Levantamento divulgado neste sábado aponta aumento das apreensões relacionadas a suspeitas de compra de votos; PF já abriu mais de 1,2 mil inquéritos por crimes eleitorais em 2026
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
A poucos dias do primeiro turno das eleições de 2026, a Polícia Federal intensificou as ações contra crimes eleitorais em diferentes regiões do Brasil. Até a manhã deste sábado (3), R$ 27 milhões em dinheiro em espécie já haviam sido apreendidos em operações relacionadas ao combate à compra de votos, segundo levantamento divulgado pela CNN Brasil com base nos dados acompanhados durante o período eleitoral. O valor já supera o registrado nas eleições gerais de 2022 e se aproxima do montante contabilizado durante todo o pleito municipal de 2024.
Os números, entretanto, ainda não são definitivos. A própria Polícia Federal informa que as estatísticas da Operação Eleições 2026 são dinâmicas e podem mudar com novas ocorrências, investigações e atualizações dos sistemas. Em balanço oficial divulgado em 1º de outubro, a corporação registrava 1.224 novos inquéritos relacionados a crimes eleitorais e mais de R$ 33 milhões em bens apreendidos, dos quais aproximadamente R$ 21 milhões correspondiam a dinheiro em espécie.
A atualização divulgada neste sábado aponta que o número de inquéritos chegou a cerca de 1.300, enquanto 52 pessoas haviam sido conduzidas à PF para prestar esclarecimentos no contexto das investigações eleitorais.
Dinheiro vivo entra no radar das investigações
O uso de grandes quantias em espécie chama atenção dos investigadores principalmente quando aparece associado a outros elementos que possam indicar uma finalidade eleitoral ilícita.
Segundo a explicação apresentada pela CNN, parte das apurações pode começar a partir de informações sobre movimentações financeiras consideradas atípicas. Saques elevados, por exemplo, podem ser analisados pelas autoridades quando há indícios de que os recursos possam estar relacionados à compra de votos ou ao financiamento irregular de campanhas.
Um dos casos mais recentes ocorreu em Aracaju, Sergipe, onde R$ 500 mil foram apreendidos depois de um saque considerado suspeito. A investigação busca esclarecer a origem e a eventual destinação eleitoral do dinheiro.
É importante destacar que a apreensão de dinheiro não significa, por si só, que o proprietário tenha cometido crime. Cabe à investigação determinar a origem dos recursos, sua finalidade e se houve efetivamente uma prática ilícita.
Casos recentes mostram diferentes formas de atuação
As operações realizadas nos últimos dias revelam que o dinheiro em espécie aparece em diferentes contextos investigados pela PF.
No Amazonas, por exemplo, policiais federais encontraram R$ 27,8 mil em espécie e materiais de campanha dentro de uma aeronave que partiria de Manaus para Borba. O passageiro foi conduzido para procedimentos de polícia judiciária, e a PF informou que investiga a origem e a destinação dos valores e eventual relação com ilícitos eleitorais.
No Ceará, a Operação Rastilho, deflagrada neste sábado em conjunto com o Ministério Público Eleitoral e a Controladoria-Geral da União, cumpriu 19 mandados de busca e apreensão em quatro municípios. Durante as diligências, aproximadamente R$ 120 mil em espécie foram encontrados. A investigação apura possíveis ilícitos eleitorais.
Em Roraima, a PF prendeu duas pessoas em flagrante em Alto Alegre sob suspeita de corrupção eleitoral. Foram apreendidos R$ 8.007 em um veículo e outros R$ 17.100 em um imóvel, totalizando mais de R$ 25 mil. Segundo a corporação, os valores estavam separados em montantes e acompanhados de anotações com nomes de pessoas. A investigação aponta suspeita de utilização do dinheiro para compra de votos e pagamento de “boca de urna”.
Outro caso em Roraima deu origem à Operação Gubbio, que investiga uma suposta estrutura de distribuição de recursos financeiros a eleitores em benefício de candidaturas. A ação decorreu da prisão em flagrante de 22 pessoas realizada em 1º de outubro.
