OMS quer preparar o mundo para detectar novos surtos de vírus em até 24 horas

Nova estratégia internacional estabelece 2030 como prazo para que todos os países consigam identificar e compreender rapidamente ameaças emergentes à saúde. Plano prevê inteligência artificial, sequenciamento genômico, cooperação científica e sistemas digitais de compartilhamento de dados
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou uma nova estratégia internacional para fortalecer a preparação contra epidemias e futuras pandemias. O objetivo é ambicioso: permitir que todos os países consigam detectar e compreender novas ameaças à saúde em até 24 horas após seu surgimento, até 2030.

Apresentado em 12 de outubro, durante a Cúpula Mundial da Saúde, em Berlim, na Alemanha, o plano estabelece as diretrizes para os próximos cinco anos do Centro da OMS para Inteligência sobre Pandemias e Epidemias. A iniciativa busca identificar sinais de perigo mais cedo, acelerar a análise de agentes infecciosos e apoiar decisões capazes de impedir que surtos locais se transformem em crises sanitárias de maior escala.

A estratégia foi desenvolvida em um cenário no qual doenças infecciosas podem atravessar fronteiras rapidamente, enquanto as autoridades precisam reunir informações de diferentes regiões, laboratórios e sistemas de vigilância para compreender a dimensão de uma ameaça.

A proposta da OMS é fortalecer essa capacidade de resposta por meio da tecnologia, da ciência e da colaboração entre países. O princípio é que, quanto mais cedo uma ameaça for reconhecida e investigada, maiores serão as oportunidades de adotar medidas de controle antes que a transmissão se amplie.

A meta de 24 horas e a prevenção de novas crises sanitárias

O prazo estabelecido pela OMS representa uma meta de capacidade de vigilância e avaliação, e não uma garantia de que toda pandemia será evitada ou controlada em um único dia.

Na prática, a proposta é que os países consigam reconhecer sinais de uma possível ameaça, reunir informações confiáveis e compreender rapidamente o risco para a saúde pública. A partir dessa avaliação, as autoridades poderão decidir quais medidas são necessárias, como ampliar a investigação epidemiológica, realizar testes laboratoriais, monitorar contatos e reforçar os serviços de saúde.

A velocidade dessa resposta é importante porque doenças infecciosas podem se disseminar enquanto os primeiros casos ainda estão sendo investigados. Quando há demora na identificação de um surto, o número de pessoas expostas pode aumentar, tornando mais difícil interromper a transmissão.

A estratégia também procura reduzir as diferenças entre países com sistemas de vigilância altamente desenvolvidos e aqueles que enfrentam limitações de infraestrutura, recursos financeiros, profissionais especializados ou capacidade laboratorial.

Para a OMS, fortalecer a preparação global significa garantir que informações relevantes possam ser identificadas, analisadas e compartilhadas com rapidez, independentemente do local onde uma nova ameaça apareça.

Inteligência artificial para identificar sinais de perigo

Uma das prioridades do plano é ampliar o uso da inteligência artificial na vigilância de possíveis ameaças sanitárias.

A iniciativa Epidemic Intelligence from Open Sources (EIOS), coordenada pela OMS, utiliza tecnologia para examinar milhares de fontes públicas de informação diariamente. Entre elas estão notícias, comunicados oficiais e outros registros que podem conter sinais de acontecimentos relevantes para a saúde pública.

Os sistemas ajudam a identificar padrões, relatos incomuns de doenças e informações que merecem investigação pelas autoridades sanitárias. A tecnologia pode reduzir o tempo necessário para localizar sinais dispersos em diferentes fontes e direcionar a atenção dos especialistas para acontecimentos potencialmente importantes.

Segundo a OMS, a iniciativa reúne uma comunidade global com mais de 4 mil especialistas e é utilizada por mais de 125 Estados-membros e 30 organizações regionais e internacionais.

A inteligência artificial, entretanto, não substitui a investigação científica nem confirma automaticamente a existência de uma epidemia. Um relato sobre casos incomuns pode estar incompleto, conter erros ou não representar uma ameaça de grande escala.

Por isso, os alertas precisam ser analisados por profissionais, comparados com informações epidemiológicas e, quando necessário, encaminhados para investigação laboratorial. O papel da tecnologia é ajudar a reconhecer sinais precoces e acelerar a análise, não substituir o julgamento técnico das equipes de saúde.

