Novos critérios internacionais permitem identificar a doença em estágios iniciais e ampliar as chances de evitar sequelas neurológicas permanentes
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
A esclerose múltipla, doença neurológica autoimune que afeta cerca de 2,9 milhões de pessoas no mundo e aproximadamente 40 mil brasileiros, entrou em uma nova era de diagnóstico. Com a atualização dos Critérios de McDonald, referência mundial para a identificação da enfermidade, especialistas agora conseguem reconhecer sinais da doença antes mesmo do surgimento dos sintomas clínicos. A mudança representa um avanço significativo na neurologia, permitindo o início precoce do tratamento e aumentando as chances de preservar funções motoras, cognitivas e sensoriais dos pacientes.
A discussão ganha ainda mais relevância após o Dia Mundial da Esclerose Múltipla, celebrado em 30 de maio. Entre 2024 e 2026, a campanha global “My MS Diagnosis: Navigating MS Together” (“Meu Diagnóstico de Esclerose Múltipla: Navegando Juntos pela EM”) tem como foco justamente a importância do diagnóstico precoce e preciso para melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
O que é a esclerose múltipla
A esclerose múltipla é uma doença autoimune crônica que ocorre quando o sistema imunológico passa a atacar a bainha de mielina, estrutura responsável por revestir e proteger as fibras nervosas do cérebro e da medula espinhal. A destruição dessa camada compromete a comunicação entre os neurônios, provocando inflamação e lesões no sistema nervoso central.
Os sintomas variam conforme a região afetada e podem incluir:
- Visão embaçada ou perda visual;
- Formigamentos e perda de sensibilidade;
- Fraqueza muscular;
- Dificuldades de equilíbrio;
- Vertigens;
- Alterações cognitivas;
- Fadiga intensa.
Em aproximadamente 80% dos casos, a doença se manifesta por surtos, caracterizados pelo aparecimento súbito de sintomas neurológicos que podem durar semanas. Entretanto, a recuperação nem sempre é completa, aumentando o risco de sequelas permanentes.
O que mudou nos critérios diagnósticos
Os Critérios de McDonald, utilizados mundialmente para o diagnóstico da esclerose múltipla, passaram por uma importante revisão anunciada em 2024 e oficialmente publicada em 2025. O objetivo foi aumentar a sensibilidade dos exames e identificar a doença em fases ainda mais precoces.
Entre as principais mudanças está o reconhecimento do nervo óptico como uma quinta região típica de acometimento da doença. Antes, apenas lesões localizadas em áreas periventriculares, corticais ou juxtacorticais, infratentoriais e na medula espinhal eram consideradas para a confirmação diagnóstica.
Outra novidade é a possibilidade de diagnosticar pacientes que apresentam lesões características nos exames de imagem, mas ainda não desenvolveram sintomas clínicos. Até então, esses casos eram classificados como Síndrome Radiológica Isolada (RIS, na sigla em inglês).
Segundo especialistas, essa alteração pode mudar radicalmente o prognóstico dos pacientes, permitindo que a intervenção terapêutica ocorra antes da ocorrência de danos neurológicos irreversíveis.
Tecnologia amplia precisão dos exames
O diagnóstico da esclerose múltipla depende da combinação entre avaliação clínica, histórico do paciente, exames de ressonância magnética e análise do líquido cefalorraquidiano (líquor).
Atualmente, equipamentos de ressonância de alta resolução conseguem identificar características extremamente específicas das lesões, como:
- Presença de veia central;
- Depósitos de ferro;
- Distribuição típica das placas inflamatórias.
Além disso, exames laboratoriais conseguem detectar biomarcadores importantes, entre eles as chamadas bandas oligoclonais, proteínas associadas à atividade inflamatória da doença.
Esses recursos aumentam a precisão diagnóstica e ajudam a reduzir tanto falsos positivos quanto atrasos na identificação da enfermidade.
O desafio continua sendo o diagnóstico precoce
Apesar dos avanços científicos, o acesso ao diagnóstico ainda é um problema global.
Dados da Federação Internacional de Esclerose Múltipla (MSIF) mostram que barreiras para o diagnóstico precoce estão presentes em cerca de 83% dos países. Entre os principais obstáculos estão a falta de conscientização sobre os sintomas, a escassez de neurologistas especializados e a dificuldade de acesso a exames de imagem avançados.
Muitos pacientes passam anos buscando respostas para sintomas aparentemente inespecíficos, como fadiga, tonturas ou alterações visuais, antes de serem encaminhados para avaliação neurológica especializada.
Tratamentos modernos conseguem controlar a doença por décadas
Paralelamente aos avanços diagnósticos, a terapia para esclerose múltipla também evoluiu significativamente.
Hoje existem mais de dez opções terapêuticas capazes de reduzir surtos, controlar a inflamação e impedir a formação de novas lesões cerebrais. Muitos desses medicamentos atuam de forma direcionada sobre componentes específicos do sistema imunológico, oferecendo maior eficácia e menos efeitos adversos.
Estudos clínicos mostram que os tratamentos de alta eficácia conseguem reduzir em mais de 90% o risco de novas lesões inflamatórias em determinados grupos de pacientes.
Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o medicamento Briumvi (ublituximabe) para o tratamento de formas recorrentes da doença no Brasil. O anticorpo monoclonal atua contra os linfócitos B, células do sistema imunológico envolvidas na destruição da mielina, ajudando a reduzir a frequência das crises e a progressão da enfermidade.
Perspectiva de futuro
Os avanços no diagnóstico representam uma mudança de paradigma no enfrentamento da esclerose múltipla. Se antes a doença era identificada apenas após o aparecimento de sintomas incapacitantes, agora a medicina caminha para um modelo preventivo, no qual a intervenção pode ocorrer antes que o paciente perceba qualquer sinal da enfermidade.
Especialistas ressaltam, contudo, que o tratamento continua sendo individualizado e deve considerar fatores como idade, perfil clínico, atividade da doença e presença de outras condições de saúde. Ainda assim, a combinação entre diagnóstico precoce e terapias modernas tem transformado o prognóstico da esclerose múltipla, permitindo que muitos pacientes mantenham qualidade de vida e independência por décadas.
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