Saúde mental dos jovens acende alerta mundial: pesquisa em 92 países revela falta de energia e estabilidade emocional

Estudo internacional com 53.799 participantes identifica os piores indicadores de bem-estar entre adultos de 18 a 25 anos. Renda, escolaridade, emprego e condições de vida aparecem associados à saúde emocional. Pesquisadores cobram políticas públicas mais efetivas
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

A juventude costuma ser associada a sonhos, planos, disposição e expectativas de um futuro melhor. Entretanto, uma ampla investigação internacional está chamando a atenção para uma realidade preocupante: muitos jovens estão enfrentando dificuldades para manter o equilíbrio emocional, lidar com pressões cotidianas e encontrar energia para enfrentar os desafios da vida.

Um estudo publicado em 30 de outubro de 2026 na revista científica Social Indicators Research analisou respostas de 53.799 pessoas em 92 países e encontrou indicadores particularmente preocupantes entre adultos de 18 a 25 anos.

A pesquisa foi conduzida por uma equipe internacional de 261 pesquisadores, liderada por Kai Ruggeri, professor da Universidade Columbia, nos Estados Unidos.

Os resultados apontam que os adultos mais jovens apresentaram níveis inferiores de bem-estar psicológico em comparação com participantes mais velhos. As principais dificuldades apareceram em três dimensões: vitalidade, estabilidade emocional e resiliência.

O levantamento também identificou relações entre saúde mental e condições socioeconômicas, como renda, escolaridade, emprego e condições de moradia.

O alerta vai além dos números. Ele levanta uma questão importante para governos, famílias, escolas e empresas: por que uma geração que possui tantas possibilidades de comunicação, acesso à informação e tecnologia também relata tantas dificuldades para lidar com a própria vida?

Jovens apresentam indicadores preocupantes de ansiedade e depressão

Um dos resultados que mais chamaram a atenção dos pesquisadores está relacionado aos sintomas de ansiedade e depressão entre os participantes mais jovens.

Na faixa etária de 18 a 25 anos, apenas 14,7% dos respondentes que realizaram essa etapa da avaliação não apresentaram sinais desses sintomas.

Em contrapartida, 28,6% apresentaram indicadores classificados como moderados a graves.

No conjunto dos participantes avaliados por esse instrumento, o percentual sem sinais de ansiedade ou depressão foi de 23,6%, enquanto 22,6% apresentaram indicadores moderados a graves.

Os números mostram uma diferença relevante entre os jovens e o restante da amostra.

É importante esclarecer que esses resultados são provenientes de questionários de rastreamento, e não de diagnósticos médicos. Portanto, não significam que 28,6% de todos os jovens do mundo tenham um transtorno mental diagnosticado.

Ainda assim, representam um sinal importante de que o sofrimento emocional precisa receber mais atenção.

O problema não é apenas tristeza: falta de energia e dificuldade para enfrentar adversidades

Outro aspecto importante da pesquisa é que os cientistas não avaliaram apenas sintomas de depressão e ansiedade.

O estudo examinou dez dimensões do bem-estar psicológico, incluindo autoestima, otimismo, relacionamentos, sentido da vida, envolvimento com atividades, emoções positivas, vitalidade, estabilidade emocional, competência e resiliência.

Os resultados revelaram um contraste interessante.

Relacionamentos pessoais, sentido atribuído à vida, autoestima e sensação de competência apareceram entre os aspectos relativamente mais bem avaliados.

Por outro lado, vitalidade, estabilidade emocional e resiliência apresentaram resultados mais baixos.

Isso significa que uma pessoa pode valorizar seus amigos, manter objetivos pessoais e acreditar em suas capacidades, mas ainda assim sentir dificuldade para enfrentar a rotina.

A falta de energia, o esgotamento emocional e a dificuldade de reagir diante de problemas podem comprometer os estudos, o trabalho e os relacionamentos.

É uma situação que merece atenção porque o sofrimento psicológico nem sempre aparece de maneira evidente para as pessoas ao redor.

Dinheiro, emprego e escolaridade também influenciam o bem-estar

A investigação encontrou associações importantes entre condições econômicas e saúde mental.

Participantes com rendimentos mais elevados apresentaram, em geral, melhores indicadores de bem-estar do que aqueles com menor renda.

