Brasil integra estudo internacional que pode revolucionar o acesso a insumos de saúde

Pesquisa publicada na revista Science Advances demonstra que tecnologias portáteis e de baixo custo permitem a produção local de proteínas, enzimas e reagentes diagnósticos, ampliando a autonomia científica de países de média e baixa renda
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Em um avanço que pode transformar o futuro da pesquisa biomédica e da capacidade de resposta a emergências sanitárias em países em desenvolvimento, um estudo internacional com participação de cientistas brasileiros demonstrou que é possível produzir localmente insumos essenciais para pesquisas científicas e diagnósticos em saúde por meio de tecnologias portáteis, de baixo custo e de fácil armazenamento. Publicada em maio de 2026 na prestigiada revista Science Advances, a pesquisa reúne especialistas do Brasil, Canadá, Estados Unidos, Chile, Colômbia e Índia e propõe um novo modelo de biofabricação descentralizada capaz de democratizar o acesso à biotecnologia e reduzir a dependência de cadeias globais de suprimentos.

A pesquisa surge em um contexto de profundas desigualdades na produção científica mundial. Dados da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa apontam que, entre os dez países líderes em pesquisas clínicas, nove pertencem ao chamado Norte Global, tendo apenas a China como exceção. Essa concentração de investimentos e infraestrutura científica limita a capacidade de inovação de países de média e baixa renda, que frequentemente enfrentam dificuldades para obter financiamento, importar insumos laboratoriais e desenvolver pesquisas de forma autônoma.

No Brasil, a coordenação do estudo ficou a cargo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por meio do Departamento de Virologia e Terapia Experimental da Fiocruz Pernambuco. Segundo o pesquisador Lindomar Pena, um dos participantes da investigação, a dependência de reagentes importados continua sendo um dos principais obstáculos enfrentados pelos cientistas brasileiros.

“Um dos principais desafios enfrentados por pesquisadores brasileiros e de diversos países em desenvolvimento é a dependência de reagentes importados, que frequentemente sofrem atrasos de entrega, altos custos e dificuldades logísticas”, afirmou o pesquisador em comunicado institucional.

Tecnologia portátil e sem necessidade de refrigeração

O estudo utilizou sistemas biológicos acelulares capazes de sintetizar proteínas a partir de componentes moleculares previamente preparados e liofilizados – processo de desidratação a frio que dispensa a necessidade de refrigeração. A tecnologia também emprega equipamentos portáteis produzidos por impressão 3D, permitindo que laboratórios em regiões com infraestrutura limitada possam fabricar seus próprios insumos de pesquisa e diagnóstico.

Os testes realizados em diferentes países mostraram que os reagentes produzidos localmente apresentaram desempenho equivalente ao de produtos comercialmente disponíveis no mercado internacional, evidenciando a viabilidade de uma produção científica mais descentralizada e resiliente.

Para os pesquisadores, o impacto vai além da redução de custos. A capacidade de produzir localmente proteínas, enzimas e reagentes diagnósticos fortalece a soberania científica dos países em desenvolvimento e aumenta sua capacidade de resposta diante de futuras crises sanitárias, como epidemias e pandemias.

Fiocruz ganha protagonismo internacional em biomanufatura

A participação brasileira no estudo ocorre em um momento de crescente reconhecimento internacional da Fiocruz na área de biomanufatura. Em maio de 2026, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) designaram a instituição como Centro Regional de Formação em Biomanufatura para as Américas, destacando seu papel estratégico na produção de vacinas, biofármacos e outras tecnologias essenciais de saúde.

A iniciativa faz parte de uma rede global criada pela OMS em 2023 para fortalecer a produção regional de tecnologias em saúde, ampliar a transferência de conhecimento e formar profissionais especializados em toda a cadeia de produção biotecnológica.

Segundo Lindomar Pena, demonstrar a viabilidade da produção local de insumos estratégicos representa um passo decisivo para reduzir desigualdades históricas no acesso à ciência e à biotecnologia.

“Demonstrar que é possível produzir localmente insumos estratégicos, com qualidade e custo reduzido, representa um passo importante para fortalecer a capacidade de resposta a emergências em saúde e reduzir desigualdades no acesso à biotecnologia”, concluiu o pesquisador.

O estudo contou com a participação de mais de dez pesquisadores brasileiros e reforça o potencial do Brasil de se consolidar como referência regional na produção de tecnologias de saúde acessíveis, sustentáveis e capazes de ampliar a inclusão científica em países de média e baixa renda.

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