Estudo internacional identifica mais de 40 mil vírus desconhecidos em 102 cidades

Fotomontagem: Freepik/Wikipedia
Estudo internacional analisou quase 3 mil amostras de metrôs, hospitais, bancos, solo e esgoto em 31 países; pesquisa com participação brasileira identificou 54.945 vírus de RNA e aponta que a diversidade viral do planeta pode ser muito maior do que se imaginava
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Uma investigação internacional revelou uma dimensão ainda pouco conhecida do mundo microscópico que circula nas cidades: 54.945 vírus de RNA foram catalogados a partir de 2.922 amostras coletadas em 102 cidades de 31 países, incluindo São Paulo. Cerca de 77% dessas espécies virais não haviam sido observadas anteriormente, o equivalente a mais de 42 mil registros inéditos nas bases analisadas. Publicado na revista científica Nature Communications, o estudo teve participação brasileira e utilizou técnicas de sequenciamento genético e bioinformática para investigar vírus presentes em ambientes urbanos e periurbanos.

O levantamento não significa, porém, que dezenas de milhares de novos vírus perigosos estejam circulando entre seres humanos. A maior parte dos vírus identificados ainda não possui hospedeiro conhecido e, entre aqueles para os quais foi possível fazer uma associação, muitos infectam bactérias, plantas ou outros organismos. Os pesquisadores destacam que a descoberta representa principalmente um avanço no conhecimento sobre a diversidade viral existente no planeta e pode contribuir para sistemas futuros de vigilância ambiental.

Uma cidade inteira vista pelo microscópio

O estudo foi publicado em 16 de julho de 2026 na Nature Communications e reuniu pesquisadores de diferentes países. A equipe analisou 2.922 amostras metatranscriptômicas provenientes de ambientes urbanos e de áreas próximas às cidades. Entre os locais investigados estavam estações de transporte, hospitais, bancos, além de ambientes como solo, sedimentos, água doce e esgoto.

O resultado foi a criação do UPVAtlas, sigla em inglês para Urban & Peri-urban RNA Virus Atlas, ou Atlas de Vírus de RNA Urbanos e Periurbanos.

O catálogo reúne 54.945 vírus de RNA, dos quais 77% não haviam sido observados anteriormente. O trabalho também ampliou significativamente o conhecimento sobre a diversidade evolutiva desses microrganismos, identificando candidatos a dois novos filos e uma nova classe de vírus, além de vários agrupamentos que ainda não puderam ser classificados.

A pesquisa teve participação do brasileiro Antônio Pedro Camargo, professor do Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP).

O que são vírus de RNA?

Os vírus de RNA possuem seu material genético armazenado em moléculas de RNA, em vez de DNA. O grupo inclui agentes conhecidos por provocar doenças em seres humanos, como os vírus da gripe, dengue, zika, febre amarela e Covid-19.

Mas o universo dos vírus de RNA é muito maior do que aqueles associados a doenças humanas.

É justamente essa diferença que torna o estudo relevante. Durante muito tempo, grande parte do conhecimento científico sobre vírus foi construída a partir daqueles que provocavam doenças ou que apresentavam alguma importância econômica ou médica.

Quando os pesquisadores analisam diretamente o material genético encontrado em um ambiente, sem procurar inicialmente uma doença específica, conseguem encontrar uma diversidade muito maior.

Como os cientistas encontraram os vírus?

Uma das principais ferramentas utilizadas foi a metatranscriptômica, técnica que permite analisar simultaneamente as moléculas de RNA presentes em uma determinada amostra.

Em vez de procurar e isolar um único vírus, os pesquisadores analisam uma espécie de “fotografia genética” de todo o material biológico presente no local.

Uma amostra retirada de uma superfície urbana, por exemplo, pode conter fragmentos genéticos de bactérias, vírus, fungos, plantas e outros organismos.

O desafio passa então a ser identificar a origem de cada sequência.

Para auxiliar nessa etapa, a equipe utilizou o geNomad, ferramenta de bioinformática desenvolvida por Antônio Pedro Camargo. O sistema permite analisar grandes quantidades de sequências genéticas e identificar aquelas que apresentam características compatíveis com genomas virais.

Depois da triagem, os pesquisadores analisaram uma enzima fundamental para a reprodução dos vírus de RNA: a RNA polimerase dependente de RNA (RdRP).

Ao comparar essas sequências, foi possível reconstruir relações evolutivas entre os vírus e verificar quais grupos eram próximos e quais apresentavam diferenças extraordinárias em relação aos organismos já conhecidos.

Dois possíveis novos filos

A análise revelou grupos tão diferentes dos vírus já registrados que os cientistas propuseram a existência de dois possíveis novos filos, além de uma possível nova classe.

É importante destacar a palavra “possíveis”.

As categorias ainda não devem ser tratadas como classificações definitivas. Segundo os próprios pesquisadores, as propostas foram feitas com base em análises computacionais e precisam de novas evidências para que esses grupos sejam formalmente reconhecidos pela taxonomia viral.

A descoberta, entretanto, demonstra que a árvore evolutiva dos vírus de RNA ainda possui grandes áreas desconhecidas.

São Paulo aparece entre as cidades analisadas

São Paulo está entre as 102 cidades incluídas no levantamento.

Nas amostras hospitalares, os pesquisadores encontraram uma abundância maior de vírus pertencentes a famílias associadas a vertebrados em São Paulo e Islamabad, no Paquistão, quando comparadas às amostras de Baltimore, nos Estados Unidos, e Seul, na Coreia do Sul.

Os autores, porém, fazem uma ressalva importante: não é possível concluir que São Paulo tenha necessariamente uma situação epidemiológica pior ou que exista maior risco de infecção para a população.