Sequenciamento genômico pode acelerar a identificação de novos patógenos

Outra frente prioritária é o fortalecimento da vigilância genômica, que permite analisar o material genético de vírus, bactérias e outros agentes infecciosos.

O sequenciamento genômico ajuda os pesquisadores a identificar um patógeno, comparar amostras e reconhecer alterações genéticas que podem ser importantes para compreender sua circulação. Essas informações podem contribuir para investigar a origem de um surto, acompanhar a disseminação de um agente infeccioso e orientar o desenvolvimento de ferramentas de diagnóstico.

A OMS pretende fortalecer essas capacidades por meio da Rede Internacional de Vigilância de Patógenos (IPSN), que promove a cooperação entre laboratórios, instituições científicas e sistemas de saúde.

A análise genômica pode ajudar a acelerar o desenvolvimento de testes, tratamentos e vacinas, mas seus resultados dependem de uma estrutura adequada de coleta de amostras, laboratórios preparados, profissionais qualificados e compartilhamento responsável de dados.

Além disso, nem todo novo patógeno representa uma ameaça pandêmica. A avaliação precisa considerar fatores como a capacidade de transmissão, a gravidade da doença, a população suscetível e a possibilidade de disseminação entre países.

O objetivo é combinar evidências genéticas e epidemiológicas para que as autoridades compreendam melhor os riscos e adotem respostas proporcionais à situação identificada.

Mais de 2 mil especialistas poderão colaborar em situações de emergência

A estratégia também prevê o fortalecimento do Collaboratory, uma rede que conecta mais de 2 mil especialistas em modelagem matemática e ciência de dados.

Esses profissionais podem contribuir para analisar a evolução de surtos, estimar cenários de transmissão e avaliar possíveis consequências de diferentes medidas de saúde pública.

Os modelos matemáticos ajudam a responder perguntas importantes durante uma emergência: a transmissão está aumentando? Quais regiões podem enfrentar maior pressão sobre os serviços de saúde? Que intervenções podem reduzir o impacto de um surto?

As projeções não são previsões infalíveis. Seus resultados dependem da qualidade dos dados disponíveis e das hipóteses utilizadas. Por isso, precisam ser interpretados em conjunto com informações clínicas, epidemiológicas e laboratoriais.

Ao conectar especialistas de diferentes países, a OMS pretende facilitar o acesso a conhecimento técnico quando uma nova ameaça surgir, evitando que cada governo precise desenvolver sozinho todas as ferramentas necessárias para compreender uma crise.

A mobilização rápida de especialistas também pode ajudar países com menos recursos a interpretar dados complexos e planejar medidas de prevenção e resposta.

Vigilância colaborativa em mais de 83 países

A iniciativa de Vigilância Colaborativa é outra peça importante do plano. Segundo a OMS, ela está sendo implementada em mais de 83 países e busca fortalecer os sistemas nacionais de identificação e monitoramento de ameaças à saúde.

A abordagem parte do princípio de que a detecção precoce depende da integração de diferentes fontes de informação, incluindo hospitais, laboratórios, serviços de vigilância epidemiológica e outros setores relevantes.

Um surto pode ser percebido inicialmente por um aumento incomum de pacientes com sintomas semelhantes, por resultados laboratoriais inesperados ou por registros de doenças em determinada comunidade. Quando esses sinais são analisados em conjunto, as autoridades têm mais condições de reconhecer uma possível ameaça.

A proposta também se relaciona ao conceito de Saúde Única, conhecido internacionalmente como One Health. Essa abordagem reconhece a conexão entre a saúde humana, a saúde animal e o meio ambiente.

Essa integração é relevante porque algumas doenças infecciosas podem passar de animais para seres humanos. A vigilância de animais, ambientes e populações humanas pode, em determinadas circunstâncias, ajudar a identificar riscos antes que provoquem surtos amplos.

A estratégia busca tornar os sistemas de vigilância mais conectados, para que informações relevantes circulem com maior rapidez e possam orientar decisões preventivas.

Sistemas digitais para compartilhar dados com segurança

A nova estratégia inclui ainda um programa voltado ao desenvolvimento de sistemas digitais seguros para que países e parceiros possam compartilhar, analisar e utilizar informações de saúde pública.

O intercâmbio de dados é essencial em situações nas quais uma ameaça pode atravessar fronteiras em pouco tempo. Informações sobre casos suspeitos, resultados laboratoriais e padrões de transmissão podem ajudar autoridades de diferentes países a compreender se estão diante de acontecimentos isolados ou de um problema com potencial internacional.

