Mente Milionária: de Minas aos Estados Unidos, Isabelle Oliveira transforma desafios em inspiração para outras mulheres

Foto: arquivo pessoal
Conhecida como Bel, personal chef nos Estados Unidos construiu uma trajetória marcada por desafios, coragem e recomeços; depois de enfrentar uma infância difícil, um relacionamento abusivo, a maternidade e a necessidade de reconstruir a própria vida em outro país, hoje transforma a gastronomia em independência e inspiração para outras mulheres
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Há histórias que começam com grandes oportunidades. A de Isabelle Oliveira, conhecida como Bel, começou de maneira muito diferente: em uma família humilde do interior de Minas Gerais, em uma casa pequena, com poucos recursos, mas cercada de amor.

Hoje, nos Estados Unidos, Bel trabalha como personal chef e private chef, atendendo famílias em suas próprias casas, preparando refeições para a semana, para períodos mais longos ou para ocasiões especiais. Seu trabalho inclui desde refeições para pessoas que seguem dietas específicas ou possuem restrições alimentares até jantares privados e buffets completos.

Ela também atua em eventos e possui uma equipe própria para grandes trabalhos, além de equipamentos profissionais.

Mas, por trás da profissional que hoje prepara pratos sofisticados e administra seu próprio trabalho, existe uma mulher que precisou aprender muito cedo a lidar com dificuldades, responsabilidades e recomeços.

A trajetória de Bel não foi construída de um dia para o outro.

Foi feita passo a passo.

Antes da chef, existia uma menina que aprendeu a cozinhar com a família

A paixão pela culinária nasceu dentro de casa.

A família de Bel é de Martinho Campos, no interior de Minas Gerais, região onde a gastronomia mineira tradicional faz parte da cultura e das memórias familiares.

Foto: arquivo pessoal

Sua infância, porém, foi marcada por dificuldades.

Bel cresceu sem a presença do pai. Segundo seu relato, ele deixou sua mãe ainda durante a gravidez e ela nunca teve convivência com ele.

A mãe engravidou aos 15 anos e, diante da necessidade de ajudar a família, precisou sair cedo do país para trabalhar na Europa.

Bel conta que morava em uma casa de apenas três cômodos, com o banheiro do lado de fora. Faltavam recursos, mas não faltava amor.

Enquanto a mãe trabalhava fora, tias e avó ajudaram a criá-la.

Uma de suas tias começou a cuidar dela quando ainda era muito pequena e permaneceu ao seu lado até os 10 anos, quando decidiu também partir para os Estados Unidos em busca do chamado sonho americano.

Foi dentro dessa família, entre avó, tias e mãe, que nasceu a relação de Bel com a cozinha.

A avó trabalhou em restaurante de posto de gasolina e Bel guarda as lembranças de vê-la cozinhando.

Sua tia também cozinhava com ela ainda pequena. Como Bel era criança, ficava no colo enquanto a tia preparava as refeições. Aos poucos, começou a participar daquela rotina.

A menina que ajudava na cozinha sem imaginar que um dia aquilo se transformaria em profissão, estava na verdade, começando a construir sua própria história.

Foto: arquivo pessoal

O avô que se tornou pai

Outra figura essencial nessa trajetória foi o avô.

Foi ele quem criou Bel e ocupou o espaço afetivo de pai que ela não teve.

Seu avô tinha um bar simples, um tradicional boteco do bairro.

Mais tarde, aquele pequeno estabelecimento se tornaria também um dos lugares mais importantes de sua trajetória profissional.

Foi ali que Bel encontraria espaço para recomeçar quando seu primeiro negócio não resistiu às dificuldades.

O primeiro restaurante e o golpe da pandemia

Pouco antes da pandemia, Bel decidiu transformar o conhecimento que tinha na cozinha em negócio.

