Alterações nos vasos dos olhos podem revelar sinais precoces ligados à demência, aponta estudo

Pesquisa da Rutgers investiga se alterações nos pequenos vasos sanguíneos da parte branca dos olhos podem funcionar como um sinal de mudanças cerebrais associadas ao declínio cognitivo e à doença de Alzheimer
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Os olhos podem oferecer uma pista sobre o que está acontecendo no cérebro. Essa é uma das possibilidades investigadas por pesquisadores da Rutgers University, nos Estados Unidos, que estão estudando se alterações nos pequenos vasos sanguíneos presentes na parte branca dos olhos podem estar relacionadas a mudanças cerebrais observadas em pessoas com comprometimento cognitivo.

A pesquisa chama atenção porque abre caminho para uma possibilidade importante na área de saúde: identificar sinais associados ao envelhecimento cerebral e ao risco de doenças neurodegenerativas por meio de um exame realizado nos olhos, antes mesmo que alterações cognitivas mais evidentes apareçam.

O trabalho é conduzido pela pesquisadora Gina Roslan, doutoranda, e por Joshua W. Miller, professor e chefe do Departamento de Ciências da Nutrição da Rutgers. O projeto conta com a colaboração do Rutgers Brain Health Institute e utiliza exames dos olhos, avaliações cognitivas e imagens de ressonância magnética do cérebro para investigar a possível conexão entre a microcirculação ocular e a saúde cerebral.

O que os pesquisadores encontraram

Nos resultados iniciais apresentados pela equipe, participantes que apresentavam comprometimento cognitivo tinham uma quantidade maior de alterações nos microvasos sanguíneos dos olhos quando comparados a pessoas com funcionamento cognitivo considerado normal.

Os pesquisadores utilizam uma técnica não invasiva chamada microscopia intravital assistida por computador, capaz de registrar em tempo real os minúsculos vasos sanguíneos presentes na parte branca do olho. O método permite observar características desses vasos, além de analisar aspectos como seu tamanho e a velocidade do fluxo sanguíneo.

A hipótese estudada é que alterações na microcirculação dos olhos possam acompanhar ou refletir processos que também afetam os vasos e os tecidos do cérebro.

A relação é especialmente interessante porque problemas vasculares estão envolvidos em diferentes condições que afetam a saúde cerebral. Hipertensão, diabetes e outras doenças que prejudicam os vasos sanguíneos já são conhecidas por provocar alterações na microcirculação. A equipe da Rutgers busca entender se algumas dessas alterações também podem estar relacionadas ao declínio cognitivo relacionado à idade e ao risco de Alzheimer e outras formas de demência.

Exames dos olhos e imagens do cérebro

Para investigar essa relação, o estudo acompanha adultos com 60 anos ou mais, incluindo pessoas com e sem comprometimento cognitivo leve.

Os participantes passam por diferentes avaliações. Além da análise dos pequenos vasos dos olhos, são submetidos a testes de funcionamento cognitivo e exames de ressonância magnética do cérebro.

A comparação entre esses dados é fundamental para os pesquisadores. A intenção não é simplesmente verificar se existem alterações nos olhos, mas descobrir se essas alterações aparecem junto de sinais específicos de mudanças na estrutura cerebral.

Nos participantes com comprometimento cognitivo, as imagens de ressonância magnética mostraram maior presença de hiperintensidades da substância branca, alterações observadas em exames cerebrais que podem estar associadas a danos vasculares e processos de neurodegeneração. Também foi identificada menor quantidade de matéria cinzenta em regiões mais profundas do cérebro.

Uma possível janela para o cérebro

A ideia de utilizar os olhos como uma espécie de janela para o cérebro não é completamente nova. A retina e os pequenos vasos presentes nos olhos compartilham características importantes com a circulação cerebral, o que faz com que pesquisadores investiguem cada vez mais o potencial dos exames oftalmológicos como ferramentas para estudar doenças neurológicas.

