Saúde mental: combater o preconceito é tão importante quanto tratar os sintomas, alerta especialista da OPAS

Estigma, desinformação e discriminação podem afastar pessoas do atendimento, agravar o sofrimento psicológico e comprometer oportunidades de estudo, trabalho e convivência social. Especialista defende informação de qualidade, acolhimento e participação ativa da sociedade
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

O sofrimento relacionado à saúde mental nem sempre termina quando uma pessoa consegue identificar o que está sentindo. Para muitas pessoas, existe uma segunda barreira: o medo de ser julgada, rejeitada ou tratada de maneira diferente por familiares, amigos, colegas de trabalho e pela sociedade.

Esse preconceito pode atrasar a procura por ajuda profissional, dificultar a continuidade do tratamento e aumentar o isolamento. Por isso, combater o estigma associado às condições de saúde mental é uma parte importante da resposta de saúde pública, além de garantir acesso a serviços adequados.

O alerta foi feito pelo psiquiatra brasileiro Renato Oliveira e Souza, chefe da área de Saúde Mental e Abuso de Substâncias da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em entrevista à ONU News publicada em 19 de outubro de 2026.

Segundo o especialista, o estigma pode fazer com que as pessoas sintam vergonha ou medo de procurar atendimento. Também pode levá-las a acreditar que são culpadas pelo próprio sofrimento, dificultando a conversa sobre o que estão enfrentando.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que o estigma e a discriminação relacionados à saúde mental constituem obstáculos importantes à procura por assistência e à recuperação. Em muitos casos, portanto, não basta que exista um tratamento: é necessário que a pessoa se sinta segura para buscá-lo e tenha condições de recebê-lo.

Como o estigma prejudica a saúde mental?

O estigma é formado por ideias negativas, estereótipos e julgamentos associados a determinada condição ou grupo social. Na saúde mental, pode aparecer em comentários depreciativos, na desconfiança em relação a pessoas com diagnósticos psiquiátricos e na crença equivocada de que o sofrimento psicológico representa fraqueza ou falta de força de vontade.

Esse tipo de preconceito pode surgir em diferentes ambientes: dentro de casa, na escola, no trabalho, nos serviços de saúde e nas redes sociais.

Uma pessoa com depressão, por exemplo, pode ouvir que precisa apenas se esforçar mais. Alguém que enfrenta um transtorno de ansiedade pode ser acusado de exagerar suas preocupações. Já uma pessoa em tratamento psiquiátrico pode temer revelar sua condição por receio de perder oportunidades profissionais ou sofrer discriminação.

Essas reações não ajudam a resolver o problema. Ao contrário, podem reforçar a sensação de incompreensão e tornar mais difícil pedir apoio.

Na entrevista à ONU News, Renato Oliveira e Souza descreveu o estigma como uma barreira que agrava o sofrimento e dificulta o acesso ao cuidado.

A questão é especialmente relevante porque as condições de saúde mental podem exigir diferentes formas de assistência, incluindo acompanhamento psicológico, avaliação médica, medicamentos quando indicados e apoio social. Quando o preconceito impede que alguém procure esses recursos, a possibilidade de receber ajuda no momento adequado fica comprometida.

A OPAS ressalta que o medo, a desinformação e as atitudes negativas podem contribuir para a exclusão social de pessoas que vivem com condições de saúde mental.

Quando o preconceito passa a fazer parte da maneira como a pessoa se enxerga

Um dos efeitos mais prejudiciais do estigma ocorre quando a própria pessoa começa a acreditar nos julgamentos negativos que ouve.

Esse processo é conhecido como estigma internalizado. Ele acontece quando alguém incorpora preconceitos sociais à própria percepção, passando a sentir vergonha, inferioridade ou desesperança por causa de sua condição de saúde mental.

Em vez de compreender que está enfrentando um problema que merece cuidado, a pessoa pode interpretar o sofrimento como um defeito pessoal. Pode também acreditar que não conseguirá melhorar ou que não merece receber ajuda.

Essa percepção pode afetar a autoestima, as relações pessoais e a disposição para buscar oportunidades.

Uma pessoa pode deixar de se candidatar a uma vaga de emprego por medo de ser rejeitada. Outra pode evitar iniciar um relacionamento ou se afastar de amigos por receio de que descubram seu tratamento. Há também quem abandone consultas ou deixe de falar sobre os sintomas para evitar comentários negativos.

A chamada sensação de que não vale a pena tentar pode surgir nesse contexto. Não se trata de um diagnóstico clínico específico, mas de uma forma de descrever a desesperança que pode acompanhar experiências repetidas de discriminação.