Abriu um pequeno restaurante Chamado Sabor Real ao lado de uma empresa que fazia manutenção de trens da Vale. O estabelecimento passou a atender principalmente os trabalhadores daquela empresa.

O negócio estava caminhando quando a pandemia mudou tudo.

O restaurante precisou reduzir drasticamente suas atividades e passou a trabalhar principalmente com pedidos para viagem.

O aluguel continuava alto e, segundo Bel, o proprietário do imóvel não aceitou reduzir o valor.

As dificuldades financeiras aumentaram.

Até que ela percebeu que sua conta de energia estava muito acima do esperado. Ao investigar, descobriu, segundo seu relato, uma ligação irregular que fazia com que a energia que ela pagava também abastecesse barracões alugados nos fundos do imóvel.

Sem condições de continuar naquele local, decidiu sair.

Naquele momento, tinha dinheiro apenas para pagar os funcionários.

Foi então que o avô apareceu novamente como ponto de apoio.

A cozinha improvisada que virou escola de empreendedorismo

“Isabelle, sai daí.”

O conselho do avô abriu caminho para uma nova fase.

Bel levou seu trabalho para o espaço do bar da família e montou ali uma pequena cozinha industrial.

Com poucos recursos, começou novamente.

Fez cursos on-line para aprender a melhorar as vendas pelo iFood. O negócio era formalizado e ela já possuía CNPJ.

As marmitas começaram a vender.

Mas havia uma dificuldade que todo pequeno empreendedor conhece: vender não significa necessariamente lucrar.

Os ingredientes estavam caros, enquanto sua comida precisava permanecer acessível para os clientes.

Foi então que Bel decidiu investir em conhecimento.

Uma tia lhe deu um curso de culinária, e ela começou a se profissionalizar.

Embora já soubesse cozinhar, percebeu que precisava aprender técnicas, aperfeiçoar seus conhecimentos e trabalhar com ingredientes e preparações mais sofisticados.

Seu objetivo começava a mudar.

Ela não queria apenas vender marmitas.

Queria trabalhar com eventos.

A humildade de começar lavando louça

A oportunidade surgiu por meio de sua professora de gastronomia, que reconheceu seu esforço e a convidou para trabalhar em eventos.

Mas Bel também procurou conhecimento fora da escola.

Mesmo já tendo seu próprio negócio, aceitou começar de baixo em um bufê.

Começou lavando vasilhas.

Depois passou a preparar saladas.

Aos poucos, foi recebendo novas responsabilidades até chegar ao fogão.

Participou de grandes eventos e feiras em Belo Horizonte, preparando pratos como tropeiro e macarrão na chapa, além de atuar em eventos mais sofisticados.

A experiência ensinou uma das principais lições de sua trajetória: não existe problema em começar pequeno quando existe vontade de crescer.

Bel não precisou anunciar que sabia cozinhar.

Ela mostrou, trabalhou, aprendeu e conquistou seu espaço.

Quando a vida pessoal também exigiu coragem

Enquanto lutava para construir uma vida profissional, Bel enfrentava uma batalha ainda mais íntima.

Ela viveu durante anos um relacionamento abusivo.

Quando finalmente conseguiu se separar, voltou para a casa dos avós.

Era mãe de duas crianças e atravessava uma fase emocionalmente muito difícil.

Foi nesse período que entrou em depressão.

Sua família, preocupada com sua segurança e com tudo o que havia acontecido, começou a buscar uma maneira de tirá-la daquela situação.

E foi assim que os Estados Unidos passaram a representar não apenas um novo país, mas uma possibilidade de reconstrução.

Uma mãe que precisou recomeçar em outro país

Bel chegou aos Estados Unidos com os dois filhos.

Hoje, seu filho mais velho tem 12 anos e sua filha tem 10.

A família chegou ao país há quatro anos.

A mudança não aconteceu por facilidade.

Aconteceu porque era necessário recomeçar.

Sua mãe já vivia nos Estados Unidos e foi uma das razões que tornaram possível a mudança.

