Conhecida como Síndrome Antifosfolípide (SAF), a condição pode permanecer sem diagnóstico por anos. Especialistas alertam que a identificação precoce reduz significativamente o risco de perdas gestacionais, tromboses e outras complicações potencialmente fatais
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Uma doença autoimune ainda pouco conhecida pelo público pode estar por trás de abortos espontâneos recorrentes, tromboses graves e outras complicações obstétricas e cardiovasculares. A Síndrome Antifosfolípide (SAF) é caracterizada pela produção de anticorpos que aumentam a tendência do sangue à coagulação, comprometendo a circulação e colocando em risco tanto a gestação quanto a saúde geral do paciente. Apesar de atingir principalmente mulheres em idade fértil, a doença também pode afetar homens e pessoas de qualquer faixa etária. Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, especialistas afirmam que cerca de 80% a 90% das mulheres conseguem levar a gravidez até o nascimento de um bebê saudável.
O que é a Síndrome Antifosfolípide
A Síndrome Antifosfolípide é uma doença autoimune na qual o sistema imunológico produz anticorpos que atacam proteínas ligadas aos fosfolipídios das células do organismo. Como consequência, ocorre um aumento da coagulação sanguínea, favorecendo a formação de trombos em veias e artérias.
Os principais anticorpos envolvidos são:
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anticoagulante lúpico;
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anticardiolipina;
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anti-beta-2 glicoproteína I.
Embora esses anticorpos possam estar presentes em pessoas saudáveis, o diagnóstico da SAF exige a associação entre exames laboratoriais positivos e manifestações clínicas características, conforme os critérios internacionais estabelecidos por especialistas. Estima-se que entre 1% e 5% da população apresente anticorpos antifosfolípides, mas apenas uma parcela desenvolverá a síndrome clínica. As estimativas variam conforme a população estudada. Sociedade Brasileira de Reumatologia
Gravidez é um dos períodos de maior risco
Durante a gestação, a formação de pequenos coágulos na placenta pode reduzir o fluxo de sangue para o bebê, provocando diversas complicações.
Entre elas estão:
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abortos espontâneos recorrentes;
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morte fetal;
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pré-eclâmpsia;
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restrição do crescimento fetal;
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parto prematuro;
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insuficiência placentária.
Especialistas explicam que muitas mulheres descobrem a doença somente após sofrerem duas ou mais perdas gestacionais ou desenvolverem uma trombose sem causa aparente.
Segundo recomendações internacionais, mulheres com histórico de perdas repetidas devem ser avaliadas para investigação da síndrome, especialmente quando não há outra explicação clínica.
Tratamento aumenta significativamente as chances de sucesso
A boa notícia é que a SAF possui tratamento eficaz.
Nas gestantes, o protocolo mais utilizado combina:
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ácido acetilsalicílico (AAS) em baixa dose;
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heparina de baixo peso molecular durante toda a gestação;
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acompanhamento conjunto entre obstetra especializado em gestação de alto risco, reumatologista e hematologista.
Diversos estudos demonstram que essa estratégia permite que aproximadamente 70% a 90% das gestantes com SAF tenham uma gravidez bem-sucedida, percentual que pode variar conforme o perfil clínico da paciente e a presença de outras doenças. O tratamento deve ser individualizado e conduzido por equipe médica especializada. American College of Rheumatology
A doença também pode provocar tromboses graves
Além das complicações obstétricas, a Síndrome Antifosfolípide está entre as causas de trombose em adultos jovens.
Os coágulos podem surgir em diferentes regiões do organismo, provocando:
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trombose venosa profunda;
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embolia pulmonar;
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acidente vascular cerebral (AVC);
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infarto do miocárdio;
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trombose arterial;
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comprometimento dos rins e outros órgãos.
Em casos extremamente raros, pode ocorrer a chamada Síndrome Antifosfolípide Catastrófica, caracterizada por tromboses simultâneas em vários órgãos, uma emergência médica com elevada taxa de mortalidade.
Sintomas nem sempre chamam atenção
Em muitos pacientes, a doença permanece silenciosa até o surgimento da primeira complicação.
Quando aparecem, os sinais podem incluir:
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inchaço e dor em uma das pernas;
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falta de ar súbita;
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alterações neurológicas;
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manchas arroxeadas na pele (livedo reticular);
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abortos repetidos;
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parto prematuro sem causa aparente.
Por isso, especialistas reforçam que mulheres com histórico de perdas gestacionais recorrentes ou pessoas que sofreram trombose antes dos 50 anos, especialmente sem fatores de risco conhecidos, devem conversar com um médico sobre a possibilidade de investigação.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico depende da combinação de critérios clínicos e laboratoriais.
Os exames detectam a presença dos anticorpos antifosfolípides em duas coletas realizadas com intervalo mínimo de 12 semanas, evitando resultados falsamente positivos decorrentes de infecções transitórias.
A confirmação precoce permite iniciar medidas preventivas para reduzir o risco de novos eventos trombóticos e aumentar as chances de uma gestação segura.
A importância do acompanhamento especializado
Médicos destacam que, embora a Síndrome Antifosfolípide não tenha cura, ela pode ser controlada de forma eficaz. O tratamento contínuo, o acompanhamento multidisciplinar e o controle dos fatores de risco cardiovascular são fundamentais para melhorar a qualidade de vida e prevenir complicações.
Para mulheres que desejam engravidar, o planejamento da gestação antes da concepção e o início precoce do tratamento representam um dos principais fatores para o sucesso da gravidez.
Nota editorial: O percentual de sucesso gestacional de “até 90%” refere-se a pacientes corretamente diagnosticadas e tratadas conforme protocolos médicos atuais. Os resultados podem variar de acordo com a gravidade da doença, doenças associadas e adesão ao tratamento.
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