Banco Central reforça autoridade em meio à inspeção do TCU

Investidores e entidades financeiras reafirmam confiança nas decisões técnicas da instituição

Por Ana Raquel |GNEWSUSA 

O mercado financeiro brasileiro iniciou a semana em clima de tensão após o Tribunal de Contas da União (TCU) determinar uma inspeção emergencial sobre o processo de liquidação do Banco Master, ocorrido em novembro de 2025. A medida busca reunir documentos e reconstruir o processo decisório do Banco Central (BC) que levou à liquidação da instituição, diante de indícios de irregularidades e suspeitas de fraude, incluindo operações complexas envolvendo a venda de ativos do banco.

O ministro Jhonatan de Jesus, responsável pelo caso, justificou a decisão ao afirmar que o BC não apresentou documentação suficiente na nota técnica encaminhada ao tribunal. Ele também não descartou a adoção de medida cautelar que poderia impactar o curso da liquidação.

“Diante do risco de prática de atos potencialmente irreversíveis, não se descarta providência cautelar dirigida ao Banco Central do Brasil”, declarou Jhonatan de Jesus, que encaminhou a decisão ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli.

Impactos no mercado e reação de investidores

A movimentação do TCU provocou atenção imediata de bancos, investidores e reguladores, dada a possibilidade de reverter a liquidação do Master — estratégia defendida pelo ex-controlador Daniel Vorcaro, preso desde novembro de 2025 por suspeitas de fraude, gestão temerária e irregularidades que acionaram o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) em volume histórico. A reversão poderia afetar o pagamento das garantias do FGC e gerar instabilidade nos CDBs dos investidores do banco.

“Todo mundo está acompanhando com cautela, já que uma reviravolta teria desdobramentos relevantes, inclusive sobre o FGC e os pagamentos aos investidores”, afirmou uma fonte do mercado financeiro.

Analistas do setor destacam que a iniciativa do TCU marca uma escalada institucional. Segundo Sílvio Campos Neto, economista-chefe da consultoria Tendências, é incomum que o tribunal questione decisões técnicas do BC, que possui prerrogativa legal e capacidade técnica para conduzir a liquidação.

Auditoria e divergências com o STF

Em 2025, o STF determinou a realização de acareações entre executivos do Banco Master e representantes do BC, antecipando o cronograma previsto. As audiências expuseram contradições sobre a liquidez do banco, linhas emergenciais disponíveis e o grau de conhecimento prévio da autoridade monetária sobre as operações irregulares que motivaram a liquidação.

Para analistas, o episódio reforça a percepção de que o caso deixou o campo técnico e assumiu contornos institucionais e políticos, gerando preocupação sobre a interferência de tribunais superiores em decisões prudenciais do regulador.

“Em vez de concentrar esforços nos atos de gestão que levaram ao colapso, o TCU passa a questionar o próprio processo decisório do Banco Central”, observou Carlos Henrique, CEO da fintech Sttart Pay.

Defesa da autoridade do Banco Central

A liquidação do Banco Master foi conduzida pelo BC com prazo prévio para que a instituição resolvesse seus problemas de liquidez, mas a medida não surtiu efeito, justificando a intervenção. Especialistas como Raul Sena, CEO da AUVP Capital, defendem que a ação do BC foi correta, protegendo a estabilidade do sistema financeiro e os investidores.

O setor financeiro reagiu organizando uma carta aberta, assinada por 757 instituições, incluindo apoio do FGC e da B3, reafirmando plena confiança nas decisões técnicas do Banco Central. A carta reforça que a defesa é institucional, voltada à preservação da independência técnica do BC, e não pessoal.

“Quando decisões técnicas passam a ser revistas sob lógica político-contábil, o custo sistêmico se materializa em aumento de risco, retração de crédito e perda de credibilidade internacional”, destacou Carlos Henrique.

Pressão política nos bastidores

O ministro Jhonatan de Jesus foi indicado ao TCU por meio de acordos envolvendo a Câmara, o que reforça a relevância institucional do caso e seu acompanhamento atento pelo Congresso.

Mesmo assim, Jhonatan de Jesus afirmou que aguardará levantamentos técnicos antes de decidir sobre eventuais medidas cautelares que possam alterar a liquidação do Master, mantendo em aberto a possibilidade de reversão, apesar do impacto negativo que isso traria aos investidores.

“Se a liquidação for revertida, a responsabilidade pelo pagamento volta para o Banco Master, o que é extremamente negativo para os investidores”, alerta Patricia Maia, especialista do setor financeiro.

Conclusão: estabilidade e previsibilidade em risco

O episódio evidencia como decisões técnicas do Banco Central podem se tornar alvo de disputas institucionais e políticas, afetando diretamente a confiança de investidores e a estabilidade do sistema financeiro. A capacidade do BC de manter sua autonomia e decisões técnicas será crucial para evitar efeitos sistêmicos que possam prejudicar o mercado e a economia brasileira.

Leia mais

Delcy Rodríguez assume presidência interina da Venezuela após prisão de Nicolás Maduro

Flávio Bolsonaro critica decisão de Moraes e diz que ex-presidente precisa de cuidados médicos fora da prisão

Estudantes criam tecnologia que monitora a atuação do serviço de imigração dos EUA

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*