Ela partiu levando os filhos e uma história inteira para reconstruir.

Foto: arquivo pessoal

Quatro anos depois, uma nova mulher profissional

Quando chegou aos Estados Unidos, Bel não dominava o inglês.

Seu primeiro grande desafio profissional no país foi trabalhar no Chili’s, um restaurante americano.

Ela conta que não sabia sequer falar expressões básicas em inglês.

Na cozinha, os pedidos apareciam nas telas em inglês e ainda eram abreviados.

Era preciso aprender trabalhando.

Com o apoio dos gerentes Mike e Shwan, foi desenvolvendo o idioma e aprendendo a rotina do restaurante.

Em pouco tempo, dominou todas as estações da cozinha.

Mas o salário ainda não era suficiente para sustentar uma família com dois filhos.

Então Bel fez novamente aquilo que sempre fez: trabalhou mais.

Durante o dia, trabalhou em uma empresa de limpeza comercial.

À noite, seguia para o restaurante.

Depois, começou a trabalhar em uma companhia de construção e pintura.

Aprendeu a pintar apartamentos, subir escadas e realizar diferentes tarefas.

O trabalho era pesado, mas ela não tinha medo dele.

Pelo contrário.

Bel afirma que gosta do trabalho braçal e pesado.

Foto: arquivo pessoal

Quando a feijoada virou oportunidade

Com a chegada do inverno, o trabalho com pintura diminuiu.

Ela então pediu mais horas no restaurante.

Ao mesmo tempo, começou a vender feijoada aos sábados.

Preparava.

Embalava.

Entregava.

Voltava para casa.

E começava tudo novamente.

Aos poucos, vieram novos pedidos.

Primeiro, a feijoada.

Depois, encomendas para festas.

Bandejas de tropeiro.

Novas oportunidades.

Bel começou a melhorar as embalagens e a apresentação dos produtos.

O que começou como uma alternativa para gerar renda foi se transformando em um negócio.

Recomeçar nos Estados Unidos para finalmente exercer a profissão de personal chef

Antes de chegar aos Estados Unidos, Isabelle já havia dado os primeiros passos na profissão de personal chef no Brasil, iniciando esse projeto por conta própria,. A mudança de país, porém, fez com que precisasse interromper esse caminho e começar novamente. Como acontece com muitos profissionais que chegam a um novo país, foi necessário enfrentar um período de adaptação, trabalhar em outras áreas, adquirir novas experiências e construir uma nova trajetória até conseguir, finalmente, voltar a exercer a profissão que já havia escolhido para sua vida.

Hoje, Bel vive uma nova fase.

Ela trabalha como personal chef e private chef, indo até a casa dos clientes para preparar refeições para as famílias.

Seu trabalho atende diferentes necessidades.

Há clientes que seguem dietas específicas, pessoas com restrições alimentares e famílias que simplesmente precisam de praticidade.

Ela prepara refeições para a semana, para quinze dias ou até para um mês, deixando tudo pronto para ser congelado e consumido posteriormente.

É uma solução especialmente importante para famílias com crianças e mães que vivem uma rotina corrida.

Em vez de chegar em casa depois de um dia de trabalho e ainda precisar cozinhar, encontram as refeições preparadas, basta aquecer.

Mas o trabalho de Bel vai além.

Ela também realiza jantares privados, buffets e eventos.

Recentemente, por exemplo, realizou uma celebração de 42 anos de casamento, preparando risoto e fazendo a montagem dos pratos.

Para trabalhos maiores, conta com equipe própria e equipamentos profissionais.

A mulher que um dia começou lavando louças hoje coordena pessoas e realiza eventos.

A menina que cresceu em uma casa humilde hoje constrói seu próprio negócio em outro país.

Foto: arquivo pessoal

O sonho de ajudar outras mulheres

Apesar das conquistas, Bel não considera que chegou ao fim.

