Novo marcador pode prever evolução do câncer de estômago e ajudar a personalizar tratamentos, aponta estudo

Pesquisa da Unicamp identifica indicador obtido por tomografia que combina informações sobre gordura visceral e massa muscular, permitindo estimar com maior precisão o prognóstico de pacientes com câncer gástrico
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) identificou um novo marcador capaz de ajudar a prever a evolução do câncer de estômago, uma das doenças oncológicas mais letais no mundo. A descoberta representa um avanço importante na medicina de precisão, ao oferecer uma ferramenta que pode complementar os métodos tradicionais de avaliação do prognóstico e contribuir para decisões terapêuticas mais individualizadas.

Publicado na revista científica Clinical Nutrition ESPEN, o trabalho apresentou um indicador desenvolvido a partir de exames de tomografia computadorizada que analisa, simultaneamente, características da gordura visceral e da massa muscular dos pacientes. Segundo os pesquisadores, o marcador demonstrou potencial para identificar pessoas com maior risco de evolução desfavorável da doença, mesmo quando apresentam o mesmo estágio do tumor.

Pesquisa analisou pacientes durante quase uma década

O estudo acompanhou 461 pacientes com câncer de estômago atendidos na Unicamp ao longo de aproximadamente dez anos.

O objetivo foi investigar se alterações na composição corporal poderiam fornecer informações adicionais às já utilizadas na prática clínica para estimar o prognóstico da doença.

Atualmente, a principal ferramenta empregada pelos oncologistas é o estadiamento do câncer, que leva em consideração fatores como o tamanho do tumor, a profundidade da invasão e a presença de metástases.

Entretanto, médicos observam com frequência que pacientes classificados no mesmo estágio podem apresentar evoluções bastante diferentes, o que evidencia a necessidade de novos indicadores prognósticos.

Como funciona o novo marcador

Os pesquisadores analisaram exames de tomografia computadorizada para avaliar dois componentes importantes do organismo:

  • a gordura visceral, localizada ao redor dos órgãos internos;

  • a massa muscular da região abdominal.

O estudo mediu a radiodensidade desses tecidos, característica observada nas imagens da tomografia que pode revelar alterações relacionadas ao metabolismo, ao processo inflamatório e ao estado nutricional do paciente.

A partir dessas informações foi desenvolvido um novo índice denominado VMD (Visceral fat-to-Muscle Density difference), sigla em inglês para “diferença entre a radiodensidade da gordura visceral e do músculo”.

Segundo os autores, esse marcador reúne informações que refletem de forma mais abrangente a condição clínica do organismo, permitindo identificar pacientes potencialmente mais vulneráveis à progressão da doença.

Diferença significativa na sobrevida

Os resultados mostraram diferenças expressivas entre os grupos avaliados.

Pacientes classificados com valores mais elevados do marcador apresentaram pior prognóstico, com sobrevida mediana de 13,8 meses.

Já aqueles que apresentaram valores mais baixos do VMD tiveram uma sobrevida mediana de 58,5 meses, indicando uma evolução significativamente mais favorável.

Para os pesquisadores, os resultados sugerem que o estado metabólico e inflamatório do organismo exerce influência importante na evolução do câncer gástrico, além das características do próprio tumor.

Inteligência artificial ampliou a precisão da análise

Outro diferencial da pesquisa foi a utilização de técnicas de inteligência artificial baseadas em aprendizado de máquina (machine learning).

Em vez de analisar apenas um fator isoladamente, os algoritmos processaram simultaneamente diversas informações, incluindo:

  • exames de imagem;

  • dados clínicos;

  • exames laboratoriais;

  • composição corporal.

Esse processamento permitiu identificar padrões capazes de diferenciar pacientes com maior e menor risco de evolução desfavorável.

Além disso, os cientistas desenvolveram uma metodologia que reduz possíveis diferenças provocadas por aparelhos distintos de tomografia, aumentando a confiabilidade do marcador.

O que é o câncer de estômago?

Também chamado de câncer gástrico, o câncer de estômago se desenvolve a partir das células que revestem a parede interna do órgão.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ele está entre os tipos de câncer que mais causam mortes no mundo, principalmente porque muitos casos são diagnosticados apenas em estágios avançados.

Entre os principais fatores de risco estão:

  • infecção pela bactéria Helicobacter pylori;

  • tabagismo;

  • consumo excessivo de alimentos salgados, defumados e ultraprocessados;

  • baixa ingestão de frutas e verduras;

  • histórico familiar;

  • gastrite crônica;

  • idade avançada.

Sintomas costumam surgir de forma silenciosa

Nas fases iniciais, o câncer de estômago pode não provocar sintomas ou apresentar sinais semelhantes aos de problemas digestivos comuns.

Os sintomas mais frequentes incluem:

  • má digestão persistente;

  • dor ou desconforto abdominal;

  • sensação de estômago cheio após pequenas refeições;

  • perda de apetite;

  • perda de peso sem causa aparente;

  • náuseas e vômitos;

  • fadiga;

  • anemia.

Em casos mais avançados podem surgir:

  • vômitos persistentes;

  • dificuldade para engolir;

  • sangue nas fezes;

  • fezes muito escuras (melena);

  • sangramento digestivo.

Especialistas orientam que sintomas persistentes por mais de duas semanas devem ser avaliados por um médico.

Descoberta ainda precisa ser validada

Embora os resultados sejam promissores, os pesquisadores ressaltam que o novo marcador ainda não faz parte da prática clínica.

Antes de ser incorporado ao atendimento de rotina, será necessário validar os achados em estudos com um número maior de pacientes e em diferentes centros de pesquisa.

Os próximos trabalhos também deverão investigar se o VMD poderá auxiliar médicos na escolha do tratamento mais adequado e acompanhar como mudanças no estado nutricional e físico dos pacientes influenciam a evolução da doença.

Caso os resultados sejam confirmados, o marcador poderá representar um importante avanço na oncologia, permitindo prognósticos mais precisos e contribuindo para estratégias terapêuticas cada vez mais personalizadas.

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