Imunizante desenvolvido pela UFMG já tem patente internacional, mostrou resultados promissores em animais e pode revolucionar o tratamento da dependência química
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
O Brasil está prestes a dar um passo histórico no combate à dependência química. Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) concluíram a fase pré-clínica de uma vacina inédita contra a cocaína e o crack, batizada de Calixcoca, e agora finalizam os trâmites documentais para o início dos testes em humanos. A iniciativa, anunciada pelo ministro da Educação, Camilo Santana, pode colocar o país na vanguarda mundial da pesquisa biomédica voltada ao tratamento de transtornos por uso de drogas.
Tecnologia inovadora e patente internacional
Desenvolvida ao longo de mais de uma década por uma equipe multidisciplinar da Faculdade de Medicina da UFMG, a Calixcoca atua estimulando o sistema imunológico a produzir anticorpos específicos contra a cocaína. Esses anticorpos se ligam à droga ainda na corrente sanguínea, impedindo que ela atravesse a barreira hematoencefálica e alcance o cérebro — mecanismo responsável pelos efeitos psicoativos e pela sensação de prazer associada ao consumo.
Com esse bloqueio, o usuário deixa de sentir os efeitos da substância, o que pode reduzir drasticamente o risco de recaídas. A tecnologia já possui patente registrada no Brasil e no exterior, consolidando o caráter inovador do projeto e abrindo caminho para futuras parcerias industriais.
Resultados promissores em testes pré-clínicos
Antes de avançar para os ensaios clínicos em humanos, a vacina foi submetida a rigorosos testes laboratoriais e em modelos animais. Segundo os pesquisadores, os resultados demonstraram alta capacidade de produção de anticorpos, segurança biológica e eficácia na neutralização da droga, sem efeitos adversos significativos.
O coordenador da pesquisa, o psiquiatra e professor Frederico Duarte Garcia, explica que a vacina não atua como uma “cura”, mas como uma poderosa ferramenta terapêutica. “Ela funciona como um escudo imunológico, ajudando pessoas em abstinência a resistirem à recaída. Trata-se de um apoio fundamental dentro de um conjunto maior de estratégias clínicas e psicossociais”, afirma.
Próxima etapa: testes em voluntários
Atualmente, o projeto está na fase final de preparação da documentação exigida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pelos comitês de ética em pesquisa. Após a liberação, terão início os ensaios clínicos em voluntários humanos, etapa crucial para avaliar segurança, dosagem, resposta imunológica e eficácia terapêutica.
De acordo com o Ministério da Educação, os processos administrativos já estão em estágio avançado, e a expectativa é de que os testes comecem nos próximos meses.
Reconhecimento internacional e financiamento robusto
Em 2023, a Calixcoca conquistou destaque internacional ao vencer o Prêmio Euro Inovação na Saúde, na categoria Destaque, recebendo 500 mil euros, cerca de R$ 2,5 milhões à época. A pesquisa também conta com financiamento público superior a R$ 18 milhões, oriundos de agências federais de fomento à ciência e inovação.
O reconhecimento internacional reforça o potencial transformador da vacina, que poderá se tornar a primeira do mundo desenvolvida especificamente para bloquear os efeitos da cocaína e do crack.
Impacto social e expectativa no combate às drogas
O Brasil enfrenta há décadas os efeitos devastadores da dependência química, especialmente do crack, associado ao aumento da violência urbana, à marginalização social e à sobrecarga do sistema público de saúde. Especialistas avaliam que, se comprovada sua eficácia em humanos, a Calixcoca poderá representar um divisor de águas no tratamento de usuários em processo de recuperação.
Para o ministro Camilo Santana, o projeto simboliza a força da ciência brasileira. “Essa vacina mostra que o Brasil tem capacidade de produzir ciência de ponta, capaz de gerar soluções concretas para problemas sociais graves”, declarou.
Perspectiva histórica
Caso os testes clínicos confirmem os resultados observados em laboratório, o país poderá entrar para a história da medicina ao lançar o primeiro imunizante capaz de bloquear os efeitos psicoativos da cocaína e do crack. Mais do que um avanço científico, a Calixcoca representa uma esperança concreta para milhares de famílias afetadas pela dependência química e um novo horizonte para as políticas públicas de saúde.
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