Pelo contrário.

Ela afirma que está há cerca de um ano trabalhando exclusivamente por conta própria e ainda luta para conquistar estabilidade financeira.

O objetivo é continuar estudando, aperfeiçoando-se e crescendo.

Para o próximo ano, ela planeja criar uma mentoria para personal chefs.

A ideia nasceu da própria experiência.

Bel quer ensinar outras mulheres a entrarem nesse mercado, profissionalizarem seus trabalhos, buscarem as licenças necessárias e regularizarem seus negócios.

Para ela, a gastronomia pode ser uma poderosa ferramenta de independência financeira.

Mas ela também faz questão de mostrar a realidade.

Ser personal chef não é fácil.

São jornadas que podem chegar a 14 horas de trabalho em pé. O corpo sente o peso da rotina, as pernas doem e o trabalho exige esforço físico.

Ainda assim, ela acredita que existe espaço para muitas mulheres construírem uma nova realidade através dessa profissão.

A mulher por trás da profissional

A história de Bel não é apenas sobre gastronomia.

É sobre reconstrução.

Ela saiu de uma infância marcada pela pobreza e pela ausência do pai.

Aprendeu a cozinhar com mulheres da família.

Foi criada com amor, apesar das dificuldades.

Construiu um primeiro negócio.

Perdeu o restaurante durante uma das maiores crises dos últimos anos.

Recomeçou na cozinha do bar do avô.

Estudou.

Trabalhou em bufês.

Começou lavando louças.

Chegou ao fogão.

Enfrentou um relacionamento abusivo.

Conseguiu se separar.

Lutou contra uma fase de depressão.

Saiu do Brasil com os filhos.

Chegou aos Estados Unidos sem dominar o idioma.

Trabalhou em restaurante.

Trabalhou com limpeza.

Trabalhou com pintura.

Vendeu feijoada.

Criou novos produtos.

Construiu uma clientela.

E chegou ao trabalho que hoje representa sua identidade profissional: personal chef.

Nada disso aconteceu de maneira simples.

E talvez seja justamente essa a parte mais admirável de sua história.

Bel não esperou a vida ficar fácil para começar.

Ela começou com a vida difícil.

Fé, filhos e família

Quando fala sobre o que a manteve de pé, Bel não aponta apenas para o trabalho.

Ela fala de fé.

Fala dos filhos.

E fala da família, com uma certeza em sua história: nunca faltou amor.

Foi esse amor que esteve presente quando ela precisou voltar para a casa dos avós.

Foi esse amor que ajudou quando ela decidiu deixar para trás uma relação abusiva.

Foi esse amor que esteve presente quando ela chegou aos Estados Unidos com os filhos.

E é esse amor que continua fazendo parte de sua motivação.

Uma história que ainda está sendo escrita

Hoje, Bel não se apresenta como alguém que já chegou ao destino final. Ela está construindo, ainda estuda, ainda trabalha longas horas.

Ainda enfrenta desafios.

Mas agora existe algo que talvez não existisse no começo de sua história: a certeza de que é capaz.

A sua trajetória mostra que independência não acontece de uma vez. Ela pode nascer de pequenas decisões.

De acreditar que existe uma vida diferente esperando para ser construída.

E foi assim que Bel chegou até aqui.

Não por ter tido um caminho fácil.

Mas porque, cada vez que a vida exigiu que ela começasse novamente, ela encontrou forças para dar o primeiro passo.

Agora, sua ambição ultrapassa o próprio sucesso.

Ela quer ensinar outras mulheres a fazerem o mesmo.

Transformar experiência em conhecimento.

Conhecimento em oportunidade.

E oportunidade em independência.

A história de Izabelle Oliveira ainda não terminou. Talvez, na verdade, esteja apenas começando a ganhar a dimensão que ela sempre buscou.

Jornal GNewsUSA — BRAZILIANS AROUND THE WORLD

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