Delcy Rodríguez assume presidência interina da Venezuela após prisão de Nicolás Maduro

Cerimônia ocorre dias após operação militar dos EUA; novo governo enfrenta críticas internacionais e desafios institucionais

Por Ana Raquel |GNEWSUSA 

A Venezuela vive um novo e delicado capítulo de sua crise política após a vice-presidente Delcy Rodríguez assumir, nesta segunda-feira (5), o comando interino do país. A posse ocorreu poucos dias depois da operação conduzida pelos Estados Unidos que resultou na captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, levados para território americano para responder a acusações relacionadas a narcoterrorismo e tráfico internacional de drogas.

A cerimônia que oficializou Delcy Rodríguez no cargo foi marcada por forte simbolismo político. Ela se tornou a primeira mulher a ocupar a chefia do Executivo venezuelano, em um ato conduzido por seu irmão, Jorge Rodríguez, recentemente reconduzido à presidência da Assembleia Nacional — fato que reforça as críticas sobre a concentração de poder dentro do círculo chavista.

Discurso de enfrentamento

Em seu pronunciamento, a nova presidente interina adotou um tom de confronto direto com Washington. Delcy classificou a operação americana como uma “agressão militar ilegítima” e afirmou que Nicolás Maduro e Cilia Flores estariam sendo mantidos como “reféns” nos Estados Unidos.

Apesar da retórica de resistência, analistas observam que o discurso segue o padrão histórico do chavismo, que frequentemente recorre à narrativa de soberania ameaçada para mobilizar apoio interno e desviar o foco das acusações criminais internacionais que recaem sobre seus principais líderes.

Delcy afirmou ainda que não descansará até recolocar a Venezuela no que chamou de “destino histórico de honra”, defendendo um país “livre, soberano e independente”, mesmo diante do crescente isolamento diplomático e da pressão externa.

Reação do governo brasileiro

No Brasil, a resposta do governo Lula foi imediata. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteve uma conversa telefônica com Delcy Rodríguez no sábado (3), afirmando buscar informações sobre a situação do país após a operação americana.

Em nota oficial, o governo brasileiro condenou a ação dos Estados Unidos, classificando-a como uma “afronta gravíssima à soberania venezuelana” e como violação do direito internacional. O Itamaraty reconheceu formalmente Delcy Rodríguez como autoridade legítima para assumir o comando do país, citando decisão do Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela.

Lula também declarou que ações militares unilaterais representam, segundo ele, o primeiro passo para um cenário global de instabilidade, onde “a lei do mais forte se sobrepõe ao multilateralismo”.

Maduro se declara inocente nos EUA

Enquanto isso, em Nova York, Nicolás Maduro e Cilia Flores compareceram à primeira audiência perante a Justiça Federal americana. Ambos se declararam inocentes das acusações. Durante a sessão, Maduro se apresentou como um “homem decente” e afirmou ser um “prisioneiro de guerra”, discurso que foi interrompido pelo juiz Alvin Hellerstein, que exigiu que o réu confirmasse sua identidade civil, após ele se declarar apenas como “presidente da Venezuela”.

A defesa não solicitou liberdade sob fiança, mas indicou que o processo deverá envolver um volume significativo de recursos judiciais, sustentando que Maduro, por se considerar chefe de Estado, teria direito a imunidades e prerrogativas associadas ao cargo — argumento que deverá ser amplamente contestado pelo Ministério Público americano.

Crise prolongada e futuro incerto

A sucessão interina de Delcy Rodríguez não dissipa as incertezas sobre o futuro da Venezuela. Pelo contrário, a combinação de pressão internacional, acusações criminais, dependência familiar no poder e apoio explícito de governos ideologicamente alinhados aprofunda a percepção de fragilidade institucional do regime chavista.

O desfecho do julgamento de Maduro nos Estados Unidos e a capacidade de Delcy Rodríguez de manter o controle interno serão determinantes para os próximos capítulos de uma crise que já ultrapassa as fronteiras venezuelanas e desafia o equilíbrio político da América Latina.

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