Ex-segurança vence ação contra o Flamengo e receberá R$ 580 mil além de pensão vitalícia

Foto: Reprodução.
Justiça do Trabalho reconheceu os danos psicológicos sofridos por Benedito Ferreira após atuar no resgate das vítimas do incêndio no Ninho do Urubu, em 2019; decisão também considerou irregular sua demissão em 2022
Por Schirley Passos|GNEWSUSA

O ex-segurança Benedito Ferreira venceu uma ação trabalhista contra o Flamengo após mais de quatro anos de disputa judicial. A decisão do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (TRT-RJ) determina que o clube pague aproximadamente R$ 580 mil em indenizações, além de uma pensão vitalícia ao ex-funcionário.

O acórdão foi publicado em 26 de outubro de 2026. Na quarta-feira (4 de novembro), os desembargadores rejeitaram o último recurso apresentado pelo Flamengo, mantendo a condenação.

Benedito trabalhava como segurança no Centro de Treinamento do clube e participou do resgate das vítimas durante o incêndio ocorrido no Ninho do Urubu, em 8 de fevereiro de 2019. A tragédia provocou a morte de dez adolescentes das categorias de base do Flamengo.

Segundo a perícia judicial, o ex-funcionário desenvolveu problemas psicológicos relacionados à experiência vivenciada durante o incêndio. O laudo identificou transtorno depressivo, transtorno de adaptação e transtorno de pânico, além de registrar o agravamento do quadro clínico e a presença de ideação suicida.

A decisão foi tomada por unanimidade pela Terceira Turma do TRT-RJ. Os desembargadores aumentaram de R$ 100 mil para R$ 150 mil a indenização por danos morais e mantiveram os valores referentes aos danos materiais. A condenação também estabelece o pagamento de pensão mensal, calculada com base no salário-base do ex-segurança.

O tribunal acolheu parcialmente um dos argumentos apresentados pelo Flamengo e restringiu a base de cálculo da pensão ao salário-base mensal de Benedito. Do valor final, foram descontados R$ 20 mil pagos anteriormente pelo clube em um acordo extrajudicial, considerado sem efeito no processo. As custas judiciais foram fixadas em aproximadamente R$ 8,6 mil.

Demissão em 2022

Benedito Ferreira trabalhava no Flamengo desde 2008 e foi demitido em 2022, enquanto ainda realizava tratamento médico em decorrência dos problemas de saúde relacionados ao incêndio.

Durante o processo, a perícia concluiu que existia nexo causal ou concausal entre as doenças diagnosticadas e as atividades profissionais exercidas no clube. O especialista também apontou que o ex-segurança perdeu a capacidade de desempenhar sua função original ou outras atividades semelhantes.

A Justiça considerou a demissão um ato ilícito, entendendo que o Flamengo tinha conhecimento de que o funcionário estava em tratamento médico por causa das consequências do episódio.

Em julho de 2025, uma decisão anterior já havia determinado o pagamento de R$ 100 mil por danos morais, R$ 500 mil por danos materiais, além de pensão vitalícia e reintegração do trabalhador ao quadro de funcionários. O clube recorreu, levando o caso à segunda instância.

Benedito continua realizando tratamento com medicamentos controlados, acompanhamento psiquiátrico e psicológico. Ele preferiu não comentar a decisão. O Flamengo foi procurado, mas não havia se manifestado até a publicação da reportagem.

Relembre o caso: incêndio no Ninho do Urubu

Na madrugada de 8 de fevereiro de 2019, um incêndio atingiu o alojamento das categorias de base do Flamengo, no Centro de Treinamento Presidente George Helal, conhecido como Ninho do Urubu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

O fogo começou em um aparelho de ar-condicionado e se espalhou rapidamente pela estrutura utilizada como dormitório. Na ocasião, dez adolescentes, com idades entre 14 e 16 anos, morreram e outros três ficaram feridos.

A tragédia provocou comoção nacional e levantou questionamentos sobre as condições de segurança do alojamento, a estrutura utilizada pelos jovens e a responsabilidade do clube.

O episódio também deu origem a diferentes processos judiciais envolvendo o Flamengo, familiares das vítimas e outras pessoas relacionadas ao funcionamento do centro de treinamento.

Em outubro de 2025, sete pessoas acusadas de responsabilidade criminal pelo incêndio foram absolvidas em primeira instância. O Ministério Público recorreu da decisão, contestando o entendimento judicial e buscando a responsabilização dos envolvidos.

O incêndio no Ninho do Urubu permanece como uma das maiores tragédias da história recente do futebol brasileiro, deixando marcas profundas nas famílias das vítimas e em todos que vivenciaram o episódio.

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