Prisões do ICE em Massachusetts chegam a 572 em julho, aponta levantamento

Número está entre os maiores registrados no estado desde o início da intensificação das operações migratórias; apesar da alta, Massachusetts registra crescimento inferior ao de estados como Texas e Flórida

Por Chico Gomes | GNEWSUSA 

O número de prisões realizadas pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) em Massachusetts chegou a 572 em julho de 2026, um dos maiores totais mensais registrados no estado desde o início da intensificação das operações de fiscalização migratória.

Os dados foram analisados pela rádio pública WBUR a partir de informações de fiscalização migratória compiladas pelo Deportation Data Project, organização sem fins lucrativos que acompanha dados relacionados às prisões e deportações realizadas pelas autoridades americanas.

Apesar do crescimento das prisões em Massachusetts, o levantamento mostra que o aumento no estado foi significativamente menor do que o observado em outras regiões dos Estados Unidos.

Quase 50 mil prisões em todo o país

Em nível nacional, o ICE realizou quase 50 mil prisões em julho, segundo os dados analisados pela WBUR.

O resultado representa o maior número mensal registrado desde outubro de 2022 e é mais de cinco vezes superior ao total de prisões realizadas em dezembro de 2024, último mês completo antes do retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos.

O crescimento ocorre em meio à ampliação das operações de fiscalização migratória promovidas pelo governo Trump, que estabeleceu como objetivo aumentar significativamente o número de prisões realizadas diariamente.

Em julho, a agência se aproximou da meta de 2 mil prisões por dia em todo o território americano.

Texas e Flórida registram números muito superiores

A diferença entre Massachusetts e outros estados fica ainda mais evidente quando os números são comparados. No Texas, o ICE realizou mais de 12 mil prisões em julho. Na Flórida, foram aproximadamente 7.400.

Mesmo quando considerada a população de cada estado, Massachusetts apresentou uma taxa de prisões significativamente inferior à registrada nesses dois estados.

Especialistas ouvidos pela WBUR relacionam parte dessa diferença às políticas estaduais e locais de cooperação com as autoridades federais de imigração. Texas e Flórida adotaram medidas que ampliam a participação das forças policiais estaduais e locais em operações relacionadas à fiscalização migratória.

Massachusetts adota medidas de proteção a imigrantes

Em Massachusetts, o cenário é diferente. O estado aprovou recentemente o chamado PROTECT Act, legislação que amplia as restrições à realização de prisões civis sem mandado criminal em determinados locais considerados sensíveis.

A lei, sancionada pela governadora Maura Healey em agosto, estabelece proteções em locais como tribunais, escolas públicas, creches e unidades de saúde.

A medida foi aprovada em meio ao aumento das operações federais de imigração e às preocupações de autoridades e organizações de defesa dos imigrantes sobre a presença do ICE em espaços frequentados diariamente por famílias e comunidades imigrantes.

Protestos também influenciam o cenário

Para George Pappas, ex-juiz de imigração de Massachusetts, a mobilização da população e os protestos contra as operações do ICE também podem ter influência sobre o nível de fiscalização observado no estado.

Segundo ele, Massachusetts apresenta uma resposta comunitária mais forte às operações de imigração do que estados onde governos locais adotaram políticas de maior cooperação com o governo federal.

Além disso, existem restrições que impedem autoridades locais de manter determinadas pessoas sob custódia além do período autorizado apenas para atender a pedidos civis de imigração.

Essas diferenças ajudam a explicar por que os números registrados em Massachusetts permanecem abaixo dos observados em estados como Texas e Flórida.

Mais de 1,8 mil pessoas deportadas após prisões em Massachusetts

O levantamento também apresenta números referentes às deportações. Entre setembro de 2025 e o início de agosto de 2026, o ICE retirou dos Estados Unidos 1.833 pessoas que haviam sido detidas em Massachusetts.

O grupo incluía aproximadamente 200 menores de idade. Os dados mostram que a maioria dessas pessoas não tinha condenação criminal.

Do total de deportados, 301 tinham condenações criminais, enquanto 510 possuíam acusações pendentes. Outros 1.022 foram classificados como infratores de leis migratórias, categoria que inclui pessoas que ultrapassaram o período autorizado de permanência ou entraram nos Estados Unidos sem documentação regular.

Mudança no perfil das deportações

Os números também apontam para uma diferença significativa em relação ao período final do governo Joe Biden. Durante o ano fiscal de 2024, 329 pessoas foram removidas dos Estados Unidos após serem presas em Massachusetts. Naquele período, quase metade dos deportados possuía condenações criminais. No período analisado durante o governo Trump, apenas cerca de 16% dos 1.833 deportados tinham condenações criminais.

A diferença indica uma ampliação da atuação migratória sobre pessoas que não necessariamente possuem condenações criminais, aumentando a preocupação entre organizações de defesa dos imigrantes.

Brasileiros representam parcela importante dos deportados

O Brasil aparece entre os principais destinos das pessoas removidas de Massachusetts. Dos 1.833 indivíduos deportados no período analisado, aproximadamente 41% foram enviados para o Brasil.

Na sequência aparecem Guatemala, com 14%; Equador, com 10%; Colômbia e República Dominicana, ambas com 6%; e El Salvador, com 5%. 

A presença significativa do Brasil entre os destinos das deportações chama atenção especialmente na região de Massachusetts, que possui uma das maiores comunidades brasileiras nos Estados Unidos.

Fiscalização permanece como ponto de tensão

O aumento das prisões ocorre paralelamente a uma série de disputas políticas e judiciais envolvendo a atuação do ICE no estado.

Em junho, uma decisão judicial federal já havia limitado determinadas práticas da agência em tribunais e estabelecido restrições relacionadas à permanência prolongada de pessoas detidas em escritórios administrativos do ICE, como a unidade localizada em Burlington, na região de Boston.

A unidade de Burlington, inclusive, tornou-se alvo de críticas depois que dados mostraram que centenas de pessoas permaneceram no local por vários dias, apesar de o espaço não ter sido projetado para funcionar como centro de detenção de longo prazo.

Cenário continua sob observação

Os dados de julho mostram que a política de fiscalização migratória adotada pelo governo Trump continua produzindo um aumento expressivo nas prisões em todo o país. Massachusetts acompanha essa tendência, mas apresenta números muito inferiores aos registrados em estados que adotaram políticas de cooperação mais intensa com o ICE.

Ao mesmo tempo, o estado vem ampliando mecanismos de proteção para limitar determinadas ações das autoridades federais em locais considerados sensíveis.

O aumento das prisões do ICE em Massachusetts coloca novamente a imigração no centro do debate político e social do estado. Embora os números sejam inferiores aos registrados em estados como Texas e Flórida, o crescimento em relação aos períodos anteriores demonstra que a intensificação da fiscalização federal também alcança comunidades imigrantes de Massachusetts.

Com novas leis estaduais, decisões judiciais e operações federais ocorrendo simultaneamente, o cenário permanece em constante transformação. Para milhares de imigrantes que vivem no estado, os próximos meses deverão ser marcados pela atenção às mudanças nas políticas de fiscalização, aos limites impostos pela Justiça e às novas medidas adotadas pelo governo federal.

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