Apontada como liderança do crime organizado, Angeliquinha fugiu de presídio e foi recapturada em operação policial internacional
Por Ana Raquel |GNEWSUSA
A Justiça de Mato Grosso determinou a inclusão de Angélica Saraiva de Sá, conhecida como “Angeliquinha”, no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), uma modalidade de custódia com regras mais rígidas. Apontada pelas autoridades como uma das lideranças do Comando Vermelho no estado, ela acumula condenações que ultrapassam 260 anos de prisão.
A transferência para o sistema penitenciário mato-grossense ocorreu na terça-feira (20), após a detenta ser recapturada na Bolívia. A decisão foi tomada pela 5ª Vara Criminal de Sinop, sob responsabilidade do juiz Anderson Clayton Dias Batista, com o objetivo de impedir que ela continue exercendo influência sobre a organização criminosa e reduzir o risco de novas fugas.
Regime mais rígido para conter o crime organizado
O RDD estabelece condições especiais de custódia, incluindo permanência em cela individual, restrições às visitas e limitação do tempo de banho de sol. No caso de Angeliquinha, a medida foi determinada pelo prazo inicial de 180 dias, com possibilidade de prorrogação mediante nova decisão judicial fundamentada.
A medida atende a uma preocupação central das forças de segurança: impedir que integrantes com posição de liderança continuem coordenando atividades criminosas mesmo quando estão presos.
Segundo os elementos apresentados pela Polícia Civil, havia indícios de que Angeliquinha teria mantido funções de comando na facção durante o período em que permaneceu foragida no exterior.
A inclusão no regime diferenciado foi solicitada no âmbito da Operação Showdown, investigação voltada à estrutura criminosa associada à detenta.
Fuga, captura internacional e retorno à prisão
Angeliquinha fugiu da Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, em Cuiabá, em 17 de agosto de 2025. Após escapar, permaneceu fora do alcance das autoridades brasileiras até ser localizada em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, em 22 de setembro de 2026.
A captura foi realizada em uma ação integrada entre a Polícia Civil de Mato Grosso e a Polícia Boliviana. Dois dias depois, ela foi entregue à Polícia Federal brasileira e encaminhada para uma unidade prisional feminina em Corumbá, no Mato Grosso do Sul.
Na terça-feira (20), equipes especializadas realizaram o retorno da detenta a Mato Grosso, com escolta e apoio operacional das forças de segurança. Ela foi encaminhada à penitenciária feminina de Cuiabá, onde ficará à disposição da Justiça.
A recaptura encerrou mais de um ano de fuga e permitiu que as autoridades retomassem as medidas necessárias para mantê-la sob custódia.
Investigações apontam atuação no tráfico e na lavagem de dinheiro
De acordo com a Polícia Civil, Angeliquinha é apontada como uma das lideranças de uma facção criminosa com atuação no extremo norte de Mato Grosso, especialmente em Alta Floresta e municípios da região.
As investigações apuram atividades relacionadas ao tráfico de drogas, à lavagem de dinheiro e à coordenação de ações criminosas. As autoridades também investigaram a estrutura financeira e o apoio que o núcleo familiar da suspeita teria fornecido à organização.
Em março de 2026, a Operação Showdown cumpriu 31 ordens judiciais, incluindo mandados de prisão e de busca e apreensão, sequestros de veículos e imóveis, bloqueios de contas bancárias e suspensões de pessoas jurídicas.
Segundo a investigação, foram identificadas movimentações financeiras superiores a R$ 20 milhões em aproximadamente um ano e sete meses, consideradas incompatíveis com a renda declarada pelos investigados. A apuração busca esclarecer se empresas e estabelecimentos comerciais foram utilizados para ocultar a origem de recursos provenientes de atividades ilícitas.
As responsabilidades individuais devem ser estabelecidas conforme as provas e as decisões judiciais de cada processo.
Segurança pública e combate às facções
A aplicação do RDD reforça a estratégia de restringir a comunicação e a capacidade de articulação de presos apontados como lideranças do crime organizado. Quando há indícios de que uma pessoa continua coordenando atividades ilícitas mesmo sob custódia, a atuação das autoridades penitenciárias torna-se fundamental para evitar que a prisão seja usada como extensão da estrutura criminosa.
O caso também evidencia a importância da cooperação entre forças policiais brasileiras e estrangeiras no enfrentamento de organizações que atravessam fronteiras para escapar da Justiça.
A determinação judicial busca impedir que Angeliquinha volte a fugir ou utilize a estrutura penitenciária para manter influência sobre a facção. A medida, contudo, não substitui a continuidade das investigações nem o cumprimento dos procedimentos previstos em lei.
O objetivo central é impedir que o crime organizado continue operando sob a proteção do isolamento geográfico ou das brechas do sistema prisional, preservando a segurança pública e a autoridade das decisões judiciais.
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