Ceará, Rio e Maranhão concentram investigações
De acordo com o levantamento apresentado pela CNN, Ceará, Rio de Janeiro e Maranhão aparecem entre os estados com maior número de ocorrências relacionadas a suspeitas de crimes eleitorais, considerando inquéritos instaurados e operações em andamento.
Quando o recorte é especificamente o dinheiro em espécie apreendido, os principais registros apontados estão em Tocantins, Roraima, Pará, Amazonas e Amapá.
A distribuição das ocorrências mostra que o combate aos crimes eleitorais não está concentrado em uma única região. A PF mantém ações de fiscalização e investigação em diferentes estados durante o período eleitoral.
Valor já supera o registrado em 2022
O contraste com eleições anteriores é um dos pontos que mais chama atenção.
Segundo o levantamento divulgado pela CNN, as apreensões em dinheiro nas eleições gerais de 2022 somaram R$ 4,6 milhões. Em 2026, o valor de R$ 27 milhões registrado até este sábado representa quase seis vezes aquele montante.
A comparação precisa, porém, levar em consideração que os números de 2026 ainda estão sendo atualizados e que diferentes eleições possuem características distintas.
O valor atual também já se aproxima dos R$ 29 milhões apreendidos em dinheiro durante as eleições municipais de 2024, segundo o levantamento divulgado neste sábado. Naquele pleito, estavam em disputa cargos de prefeito e vereador.
Portanto, não é possível concluir apenas pela comparação financeira que houve necessariamente mais compra de votos em 2026. O aumento das apreensões também pode refletir maior fiscalização, intensificação das operações, monitoramento financeiro e aumento da capacidade de identificação de movimentações suspeitas.
PF mantém operação durante a reta final
A Polícia Federal afirma que a atuação durante as eleições envolve prevenção, inteligência, investigação e perícia, em parceria com a Justiça Eleitoral e outros órgãos.
Em seu balanço oficial, a corporação destacou que os números são atualizados continuamente. Até 1º de outubro, além dos 1.224 inquéritos relacionados a crimes eleitorais, havia 94 investigações em andamento envolvendo violência política contra a mulher, sendo 77 instauradas em 2026.
A presença de equipes em diferentes estados deve continuar durante a votação e nos períodos imediatamente anteriores e posteriores ao primeiro turno.
Compra de votos é crime eleitoral
A compra de votos, juridicamente tratada como corrupção eleitoral, envolve oferecer, prometer ou entregar vantagem ao eleitor com o objetivo de obter seu voto.
A legislação eleitoral brasileira prevê punições para quem pratica esse tipo de conduta. A investigação pode envolver não apenas dinheiro, mas também a oferta de bens, serviços ou outras vantagens.
Uma operação realizada pela PF neste sábado em Marabá, no Pará, mostra justamente essa dimensão. Na chamada Operação Velha Política, os investigadores apreenderam cestas básicas, cadeiras de roda, cadeiras de banho, banheiras, eletrodomésticos, cobertores, geradores, documentos e aparelhos eletrônicos. Segundo a PF, os materiais poderiam estar relacionados à compra de votos.
O caso reforça que o combate à corrupção eleitoral não se limita ao dinheiro encontrado em espécie.
Números ainda podem aumentar
Com o primeiro turno se aproximando, o balanço de R$ 27 milhões está longe de ser definitivo.
A Polícia Federal continua recebendo denúncias, realizando diligências e cumprindo mandados de busca e apreensão. Novas apreensões podem alterar o valor acumulado ao longo dos próximos dias.
O dado mais importante, neste momento, é que as investigações eleitorais de 2026 já produziram uma quantidade expressiva de apreensões e inquéritos, demonstrando uma operação de grande escala para identificar possíveis esquemas de compra de votos e outras irregularidades.
E, embora os R$ 27 milhões chamem atenção pelo tamanho, cada apreensão ainda precisa ser analisada individualmente pela Justiça e pelas autoridades responsáveis pelas investigações. Dinheiro apreendido é evidência sob investigação, não prova automática de crime ou de responsabilidade de determinada candidatura.
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