar:
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90% das meninas vacinadas até os 15 anos;
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70% das mulheres com rastreamento adequado aos 35 e 45 anos;
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90% das pacientes diagnosticadas recebendo tratamento adequado.
Um estudo publicado na revista The Lancet Oncology estimou que, se essas metas forem atingidas, até 13,4 milhões de casos poderão ser evitados até 2069, e a maioria dos países poderá eliminar esse tipo de câncer até o fim do século.
Evidências reais da eficácia da vacina
Estudos populacionais reforçam o impacto da vacinação. Pesquisa publicada em 2020 no New England Journal of Medicine, que acompanhou mais de 1,6 milhão de mulheres na Suécia ao longo de 11 anos, mostrou uma redução de 63% no risco de câncer invasivo do colo do útero entre as vacinadas. Entre aquelas imunizadas antes dos 17 anos, a redução chegou a 88%.
Na Holanda, dados indicaram queda de 92% no risco de câncer e de 81% nas lesões pré-cancerosas graves entre mulheres totalmente vacinadas aos 16 anos. Já na Escócia, nenhum caso de câncer de colo do útero foi registrado entre mulheres vacinadas aos 12 e 13 anos após até 16 anos de acompanhamento.
Avanço estratégico na prevenção do câncer
A ampliação da indicação da vacina contra o HPV representa um marco importante na política de prevenção do câncer no Brasil. Ao reconhecer oficialmente sua eficácia contra tumores de orofaringe e de cabeça e pescoço, a Anvisa fortalece o papel da imunização como ferramenta central na redução da mortalidade e no controle de doenças oncológicas associadas a infecções virais.
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