É importante destacar que nem toda dificuldade de procurar tratamento resulta do estigma. Custos, distância dos serviços, falta de profissionais, filas e outros obstáculos também podem limitar o acesso. As barreiras sociais e estruturais podem, inclusive, ocorrer simultaneamente.

Discriminação pode afetar emprego, educação e relações sociais

O impacto do preconceito vai além do sofrimento emocional. Ele também pode interferir nas condições de vida, no acesso a direitos e nas oportunidades de participação social.

No mercado de trabalho, pessoas com condições de saúde mental podem enfrentar julgamentos sobre sua competência, confiabilidade ou capacidade de assumir responsabilidades. Em ambientes educacionais, o medo de ser ridicularizado pode dificultar a procura por apoio ou a comunicação de necessidades específicas.

Nas relações familiares, comentários que minimizam o sofrimento podem aumentar conflitos e dificultar a construção de uma rede de apoio. Já no convívio social, a exclusão pode reduzir as oportunidades de participar de atividades culturais, recreativas e comunitárias.

A OMS destaca que pessoas com condições de saúde mental enfrentam estigma e discriminação em diferentes países, com consequências para o acesso ao tratamento, a continuidade do cuidado, o trabalho e os relacionamentos.

Por isso, a resposta não pode se limitar à orientação individual para que alguém procure ajuda. Também é necessário enfrentar práticas discriminatórias e promover ambientes em que as pessoas sejam tratadas com dignidade.

A discriminação pode ocorrer de maneira explícita, como em uma recusa injustificada de oportunidade, ou de forma mais sutil, por meio de atitudes de desconfiança, isolamento e desvalorização.

Estigma e discriminação não são exatamente a mesma coisa: o estigma envolve atribuir uma marca negativa a alguém; a discriminação corresponde a ações ou decisões que produzem tratamento desigual ou prejudicial. Os dois fenômenos podem se reforçar mutuamente.

Informação e convivência ajudam a combater o preconceito

Uma das estratégias defendidas por especialistas é ampliar o contato social com pessoas que vivem com condições de saúde mental, valorizando suas experiências e reconhecendo que elas podem estudar, trabalhar, criar, desenvolver relacionamentos e participar ativamente da comunidade.

Na entrevista à ONU News, Oliveira e Souza destacou iniciativas que mostram pessoas com condições de saúde mental levando uma vida ativa, realizando atividades artísticas, participando de ações recreativas e se comunicando com outras pessoas.

A proposta não é esconder as dificuldades enfrentadas por quem precisa de tratamento, nem sugerir que todos terão a mesma trajetória de recuperação. O objetivo é combater a ideia equivocada de que um diagnóstico define toda a identidade, as capacidades ou o futuro de alguém.

A convivência, quando acontece em condições de respeito e igualdade, pode ajudar a substituir estereótipos por experiências concretas. Em vez de formar opiniões baseadas em representações negativas, as pessoas passam a reconhecer a diversidade de histórias, necessidades e possibilidades de recuperação.

A OPAS promoveu a campanha #FaçaSuaParte para estimular conversas abertas sobre saúde mental, incentivar o compartilhamento de experiências e combater o preconceito.

A organização aponta o contato social, a informação e a revisão de políticas discriminatórias como estratégias relevantes para reduzir o estigma.

Isso também exige cuidado com a linguagem. Expressões que reduzem uma pessoa ao diagnóstico ou que usam transtornos mentais como insultos reforçam associações negativas. Falar sobre saúde mental de maneira responsável significa tratar as pessoas como indivíduos, sem ignorar suas dificuldades nem transformá-las em sinônimo de uma condição clínica.

Profissionais de saúde também precisam enfrentar o estigma

O preconceito não está restrito às relações familiares ou ao convívio social. Ele também pode aparecer nos próprios serviços de saúde, comprometendo a qualidade do atendimento.

Uma assistência humanizada exige escuta, respeito à autonomia e consideração das necessidades de cada pessoa. Isso significa evitar julgamentos morais, explicar as possibilidades de tratamento e permitir que o paciente participe das decisões relacionadas ao próprio cuidado.

A OPAS disponibiliza capacitações e materiais educacionais voltados a profissionais de saúde, inclusive por meio de seu Campus Virtual de Saúde Pública. Essas iniciativas ajudam a preparar equipes para reconhecer o estigma e oferecer atendimento mais respeitoso.

A OMS também recomenda transformar os sistemas de saúde mental para ampliar o acesso a serviços de qualidade, fortalecer o cuidado comunitário e proteger os direitos das pessoas atendidas.

