Terapia experimental baseada em CRISPR reduziu o LDL em mais de 50% na maior dose testada; pesquisadores agora avaliam segurança e duração do efeito em estudos maiores
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Uma única aplicação de uma terapia genética experimental conseguiu manter o colesterol LDL, conhecido como “colesterol ruim”, cerca de 50% abaixo dos níveis iniciais durante um ano de acompanhamento. O resultado foi observado em um pequeno estudo clínico com 15 pessoas que apresentavam alterações de colesterol difíceis de controlar mesmo com tratamentos convencionais. A pesquisa, conduzida com participação da Cleveland Clinic, foi apresentada no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia de 2026 e publicada simultaneamente no New England Journal of Medicine.
O tratamento, chamado CTX310, utiliza a tecnologia de edição genética CRISPR-Cas9 para modificar células do fígado e desativar o gene ANGPTL3, que participa da regulação das gorduras presentes na circulação sanguínea. Na maior dose analisada, os participantes apresentaram, após 12 meses, redução média de 52,5% no LDL e de 47,8% nos triglicerídeos. A quantidade da proteína ANGPTL3 também caiu aproximadamente 78,6%.
Tratamento tenta transformar uma alteração genética em proteção contra o colesterol
O ANGPTL3 produz uma proteína que interfere no metabolismo de lipídios, incluindo colesterol e triglicerídeos. Pesquisas genéticas anteriores mostraram que pessoas que nascem naturalmente com alterações que reduzem a atividade desse gene tendem a apresentar níveis mais baixos dessas gorduras e menor risco ao longo da vida de desenvolver doenças cardiovasculares relacionadas à aterosclerose.
A proposta do CTX310 é reproduzir artificialmente parte desse efeito. A terapia é administrada por uma única infusão intravenosa e utiliza partículas lipídicas microscópicas para transportar os componentes do sistema CRISPR até o fígado. Dentro das células hepáticas, o mecanismo promove uma alteração no gene ANGPTL3, reduzindo sua atividade.
Dessa forma, em vez de depender de doses repetidas para diminuir os níveis de colesterol, a estratégia procura provocar uma mudança genética duradoura nas células responsáveis pelo metabolismo das gorduras.
Resultado permaneceu por 12 meses
O aspecto que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a duração do efeito. Os primeiros resultados do estudo já haviam indicado queda nos níveis de colesterol após o tratamento. O novo acompanhamento mostrou que a redução permaneceu presente um ano depois de uma única aplicação.
Entre os quatro participantes que receberam a maior dose, de 0,8 mg/kg, a redução média do LDL chegou a 52,5% após 12 meses. Os triglicerídeos diminuíram 47,8%, enquanto a proteína ANGPTL3 apresentou queda média de 78,6%. Como se trata de uma média de apenas quatro pessoas na maior dose, os números ainda precisam ser confirmados em grupos muito maiores.
Os pesquisadores também não identificaram novos eventos adversos graves relacionados ao tratamento durante o acompanhamento de um ano. A investigação, entretanto, prevê monitoramento de longo prazo, já que alterações genéticas permanentes exigem avaliação cuidadosa de segurança. A Cleveland Clinic informa que o acompanhamento adicional poderá se estender por até 15 anos, conforme recomendações da FDA para terapias de edição genética.
Estudo ainda é pequeno e não significa que as estatinas serão substituídas
Apesar dos resultados considerados promissores, o CTX310 ainda está longe de ser uma alternativa disponível para pessoas com colesterol alto. O estudo é de fase 1, etapa em que o principal objetivo é avaliar segurança e obter os primeiros sinais de atividade do tratamento.
Os 15 participantes tinham quadros de hipercolesterolemia, hipertrigliceridemia ou alterações mistas de difícil controle. Muitos continuavam utilizando medicamentos para reduzir os níveis de gordura no sangue durante o estudo. Portanto, os resultados não permitem afirmar que uma única aplicação será suficiente para todos os pacientes com colesterol elevado.
Outro ponto importante é que a edição genética realizada pelo CRISPR é, por natureza, uma intervenção de efeito potencialmente permanente. Por isso, especialistas alertam que resultados de curto e médio prazo não são suficientes para determinar os riscos de décadas de alteração da atividade de um gene em pessoas que, em muitos casos, podem ser tratadas com medicamentos já conhecidos.
Uma publicação no próprio New England Journal of Medicine destacou justamente a necessidade de cautela diante do uso de edição genética irreversível para doenças cardiovasculares comuns, especialmente enquanto os efeitos de longo prazo da supressão do ANGPTL3 ainda não estão completamente esclarecidos.
Uma nova fronteira para o tratamento de doenças comuns
O avanço representa uma mudança importante na forma como a terapia genética pode ser utilizada. Durante anos, a edição genética foi desenvolvida principalmente para doenças raras e determinadas condições hereditárias. O CTX310 mostra a possibilidade de utilizar essa tecnologia contra problemas muito mais frequentes, como alterações do colesterol e dos triglicerídeos.
O interesse médico está principalmente na possibilidade de resolver um dos grandes desafios do tratamento de doenças crônicas: a necessidade de manter a terapia durante longos períodos. Medicamentos convencionais para reduzir o colesterol são eficazes, mas dependem da adesão contínua do paciente.
Uma intervenção de dose única que consiga manter o LDL baixo durante anos poderia, caso sua eficácia e segurança sejam confirmadas, mudar a estratégia de prevenção cardiovascular. Ainda assim, será necessário acompanhar um número muito maior de pacientes e observar os resultados durante períodos mais longos antes de saber se essa promessa poderá chegar à prática clínica.
Por enquanto, os resultados representam uma prova inicial de que é possível editar um gene no fígado e manter uma redução significativa de colesterol durante pelo menos um ano após uma única aplicação. O próximo passo é descobrir se o benefício permanece por mais tempo e, principalmente, se a estratégia é segura o suficiente para ser utilizada em larga escala.
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