Ultraprocessados já representam 80% do sódio consumido nas Américas e preocupam autoridades de saúde

Organização Pan-Americana da Saúde alerta para avanço dos alimentos industrializados e denuncia pressão da indústria contra políticas de redução do sal
Por Paloma de Sá |GNEWSUSA

O consumo excessivo de alimentos ultraprocessados está impulsionando uma crise silenciosa de saúde pública nas Américas. Segundo representantes da Organização Pan-Americana da Saúde, cerca de 80% do sódio ingerido pela população da região já vem de produtos industrializados, como refeições congeladas, embutidos, salgadinhos, macarrão instantâneo, temperos prontos e bebidas processadas.

O alerta foi reforçado durante a Semana de Conscientização sobre o Sal, encerrada neste domingo, em meio ao crescimento dos índices de hipertensão, doenças cardiovasculares e acidentes vasculares cerebrais em diversos países do continente.

Especialistas afirmam que o excesso de sódio na alimentação se tornou um dos principais fatores de risco para mortes prematuras relacionadas a problemas cardíacos e renais.

Hipertensão muitas vezes não apresenta sintomas

Em entrevista à ONU News, a presidente do Departamento de Hipertensão da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Erika Campana, explicou que o excesso de sal faz o organismo reter líquidos, elevando a pressão arterial e sobrecarregando órgãos essenciais.

Segundo a cardiologista, o impacto não se limita ao coração.

“O excesso de sal aumenta a pressão arterial e sobrecarrega o coração, os vasos sanguíneos, os rins e até o cérebro. Com o tempo, isso pode elevar o risco de infarto, AVC, insuficiência cardíaca e doença renal”, explicou.

Ela também alertou para o fato de que a hipertensão costuma evoluir silenciosamente.

“Muitas vezes a pressão alta não apresenta sintomas. A pessoa pode estar hipertensa sem perceber”, destacou.

Alimentos industrializados lideram consumo de sódio

Embora muitas pessoas associem o excesso de sal ao hábito de adicionar tempero à comida pronta, especialistas afirmam que o maior problema está escondido nos produtos industrializados.

De acordo com a Opas, alimentos ultraprocessados concentram quantidades elevadas de sódio, frequentemente imperceptíveis ao consumidor.

Entre os produtos mais associados ao consumo excessivo estão:

  • embutidos, como salsicha, presunto e mortadela;

  • macarrão instantâneo;

  • refeições congeladas;

  • salgadinhos industrializados;

  • temperos artificiais;

  • refrigerantes e bebidas processadas;

  • biscoitos recheados e snacks ultraprocessados.

O assessor em Nutrição e Atividade Física da Opas, Fabio da Silva Gomes, afirmou que o aumento do consumo desses alimentos está diretamente ligado ao crescimento das doenças crônicas na região.

OMS recomenda limite diário de uma colher de chá

A Organização Mundial da Saúde recomenda que adultos consumam no máximo 2.000 miligramas de sódio por dia — quantidade equivalente a cerca de uma colher de chá de sal.

No entanto, autoridades de saúde afirmam que a média de consumo em vários países das Américas permanece muito acima do recomendado.

O sódio é um nutriente essencial para o funcionamento do organismo, mas em excesso aumenta significativamente o risco de hipertensão, derrames, doenças cardiovasculares e morte precoce.

Pressão da indústria preocupa autoridades

Segundo a Opas, um dos principais desafios para reduzir o consumo de sódio é a resistência da indústria alimentícia.

Fabio Gomes afirmou que empresas do setor frequentemente tentam atrasar, enfraquecer ou judicializar medidas regulatórias voltadas à redução do sal nos alimentos industrializados.

Entre as principais políticas defendidas pelos especialistas estão:

  • rótulos frontais de advertência nas embalagens;
  • restrição da publicidade de ultraprocessados;
  • redução gradual do teor de sódio nos produtos;
  • controle da venda desses alimentos em escolas;
  • campanhas públicas de conscientização alimentar.

Para os especialistas, os rótulos frontais são fundamentais para permitir que consumidores identifiquem rapidamente produtos com excesso de sódio, açúcar e gordura.

Trocar o tipo de sal não resolve o problema

Especialistas também alertam que substituir o sal refinado por versões como sal rosa ou sal marinho não elimina os riscos à saúde.

Apesar de conterem pequenas quantidades de minerais adicionais, esses produtos continuam sendo predominantemente compostos por cloreto de sódio e devem ser consumidos com moderação.

Países já começam a adotar regulações

Países como Argentina, México e Colômbia já implementaram políticas de controle e rotulagem de alimentos industrializados.

Segundo a Opas, estudos iniciais nesses países mostram redução na compra de produtos ricos em sódio após a adoção de advertências frontais nas embalagens.

A organização mantém alinhamento com a meta global da OMS de reduzir em 30% o consumo de sal pela população mundial nos próximos anos.

Especialistas afirmam que a combinação entre informação nutricional clara, políticas públicas e mudanças nos hábitos alimentares será decisiva para conter o avanço das doenças cardiovasculares nas Américas.

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