Médica cabo-verdiana destaca a importância do diagnóstico precoce, da vigilância epidemiológica e do planeamento individualizado para reduzir riscos sanitários e fortalecer a prevenção de doenças em viagens internacionais
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
A preparação para uma viagem internacional exige mais do que a atualização do cartão de vacinação. A avaliação das condições de saúde do viajante, a identificação de doenças comuns no destino e o acompanhamento antes, durante e depois do deslocamento são medidas fundamentais para evitar complicações e reduzir riscos de transmissão de infeções. A médica cabo-verdiana Liliana Alves, que exerce em Portugal, defende que o investimento na prevenção, na recolha de dados epidemiológicos e na capacitação dos profissionais de saúde é indispensável para melhorar a resposta a emergências sanitárias, sobretudo nos países africanos que enfrentam limitações de recursos e infraestrutura.
A medicina do viajante tem um papel cada vez mais relevante num cenário de intensa mobilidade internacional, no qual turistas, trabalhadores e profissionais em missões no exterior podem estar expostos a doenças e condições ambientais diferentes das encontradas nos seus locais de origem. Para a especialista Liliana Alves, a proteção dessas pessoas depende de uma abordagem abrangente, capaz de antecipar ameaças e orientar decisões clínicas de acordo com as necessidades de cada indivíduo.
Em entrevista à ONU News, em Lisboa, a médica chamou a atenção para os desafios de implementação e consolidação dessa especialidade nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). Segundo a perspetiva apresentada pela profissional, é necessário desenvolver serviços mais estruturados, com capacidade para identificar os principais problemas de saúde de cada região e produzir informações que apoiem a definição de políticas preventivas.
Prevenção em todas as etapas da viagem
A assistência médica ao viajante começa antes do embarque e não termina com a chegada ao destino. O processo inclui uma consulta preparatória, orientações durante a permanência no exterior e avaliação clínica após o regresso, sobretudo quando existe suspeita de exposição a doenças infeciosas.
Na fase inicial, a análise deve considerar o destino, a duração da viagem, as atividades previstas, o histórico clínico e eventuais condições que aumentem a vulnerabilidade do viajante. A vacinação pode integrar esse planeamento, mas as recomendações também podem abranger medidas de higiene, prevenção de picadas de mosquitos, segurança alimentar e cuidados específicos relacionados com o ambiente.
Durante a deslocação, o acompanhamento e o conhecimento dos sinais de alerta ajudam a reconhecer precocemente possíveis problemas de saúde. Depois do regresso, a avaliação médica pode ser necessária quando surgem sintomas compatíveis com doenças adquiridas durante a viagem.
A abordagem individualizada é especialmente importante para crianças, grávidas, pessoas com doenças crónicas e profissionais que trabalham em ambientes de risco, incluindo instalações offshore e missões internacionais.
Falta de dados dificulta o planeamento sanitário
Um dos principais desafios destacados no debate sobre a medicina do viajante é a insuficiência de informações organizadas sobre as doenças que afetam determinadas populações e os riscos associados à mobilidade internacional.
Sem dados consistentes, os serviços de saúde encontram dificuldades para identificar prioridades, acompanhar tendências epidemiológicas e direcionar recursos para as áreas mais necessitadas. A recolha sistemática de informações também permite avaliar a eficácia das medidas preventivas e melhorar a preparação para futuras emergências.
Doenças como malária, dengue e infeções gastrointestinais estão entre os problemas que merecem atenção em diferentes contextos africanos. A identificação dos riscos, contudo, deve considerar as características epidemiológicas de cada localidade, evitando recomendações generalizadas que não correspondam à realidade do destino.
Para Liliana Alves, o fortalecimento da especialidade passa pela criação de condições que permitam conhecer melhor os problemas de saúde existentes e transformar esse conhecimento em ações concretas de proteção.
Preparação para enfrentar emergências sanitárias
A prevenção também está relacionada com a capacidade de reconhecer e controlar surtos de doenças com potencial de provocar graves consequências para a saúde pública. Entre as ameaças que exigem vigilância e resposta coordenada estão o ébola, a cólera e a doença pelo vírus de Marburgo.
A experiência internacional demonstra a importância da deteção precoce, da comunicação entre autoridades sanitárias e da preparação das equipas locais para responder a situações de emergência. Quanto mais rapidamente uma ameaça é identificada, maiores são as possibilidades de implementar medidas de controlo adequadas e limitar os seus impactos.
A questão esteve entre os temas debatidos no congresso da Federação Pan-Africana de Medicina do Viajante, realizado em Dar es Salaam, na Tanzânia. O encontro reuniu profissionais e especialistas para discutir os desafios da área e a cooperação internacional na proteção da saúde.
A articulação entre os países é particularmente importante num contexto em que pessoas, mercadorias e atividades económicas atravessam fronteiras com frequência. A partilha de informações e a formação contínua dos profissionais podem contribuir para respostas mais rápidas e coordenadas.
Financiamento e capacidade local continuam a ser desafios
Apesar da relevância da prevenção para o turismo e para a segurança sanitária, a medicina do viajante enfrenta obstáculos relacionados com o financiamento, o acesso a recursos técnicos e a disponibilidade de profissionais capacitados.
No continente africano, essas limitações podem dificultar a criação de serviços especializados e o desenvolvimento de estratégias ajustadas às necessidades locais. A reduzida presença direta de algumas grandes empresas farmacêuticas em determinados mercados também pode limitar oportunidades de investimento e apoio a iniciativas específicas.
Perante essas dificuldades, a cooperação entre universidades, instituições científicas e organizações internacionais torna-se importante para ampliar a formação, facilitar o intercâmbio de experiências e reforçar as competências dos serviços de saúde.
A construção de redes de colaboração entre países africanos de língua portuguesa e outras instituições internacionais pode igualmente favorecer a circulação de conhecimento e o desenvolvimento de respostas adaptadas às realidades de cada comunidade.
Saúde do viajante também protege as comunidades
Os benefícios da medicina do viajante ultrapassam a proteção individual. A orientação adequada dos visitantes e trabalhadores pode ajudar a reduzir complicações clínicas, favorecer a identificação de doenças e apoiar medidas de prevenção que beneficiem também as populações locais.
O turismo, as missões profissionais e as atividades económicas internacionais dependem, em parte, de condições sanitárias capazes de proteger trabalhadores, visitantes e comunidades anfitriãs. Investir na prevenção significa, por isso, fortalecer não apenas os cuidados médicos, mas também a capacidade dos países para gerir riscos e manter atividades essenciais.
A mensagem defendida por Liliana Alves aponta para a necessidade de mudar o foco de uma resposta predominantemente reativa para uma estratégia baseada na antecipação, na informação e na preparação dos serviços.
Num mundo em que as deslocações internacionais fazem parte da vida quotidiana, conhecer os riscos antes de viajar e garantir acesso a orientações médicas adequadas são medidas essenciais. Mais do que recomendar vacinas, a medicina do viajante procura assegurar que cada pessoa esteja preparada para as condições que poderá encontrar, contribuindo para uma mobilidade mais segura e para uma saúde pública melhor protegida.
Jornal GnewsUSA — BRAZILIANS AROUND THE WORLD
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