Ex-presidente do Paraguai Santiago Peña é preso após impeachment e investigação sobre banco

Destituído pelo Senado, ex-presidente ficará sob custódia enquanto responde a investigações por suspeitas de tráfico de influência, violação de confiança e gestão em benefício próprio
Por Gilvania Alves|GNEWSUSA

O ex-presidente do Paraguai Santiago Peña foi preso na sexta-feira (6), em Assunção, após ser destituído pelo Senado em meio à crise financeira envolvendo o Banco Ueno. Por determinação do Ministério Público, ele foi colocado em prisão domiciliar, enquanto as autoridades investigam suspeitas de irregularidades relacionadas à instituição financeira e à administração de recursos públicos.

A ordem de detenção também alcançou Carlos Carvallo, ex-presidente do Banco Central do Paraguai. Peña deverá prestar depoimento ao Ministério Público neste sábado (7), às 11h, no horário de Brasília, para esclarecer suspeitas de violação de confiança, tráfico de influência e gestão em proveito próprio.

A destituição foi aprovada pelos senadores na sexta-feira, com 44 votos favoráveis e uma abstenção. O processo de impeachment havia sido instaurado em meio ao agravamento da crise bancária e à pressão política sobre o então presidente.

Prisão provoca protestos em Assunção

Após a prisão domiciliar, manifestantes se concentraram nas proximidades da residência de Peña para exigir que ele fosse encaminhado a uma unidade prisional, em vez de permanecer em casa. A mobilização terminou em confrontos com policiais, e um comissário ficou ferido após ser atingido por um projétil.

Diante do aumento da tensão, as autoridades decidiram retirar o ex-presidente da residência por razões de segurança. Pouco antes da meia-noite, um comboio de pelo menos quatro caminhonetes deixou o imóvel no bairro Mbocayaty, levando Peña para o Regimento de Escolta Presidencial, uma unidade militar.

Durante a saída dos veículos, moradores arremessaram ovos e gritaram insultos contra o ex-governante. A polícia também alertou para a possível presença de infiltrados entre os participantes dos protestos.

A mudança de local de custódia não significou a libertação de Peña. Ele continuou sob custódia das autoridades, embora ainda não tenham sido divulgados todos os detalhes sobre as condições de permanência na instalação militar nem a confirmação de autorização judicial específica para a transferência.

Crise do Banco Ueno está no centro das investigações

As apurações contra Peña estão relacionadas à liquidação do Banco Ueno, determinada após a instituição apresentar um índice de solvência de 5,56%, abaixo do mínimo exigido pela legislação paraguaia.

O banco administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo cerca de US$ 380 milhões vinculados ao Instituto de Previsão Social (IPS), responsável pelos fundos previdenciários e de saúde dos trabalhadores.

O congelamento das contas atingiu aproximadamente 3 milhões de clientes, em um país com população estimada em 6,4 milhões de habitantes. A situação também afetou pagamentos de aposentadorias e gerou dificuldades para milhares de brasileiros que vivem no Paraguai.

Peña manteve participação acionária no grupo controlador da instituição até março de 2025. Essa relação empresarial passou a integrar os questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses e decisões envolvendo recursos públicos.

Acusações incluem crescimento patrimonial e movimentação de recursos

Durante o julgamento político, integrantes da comissão de acusação apresentaram dados sobre o aumento dos depósitos do IPS no Banco Ueno durante o governo Peña.

Segundo os números apresentados pelo deputado Raúl Benítez, os recursos depositados pela previdência passaram de 70 bilhões de guaranis, em setembro de 2023, para 250,17 bilhões em dezembro daquele ano. Em dezembro de 2024, o montante chegou a 1,77 trilhão de guaranis, alcançando 2,15 trilhões em abril de 2026.

A deputada Rocío Vallejo também questionou a relação entre o governo e os interesses empresariais ligados ao banco. Outro ponto levantado pela acusação foi a evolução do patrimônio declarado por Peña, que teria passado de 1,3 bilhão de guaranis, em 2017, para mais de 23 bilhões em 2023.

As informações foram utilizadas pelos parlamentares como parte dos argumentos para justificar a destituição. As suspeitas criminais, entretanto, ainda dependem da apuração do Ministério Público e da análise da Justiça.

Defesa contesta processo e anuncia possível recurso internacional

A equipe jurídica de Peña tentou adiar a sessão do Senado por 72 horas, sob o argumento de que precisava de mais tempo para examinar as acusações. O pedido foi rejeitado pelos parlamentares, que também aprovaram a admissão das provas apresentadas pela acusação.

Durante a defesa, o advogado Ricardo Preda questionou a consistência dos documentos apresentados e afirmou que “os bancos caem em todos os lugares”, citando a quebra do Credit Suisse. Já Adolfo Ferreiro participou da estratégia jurídica contra o processo.

A defesa também indicou que poderá recorrer à Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), contestando os procedimentos adotados no julgamento político.

Com a perda da Presidência e da prerrogativa de senador vitalício, Peña passou a responder às investigações na Justiça comum. O caso segue em andamento, sem que as acusações criminais tenham sido definitivamente julgadas.

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