Intoxicações por kratom disparam nos EUA e acendem alerta de saúde pública

Casos aumentam mais de 12 vezes em dez anos, com avanço de hospitalizações e registros de mortes associadas ao uso da substância
Por Paloma de Sá |GNEWSUSA

O uso do kratom, substância de origem vegetal vendida como alternativa “natural” para dor e ansiedade, está no centro de um crescente alerta de saúde pública nos Estados Unidos. Dados recentes apontam um aumento expressivo nos casos de intoxicação, hospitalizações e registros de mortes associadas ao consumo, especialmente quando combinado com outras substâncias.

Levantamento do sistema de saúde da UVA Health mostra que, em uma década, as notificações aos centros de controle de intoxicações saltaram de 258 casos, em 2015, para 3.434 em 2025 — o maior número da série histórica.

 Crescimento acelerado e casos mais graves

Além do aumento no número de ocorrências, especialistas destacam a gravidade dos quadros clínicos:

  • Casos registrados: de 258 (2015) para 3.434 (2025)
  • Hospitalizações: de 43 para 538
  • Exposição com múltiplas substâncias: de 40 para 549 casos
  • Mais de 14.400 exposições ao kratom no período analisado

Também foram registrados 233 óbitos associados ao uso da substância ao longo da década, sendo a maioria em situações que envolviam o consumo simultâneo de outras drogas ou medicamentos.

Segundo o toxicologista Chris Holstege, diretor do Blue Ridge Poison Center, há uma mudança no perfil dos atendimentos:
“Estamos observando um aumento significativo de pacientes com complicações graves relacionadas ao kratom.”

 Como o kratom age no organismo

O kratom é extraído de uma planta do Sudeste Asiático e contém diversos compostos ativos, principalmente a mitraginina e a 7-hidroximitraginina.

De acordo com o toxicologista Álvaro Pulchinelli, essas substâncias atuam no sistema nervoso central de forma semelhante a opioides como morfina e fentanil, embora com mecanismos próprios.

“O kratom interage com múltiplos receptores cerebrais, o que pode gerar efeitos tanto estimulantes quanto sedativos”, explica.

 Sintomas variam de leves a potencialmente fatais

Os efeitos do uso podem variar conforme a dose, a frequência e a associação com outras substâncias.

Sintomas mais comuns incluem:

  • Agitação
  • Taquicardia
  • Náuseas e vômitos
  • Sonolência
  • Confusão mental

Em casos mais graves, podem ocorrer:

  • Convulsões
  • Alucinações
  • Depressão respiratória
  • Coma

Especialistas alertam que sinais como dificuldade para respirar, alterações neurológicas e perda de consciência exigem atendimento médico imediato.

 Dependência e riscos do uso prolongado

Embora muitas vezes comercializado como produto “natural”, o kratom apresenta potencial de dependência, especialmente em uso contínuo ou em doses elevadas.

A interrupção pode provocar sintomas de abstinência, como:

  • Insônia
  • Dores musculares
  • Irritabilidade
  • Tremores
  • Alterações de humor

 Uso combinado aumenta riscos

Os dados indicam que os quadros mais graves e a maioria das mortes associadas envolvem o uso concomitante de outras substâncias, como álcool ou medicamentos.

Em 2025, cerca de 60% dos casos com múltiplas substâncias resultaram em consequências médicas graves, e aproximadamente metade exigiu hospitalização.

“O efeito combinado potencializa os danos ao organismo, especialmente ao fígado e ao sistema cardiovascular”, destaca Pulchinelli.

 Falta de controle e preocupação das autoridades

Nos Estados Unidos, o kratom é vendido em diferentes formas, como cápsulas, chás e extratos, muitas vezes sem padronização ou controle rigoroso de गुणवत्ता.

Agências como a FDA já alertaram para riscos associados ao consumo, incluindo contaminação e interações perigosas com outros medicamentos.

No Brasil, a substância não possui aprovação para uso medicinal pela Anvisa, o que reforça a necessidade de cautela.

 Alerta à população

Diante do aumento expressivo dos casos, especialistas defendem maior conscientização pública e acompanhamento científico mais rigoroso sobre os efeitos do kratom.

“Estamos vendo um crescimento relevante no uso desses produtos. É fundamental alertar a população sobre os riscos envolvidos”, afirmou Holstege.

O avanço das intoxicações por kratom nos Estados Unidos reforça um alerta global sobre o consumo de substâncias consideradas “naturais”, mas que podem apresentar riscos significativos à saúde — sobretudo quando utilizadas sem orientação ou em combinação com outras drogas.

Enquanto o debate científico avança, autoridades de saúde recomendam cautela e maior vigilância sobre o uso e a comercialização desses produtos.

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