Números oficiais indicam superávit em 2022 e aumento do déficit no atual governo
Por Ana Raquel |GNEWSUSA
O debate sobre a situação das contas públicas brasileiras voltou ao centro da política nacional. Integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) têm responsabilizado a gestão anterior, comandada por Jair Bolsonaro (PL), pelo quadro fiscal atual. A principal voz nessa crítica é o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que afirma que a atual administração precisou lidar com um cenário orçamentário comprometido.
No entanto, dados recentes e análises econômicas apontam para uma leitura mais ampla do quadro fiscal, indicando que parte da deterioração das contas públicas ocorreu ao longo do atual governo.
Acusações do governo e tom elevado do debate
No final de janeiro, Haddad declarou que o governo Lula herdou um “rombo fiscal” da gestão anterior. Pouco tempo depois, no início de fevereiro, o ministro intensificou o discurso e afirmou que teria ocorrido um verdadeiro “estupro das contas públicas” durante o último ano da administração Bolsonaro.
Segundo o ministro, o governo anterior teria produzido um superávit artificial em 2022, recorrendo a manobras contábeis e receitas extraordinárias para apresentar um resultado positivo. Haddad também classificou a prática como uma das “maquiagens fiscais mais ardilosas da história do país”.
A crítica central da equipe econômica é que o orçamento entregue para 2023 já estaria estruturalmente deficitário, o que teria limitado a margem de manobra do novo governo.
Resultado fiscal de 2022 e início da atual gestão
Apesar das acusações, os números oficiais mostram que em 2022, último ano do governo Bolsonaro, o setor público registrou superávit primário de cerca de 1,25% do PIB, o melhor desempenho fiscal em aproximadamente oito anos.
Esse resultado foi impulsionado pela recuperação econômica após a pandemia e por receitas extraordinárias que elevaram a arrecadação federal.
Desde então, durante o terceiro mandato de Lula, o cenário fiscal tem permanecido no vermelho. Em 2025, o país encerrou o ano com déficit primário de aproximadamente 0,43% do PIB, ligeiramente acima do resultado negativo de 0,4% registrado em 2024.
Nos três primeiros anos da atual gestão, apenas sete meses apresentaram superávit primário, e mesmo assim sustentados por receitas pontuais.
Dívida pública cresce e preocupa economistas
Outro indicador que chama atenção é o aumento da dívida pública. Desde o início do atual mandato presidencial, o endividamento do país subiu cerca de sete pontos percentuais, chegando a aproximadamente 78,7% do PIB.
Esse crescimento equivale praticamente ao aumento observado ao longo dos sete anos anteriores somados, o que tem gerado preocupação entre analistas econômicos.
Além disso, o déficit nominal — que inclui os juros da dívida — subiu de 4,9% do PIB no início de 2023 para 9,3% ao final de 2025, atingindo o maior nível do período.
Crescimento das despesas é apontado como principal causa
Especialistas apontam que a expansão das despesas públicas tem sido um dos fatores centrais para o agravamento fiscal. Entre os principais itens estão gastos obrigatórios vinculados ao salário mínimo e benefícios sociais indexados.
Entre 2019 e 2022, período que incluiu os impactos da pandemia, o crescimento real da despesa foi de cerca de 5,6%.
Durante a crise sanitária, o déficit primário chegou ao pico de 9,2% do PIB em dezembro de 2020, mas caiu rapidamente nos meses seguintes com a recuperação econômica e o aumento da arrecadação.
Atualmente, economistas avaliam que o esforço fiscal necessário para estabilizar a dívida pública brasileira já se aproxima de 4% do PIB, patamar considerado elevado.
Comparação com governos anteriores
A análise histórica mostra mudanças importantes ao longo dos últimos governos.
Ao final do primeiro mandato de Lula, em 2006, a dívida pública estava em torno de 55,5% do PIB. Quatro anos depois, ao deixar o cargo, o índice havia recuado para 51,7% do PIB, mesmo com a crise financeira global de 2008.
Quando Dilma Rousseff assumiu a presidência, o país registrava superávit primário de aproximadamente 2,6% do PIB. No entanto, ao final de seu governo, o cenário fiscal havia se deteriorado significativamente, com déficit primário de cerca de 2,5% do PIB e dívida bruta de 67,6% do PIB.
Analistas apontam que a dinâmica fiscal do atual governo tem apresentado semelhanças com o período final da gestão Dilma, marcado por deterioração das contas públicas.
Projeções indicam aumento da dívida nos próximos anos
As perspectivas para os próximos anos também acendem um sinal de alerta. Projeções do mercado financeiro indicam que a dívida pública pode alcançar cerca de 83,8% do PIB até o final deste ano, chegando a 90% em 2028.
Em um horizonte mais longo, estimativas apontam que o endividamento brasileiro pode ultrapassar 100% do PIB até 2035.
Outras projeções indicam que, em cenários mais adversos, a dívida poderia atingir níveis ainda mais elevados nas próximas décadas, caso não haja mudanças na trajetória das despesas públicas.
Debate fiscal deve continuar no centro da política
Com a economia pressionada e o aumento da dívida pública, o debate sobre responsabilidade fiscal deve continuar ocupando espaço central na política brasileira.
Enquanto o governo sustenta que herdou dificuldades estruturais da gestão anterior, críticos afirmam que o crescimento acelerado das despesas e a ausência de superávits consistentes têm ampliado os riscos para as contas públicas do país.
Nos próximos anos, o equilíbrio fiscal deve permanecer como um dos principais desafios para o Brasil — tanto no campo econômico quanto no cenário político.
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