Instituições de pesquisa dos Estados Unidos também investigam exames de imagem da retina como possíveis formas não invasivas de identificar biomarcadores relacionados ao comprometimento cognitivo e ao Alzheimer. O National Institute on Aging, por exemplo, mantém um estudo sobre o uso de imagens da retina para investigar comprometimento cognitivo leve e doença de Alzheimer.

No caso da Rutgers, o foco está nos microvasos da parte branca do olho. Se a associação observada nos primeiros resultados for confirmada em estudos maiores, alterações nesses vasos poderão ajudar os cientistas a identificar pessoas que apresentam maior probabilidade de desenvolver alterações cerebrais relacionadas ao envelhecimento e à neurodegeneração.

Homocisteína também entrou na investigação

Outro elemento observado pelos pesquisadores foi a presença de níveis mais elevados de homocisteína no sangue entre os participantes com comprometimento cognitivo.

A homocisteína é um aminoácido produzido naturalmente pelo organismo. Seus níveis podem aumentar, entre outros fatores, quando há deficiência de determinadas vitaminas do complexo B, como folato, vitamina B12 e vitamina B6. Níveis elevados também já foram associados a problemas cardiovasculares e vasculares.

A equipe da Rutgers está analisando se a combinação entre alterações nos microvasos oculares e níveis elevados de homocisteína pode ajudar a formar um conjunto de sinais associados a processos de envelhecimento cerebral.

Poderia ajudar antes dos sintomas?

Uma das perspectivas mais importantes da pesquisa está justamente na possibilidade de encontrar biomarcadores precoces.

Doenças neurodegenerativas podem evoluir durante anos antes que os sintomas se tornem suficientemente evidentes para interferir de maneira significativa na rotina de uma pessoa. Por isso, identificar alterações biológicas antes de um quadro clínico mais avançado é uma das principais metas da pesquisa sobre Alzheimer e outras demências.

Segundo os pesquisadores da Rutgers, a identificação antecipada de pessoas sob maior risco poderia, no futuro, permitir que estratégias de prevenção ou acompanhamento fossem iniciadas mais cedo. Entre as possibilidades estudadas na área estão mudanças na alimentação, controle de peso, tratamento de diabetes, medicamentos e outras medidas relacionadas ao estilo de vida.

Entretanto, os próprios pesquisadores ressaltam que a técnica utilizada atualmente está restrita ao ambiente de pesquisa. Portanto, os resultados não significam que um exame oftalmológico de rotina já seja capaz de diagnosticar demência ou prever individualmente quem desenvolverá Alzheimer.

Resultado promissor, mas ainda não é um diagnóstico

A descoberta deve ser interpretada com cautela. Os resultados iniciais mostram uma associação entre alterações nos microvasos dos olhos e determinadas mudanças observadas em pessoas com comprometimento cognitivo. Isso não significa que alterações nos vasos oculares, por si só, causem demência.

Também não significa que uma pessoa que apresente alguma alteração nos vasos dos olhos necessariamente desenvolverá Alzheimer ou outra doença neurodegenerativa.

São necessários estudos maiores e acompanhamento de longo prazo para determinar se essas alterações conseguem realmente prever o aparecimento futuro de declínio cognitivo e qual seria a precisão desse possível marcador.

Ainda assim, a pesquisa representa uma frente promissora porque busca transformar uma estrutura acessível do organismo — os pequenos vasos observáveis nos olhos — em uma possível fonte de informações sobre processos que acontecem em uma região muito mais difícil de examinar diretamente: o cérebro.

Se os próximos estudos confirmarem a relação, exames oculares poderão, no futuro, fazer parte de estratégias de identificação precoce de pessoas com maior risco de alterações cognitivas, complementando avaliações clínicas, exames de sangue e imagens cerebrais.

Por enquanto, a principal mensagem dos pesquisadores é de que os olhos podem guardar informações importantes sobre a saúde vascular e neurológica — e que compreender melhor essa conexão pode ajudar a ciência a detectar alterações cerebrais em fases cada vez mais precoces.

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