Entretanto, compartilhar dados exige regras claras de segurança, privacidade, acesso e responsabilidade. Informações incompletas ou divulgadas sem contexto podem provocar interpretações equivocadas, enquanto falhas de proteção podem comprometer dados sensíveis.

Por esse motivo, o plano também destaca a necessidade de bases digitais confiáveis e do uso responsável da inteligência artificial.

A cooperação internacional depende não apenas da disponibilidade tecnológica, mas também da confiança entre as instituições e da capacidade de transformar informações compartilhadas em ações concretas.

O que a pandemia de Covid-19 ensinou ao mundo

O Centro para Inteligência sobre Pandemias e Epidemias da OMS foi criado em 2021, com apoio inicial do governo alemão, em resposta às deficiências evidenciadas pela pandemia de Covid-19.

A crise mostrou como a identificação tardia de ameaças, a fragmentação de informações e as dificuldades de coordenação podem prejudicar a resposta internacional a uma doença emergente.

Também demonstrou a importância de laboratórios preparados, sistemas de vigilância robustos, comunicação transparente e cooperação científica para acompanhar a evolução de um agente infeccioso.

Desde sua criação, o Centro trabalhou com 160 Estados-membros da OMS, 190 organizações parceiras e milhares de cientistas e responsáveis por decisões públicas.

A nova estratégia pretende consolidar essa rede e ampliar a capacidade dos países de reconhecer ameaças antes que elas se transformem em emergências de maiores proporções.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, destacou, no lançamento da iniciativa, a importância de unir governos e parceiros para responder rapidamente às ameaças antes que se tornem grandes crises.

O que muda para o Brasil

Para o Brasil, o fortalecimento da inteligência epidemiológica internacional pode contribuir para aprimorar a identificação de doenças emergentes, a vigilância de agentes infecciosos e a preparação para eventuais emergências sanitárias.

O país conta com estruturas de vigilância epidemiológica, laboratórios de saúde pública e instituições de pesquisa que desempenham funções importantes na identificação e investigação de doenças. A articulação entre essas estruturas e as redes internacionais pode favorecer o intercâmbio de informações e a análise de riscos.

A aplicação prática da estratégia, contudo, depende de investimentos contínuos, capacitação de profissionais, infraestrutura laboratorial, sistemas de informação interoperáveis e mecanismos eficientes de comunicação entre autoridades.

Também é importante que os sistemas nacionais consigam detectar sinais incomuns fora dos grandes centros urbanos e em comunidades com acesso limitado aos serviços de saúde.

O anúncio da OMS estabelece uma meta global, mas não significa que todos os países já disponham das condições necessárias para detectar e avaliar qualquer nova ameaça em 24 horas. O avanço dependerá da implementação das medidas previstas, da disponibilidade de recursos e da cooperação entre instituições.

A meta até 2030 exige investimento e cooperação internacional

A estratégia para 2026–2030 estabelece um caminho para fortalecer a preparação mundial diante de futuras epidemias e pandemias. O plano combina inteligência artificial, sequenciamento genômico, análise de dados, redes de especialistas, vigilância colaborativa e sistemas digitais seguros.

A ambição é permitir que os países reconheçam e compreendam ameaças emergentes com maior rapidez, criando oportunidades para investigar casos, orientar medidas de prevenção e reduzir a possibilidade de disseminação internacional.

A OMS ressalta, porém, que alcançar esse objetivo exigirá investimentos sustentados, parcerias confiáveis e cooperação entre diferentes setores e disciplinas.

Detectar um surto em poucas horas pode representar uma vantagem importante, mas a identificação precoce só produz resultados quando acompanhada de capacidade para investigar, comunicar riscos e agir.

A preparação para futuras pandemias, portanto, não depende de uma única tecnologia ou instituição. Ela exige sistemas de saúde capazes de reconhecer sinais de alerta, equipes preparadas, laboratórios eficientes e governos dispostos a transformar evidências científicas em respostas rápidas.

O desafio estabelecido pela OMS até 2030 é fazer com que essa capacidade esteja disponível em todos os países, reduzindo o intervalo entre o surgimento de uma ameaça e a resposta necessária para proteger a população.

Jornal GNewsUSA — BRAZILIANS AROUND THE WORLD

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