Isso inclui combater práticas discriminatórias dentro das instituições, preservar a dignidade dos pacientes e promover serviços que considerem não apenas os sintomas, mas também as condições sociais em que o sofrimento acontece.

O cuidado em saúde mental não deve se resumir à prescrição de medicamentos ou à realização de consultas. Conforme a necessidade de cada pessoa, pode envolver psicoterapia, acompanhamento médico, apoio familiar, assistência social e estratégias de reinserção educacional e profissional.

O tratamento adequado depende de avaliação individualizada. Nem todas as condições exigem as mesmas intervenções, e nenhuma abordagem isolada é apropriada para todas as pessoas.

O que familiares e amigos podem fazer para ajudar?

A rede de apoio pode desempenhar um papel importante na recuperação e na busca por atendimento. Isso não significa que familiares e amigos precisem assumir a função de profissionais de saúde, mas que suas atitudes podem facilitar ou dificultar o acesso ao cuidado.

Algumas medidas práticas ajudam a construir um ambiente mais acolhedor:

Ouvir sem minimizar. Comentários como “isso é falta de vontade” ou “você precisa parar de pensar nisso” podem transmitir a ideia de que a pessoa é culpada pelo sofrimento. Escutar com atenção, sem tentar julgar ou resolver tudo imediatamente, pode ser mais útil.

Evitar diagnósticos improvisados. Tristeza, ansiedade, irritabilidade e alterações de comportamento podem ter diferentes causas. É importante não atribuir automaticamente um diagnóstico nem desconsiderar sintomas persistentes.

Incentivar a procura por ajuda profissional. Quando alguém demonstra sofrimento significativo, é possível oferecer apoio para encontrar atendimento ou organizar uma consulta, respeitando sua autonomia.

Preservar a privacidade. Compartilhar informações sobre o diagnóstico, o tratamento ou a situação pessoal de alguém sem autorização pode aumentar a exposição e a vulnerabilidade ao preconceito.

Manter a convivência. Continuar convidando a pessoa para atividades sociais e demonstrar interesse por sua vida, sem pressioná-la, pode ajudar a reduzir o isolamento.

Combater comentários discriminatórios. Corrigir informações falsas e não participar de piadas que ridicularizam transtornos mentais são atitudes que contribuem para transformar a cultura do grupo.

Essas ações não substituem tratamento psicológico ou médico, mas podem ajudar a construir condições mais favoráveis para que o cuidado aconteça.

Como procurar atendimento no Brasil

Quem enfrenta sofrimento psicológico persistente, percebe mudanças importantes no sono ou no funcionamento cotidiano ou tem dificuldade para lidar com as próprias emoções pode procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para uma primeira avaliação.

A Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde (SUS) inclui diferentes pontos de atendimento, entre eles os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que oferecem acompanhamento de acordo com as necessidades de saúde mental da população atendida.

A porta de entrada mais adequada depende da situação, da intensidade dos sintomas e dos serviços disponíveis no município. Profissionais da atenção primária podem orientar sobre os encaminhamentos necessários.

Em situações de crise, risco imediato ou perigo de lesão, é importante procurar atendimento de urgência. No Brasil, o SAMU pode ser acionado pelo número 192.

Para apoio emocional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece escuta gratuita pelo número 188. O serviço não substitui atendimento médico ou psicológico de emergência.

Buscar ajuda não representa fracasso ou fraqueza. É uma medida de cuidado, assim como procurar assistência para qualquer outro problema de saúde.

Saúde mental exige tratamento, informação e respeito

O alerta apresentado pela ONU News reforça uma dimensão essencial do cuidado: o sofrimento psicológico não acontece isolado do ambiente social. O preconceito pode ampliar a dor, dificultar a procura por atendimento e limitar as oportunidades de participação na vida cotidiana.

Por isso, o combate ao estigma precisa envolver profissionais de saúde, instituições de ensino, empregadores, governos, famílias e comunidades.

Garantir serviços acessíveis e humanizados é fundamental, mas também é necessário criar condições para que ninguém tenha de esconder seu sofrimento por medo de ser humilhado, rejeitado ou discriminado.

A informação de qualidade ajuda a corrigir mitos. A convivência respeitosa permite reconhecer as pessoas para além de seus diagnósticos. E políticas públicas inclusivas contribuem para transformar direitos em acesso real ao cuidado.

O recado central é que tratar a saúde mental também significa combater o preconceito. Uma sociedade que acolhe, informa e respeita torna mais fácil procurar ajuda, continuar o tratamento e reconstruir a vida com dignidade.

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