A situação profissional também apareceu como um fator relevante. Pessoas empregadas apresentaram resultados geralmente mais favoráveis do que aquelas sem trabalho remunerado.

A escolaridade seguiu uma tendência semelhante: níveis educacionais mais elevados estiveram associados a indicadores mais positivos de bem-estar.

Esses resultados reforçam a importância de compreender a saúde mental para além do atendimento psicológico e psiquiátrico.

A insegurança financeira, a dificuldade de conseguir emprego, a falta de perspectivas profissionais e as limitações de acesso à educação podem aumentar as pressões enfrentadas pelos jovens.

Para muitos, a entrada na vida adulta representa uma sequência de desafios: concluir os estudos, conquistar o primeiro emprego, conseguir independência financeira, pagar despesas e construir um futuro.

Quando essas conquistas parecem distantes, a insegurança pode se transformar em uma fonte constante de preocupação.

A pesquisa não demonstra que a falta de dinheiro ou o desemprego sejam causas isoladas dos problemas emocionais, mas identifica uma associação que merece ser considerada na formulação de políticas públicas.

Morar sozinho também apareceu associado a indicadores menos favoráveis

Outro resultado interessante está relacionado às condições de moradia.

Os participantes que viviam acompanhados apresentaram, em geral, melhores indicadores de bem-estar do que aqueles que moravam sozinhos.

Residências com mais moradores também registraram pontuações superiores em determinados indicadores.

Isso não significa que morar sozinho provoque problemas psicológicos, nem que todas as pessoas que vivem acompanhadas tenham uma saúde mental melhor.

O resultado sugere que as relações sociais e a convivência podem desempenhar um papel importante na experiência de bem-estar.

Ter alguém com quem conversar, compartilhar dificuldades e contar em momentos complicados pode representar uma importante fonte de apoio emocional.

A solidão, por outro lado, pode tornar mais difícil enfrentar situações de estresse quando não existe uma rede de apoio disponível.

Trabalho remoto, esgotamento e novas pressões profissionais

O ambiente profissional também foi analisado pelos pesquisadores.

Um dos resultados mostrou que participantes que trabalhavam em regime híbrido apresentaram indicadores de bem-estar superiores aos daqueles que trabalhavam exclusivamente de forma remota.

Essa associação não significa que o trabalho presencial seja necessariamente melhor, mas demonstra que as condições e a organização da atividade profissional podem estar relacionadas à qualidade de vida.

O esgotamento profissional é outro ponto que merece atenção.

Jovens que estão começando suas carreiras frequentemente enfrentam cobranças por produtividade, necessidade de qualificação constante, competitividade e insegurança sobre a permanência no emprego.

Além disso, as transformações tecnológicas e a expansão da inteligência artificial estão modificando diversas profissões.

Embora essas tecnologias possam criar oportunidades, também levantam preocupações sobre substituição de funções, exigências de novas habilidades e instabilidade no mercado de trabalho.

Os pesquisadores defendem que governos e instituições desenvolvam medidas para proteger os trabalhadores, reduzir o esgotamento e ampliar o acesso aos cuidados em saúde mental.

Países ricos também enfrentam dificuldades

Um dos aspectos mais surpreendentes do levantamento é que os indicadores preocupantes não ficaram restritos aos países mais pobres.

O estudo identificou sinais de baixo bem-estar psicológico também em nações com maior desenvolvimento econômico.

Isso demonstra que o crescimento da renda de um país, isoladamente, não garante que sua população tenha estabilidade emocional e qualidade de vida.

O acesso à tecnologia, aos bens de consumo e a melhores condições materiais não elimina automaticamente problemas relacionados à ansiedade, à insegurança, ao isolamento e à falta de perspectivas.

A pesquisa reforça a necessidade de considerar indicadores sociais e emocionais na avaliação do desenvolvimento das sociedades.

Uma nação não deve ser avaliada apenas pelo tamanho de sua economia, mas também pelas condições de vida e pelo bem-estar de sua população.

O que os pesquisadores recomendam?

Para Kai Ruggeri, principal autor do trabalho, os resultados representam um alerta para os responsáveis pela formulação de políticas públicas.