A diferença pode estar relacionada simplesmente às características das amostras coletadas.

O próprio estudo reconhece limitações na comparação entre países e cidades, já que alguns locais foram representados por apenas determinados tipos de ambientes. Isso dificulta separar o efeito da localização geográfica do efeito do tipo de amostra analisada.

Esgoto chama atenção dos pesquisadores

Entre os ambientes analisados, o esgoto apresentou uma das maiores diversidades virais.

O resultado reforça o potencial desse tipo de material para a chamada vigilância ambiental, área que utiliza amostras do ambiente para acompanhar a circulação de microrganismos.

O monitoramento de águas residuais já ganhou importância em diferentes países durante a pandemia de Covid-19, quando pesquisadores passaram a procurar material genético do SARS-CoV-2 no esgoto para acompanhar tendências de circulação do vírus.

Agora, a mesma lógica pode ajudar a observar comunidades virais muito maiores.

A vantagem é que o pesquisador não precisa esperar que uma doença seja diagnosticada para começar a investigar determinado agente. O ambiente pode funcionar como uma espécie de sensor biológico.

Nem todos os vírus encontrados infectam humanos

Essa é uma das principais informações para compreender corretamente a descoberta.

Encontrar um vírus desconhecido não significa encontrar uma nova doença.

Na pesquisa, só foi possível sugerir um potencial hospedeiro para aproximadamente um terço das sequências analisadas. Dentro desse grupo, mais da metade correspondeu a vírus que infectam bactérias.

Os chamados bacteriófagos são vírus especializados em infectar bactérias. Em vez de atacar células humanas, eles utilizam bactérias como hospedeiras para se reproduzir.

Esse grupo despertou interesse adicional dos pesquisadores porque alguns dos bacteriófagos encontrados apresentam histórico de infecção de bactérias pertencentes ao grupo conhecido como ESKAPE, que reúne importantes patógenos associados a infecções hospitalares.

Descoberta pode ajudar no combate a superbactérias

A pesquisa identificou 166 bacteriófagos associados a quatro linhagens de bactérias do grupo ESKAPE.

Esse resultado não significa que os vírus já possam ser utilizados imediatamente como tratamento. No entanto, eles podem se tornar objeto de estudos futuros sobre fagoterapia, estratégia que utiliza bacteriófagos para atacar bactérias específicas.

O interesse nessa área aumentou diante do crescimento da resistência antimicrobiana, problema que dificulta o tratamento de determinadas infecções bacterianas.

Assim, uma descoberta que inicialmente parece estar relacionada apenas à biodiversidade viral também pode abrir caminhos para pesquisas biomédicas futuras.

Um mapa que ainda está longe de completo

Um dos resultados mais importantes do trabalho apareceu nas chamadas curvas de acumulação.

Essas análises ajudam os cientistas a verificar se a descoberta de novas espécies começa a diminuir à medida que mais amostras são examinadas.

No estudo, as curvas não se estabilizaram na maioria dos ambientes analisados.

Isso indica que, mesmo depois de identificar quase 55 mil vírus de RNA, os pesquisadores ainda estão longe de esgotar a diversidade existente nesses ambientes.

Em outras palavras, cada nova cidade, ambiente ou amostra pode revelar outros vírus ainda desconhecidos.

O número de 54.945, portanto, não deve ser interpretado como uma contagem definitiva de todos os vírus existentes nas cidades. Trata-se de um catálogo construído a partir das amostras disponíveis e das técnicas utilizadas.

Por que descobrir vírus desconhecidos é importante?

A identificação de novos vírus permite ampliar o conhecimento sobre a evolução dos microrganismos e suas relações com os diferentes ambientes.

Também pode ajudar os pesquisadores a compreender quais vírus são comuns em determinadas regiões, como essas comunidades mudam ao longo do tempo e quais organismos funcionam como hospedeiros.

Esse conhecimento pode ser particularmente relevante para a vigilância de doenças emergentes.

A pesquisa publicada na Nature Communications ressalta que a diversidade de vírus relacionados a vertebrados e a patógenos do grupo ESKAPE reforça a necessidade de continuar monitorando ambientes urbanos.

Isso não significa prever qual será a próxima pandemia. Significa criar ferramentas e bancos de dados capazes de detectar mudanças no ambiente viral antes que elas sejam completamente desconhecidas.

O estudo foi feito durante a pandemia

Uma característica importante da pesquisa é que 1.862 das 2.922 amostras foram coletadas pelo consórcio MetaSUB, que investiga o microbioma de ambientes urbanos.

Grande parte dessas amostras foi coletada entre março e julho de 2020, período marcado pelo início da pandemia de Covid-19.

Os pesquisadores utilizaram protocolos padronizados para coletar material de superfícies de contato frequente, como corrimãos, bancos e máquinas de bilhetes em sistemas de transporte. Outras amostras vieram de bancos públicos de dados e representaram ambientes periurbanos, incluindo solo, sedimento, água doce, esgoto e estufas.

Um novo olhar sobre o mundo invisível das cidades

A principal conclusão do estudo não é que as cidades estejam repletas de ameaças desconhecidas, mas que a diversidade viral existente no ambiente é muito maior do que os bancos de dados científicos registravam até agora.

O trabalho mostra também como ferramentas de sequenciamento genético e bioinformática estão mudando a forma de estudar os microrganismos.

Em vez de começar pela pergunta “qual vírus está causando esta doença?”, os pesquisadores podem começar por uma questão mais ampla: quais vírus estão presentes neste ambiente?

Essa mudança de perspectiva permite enxergar uma parcela do chamado “universo viral” que permaneceu praticamente invisível para a ciência.

E São Paulo está entre as cidades que ajudam a construir esse novo mapa.

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