O pesquisador defende ações concretas para melhorar as condições de vida e fortalecer a saúde mental, especialmente entre os jovens e as pessoas em situação de maior vulnerabilidade econômica.

Entre as prioridades apontadas estão:

  • Ampliar o acesso a serviços de saúde mental.
  • Desenvolver políticas de prevenção ao esgotamento emocional.
  • Proteger trabalhadores diante das transformações do mercado de trabalho.
  • Melhorar as oportunidades de emprego e geração de renda.
  • Fortalecer o acesso à educação.
  • Desenvolver estratégias de apoio ao bem-estar psicológico dos jovens.

A preocupação é que o sofrimento emocional não seja tratado apenas quando já existe uma situação grave.

A prevenção, o acolhimento e a identificação precoce de dificuldades podem ajudar a evitar que problemas se agravem.

Brasil precisa olhar com atenção para a saúde mental da juventude

Embora a investigação tenha abrangência internacional, seus resultados também levantam reflexões importantes para o Brasil.

O país enfrenta desafios relacionados ao acesso aos serviços de saúde mental, à desigualdade social, ao desemprego juvenil e às condições de permanência dos estudantes nas escolas e universidades.

A realidade de muitos jovens brasileiros envolve dificuldades para conquistar o primeiro emprego, conciliar trabalho e estudo, alcançar independência financeira e lidar com cobranças familiares e sociais.

Nesse cenário, é fundamental fortalecer a rede de atendimento psicossocial, ampliar a estrutura dos serviços públicos e desenvolver programas de prevenção nas escolas e universidades.

O Sistema Único de Saúde possui uma rede de atenção psicossocial que inclui os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), além dos serviços oferecidos pela atenção básica.

Entretanto, a existência desses serviços não elimina a necessidade de ampliar o acesso, melhorar a distribuição dos profissionais e reduzir as dificuldades enfrentadas por quem procura atendimento.

Também é importante que escolas e instituições de ensino estejam preparadas para identificar situações de sofrimento emocional e encaminhar estudantes para atendimento adequado.

A saúde mental não pode ser responsabilidade exclusiva das famílias ou dos próprios jovens. Trata-se de uma questão de saúde pública que exige planejamento, investimento e políticas permanentes.

Pesquisa tem limitações e não permite afirmar que todos os jovens estão adoecendo

Apesar da dimensão do levantamento, os próprios pesquisadores reconhecem limitações metodológicas.

A coleta foi realizada predominantemente pela internet, e os participantes não representam necessariamente toda a população de cada um dos 92 países.

Pessoas sem acesso à internet ou com menor familiaridade com questionários digitais podem ter ficado sub-representadas.

Além disso, diferenças culturais podem influenciar a maneira como os participantes interpretam e respondem às perguntas.

Outro cuidado importante: o estudo apresenta uma fotografia dos indicadores avaliados e compara grupos de diferentes idades. Ele não acompanha necessariamente as mesmas pessoas durante vários anos para demonstrar uma piora individual ao longo do tempo.

Portanto, não é correto afirmar que a pesquisa, sozinha, comprovou que a saúde mental de todos os jovens do mundo está piorando ano após ano.

O que ela demonstra é que os adultos jovens apresentaram resultados particularmente preocupantes em comparação com participantes mais velhos.

O alerta que não pode ser ignorado

Os resultados mostram que a saúde mental precisa ocupar um espaço mais importante nas discussões sobre desenvolvimento social, educação, economia e mercado de trabalho.

Não basta oferecer oportunidades de estudo e emprego se as pessoas não encontram condições para viver com dignidade, segurança e equilíbrio emocional.

Também não basta tratar a saúde mental como um assunto individual, ignorando fatores como pobreza, desemprego, isolamento e insegurança sobre o futuro.

A juventude precisa de oportunidades, mas também precisa de acolhimento, proteção e perspectivas reais.

O estudo realizado em 92 países não apresenta todas as respostas, mas oferece um alerta que merece ser levado a sério por governos, instituições e pela sociedade.

Uma geração não pode ser considerada bem-sucedida apenas porque tem acesso à tecnologia e mais possibilidades de informação. O verdadeiro desenvolvimento também precisa garantir condições para que os jovens tenham saúde, qualidade de vida e esperança no futuro.

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