Vacinação durante a gestação pode estimular a produção de anticorpos que atravessam a placenta e oferecem proteção ao recém-nascido nos primeiros meses de vida
Por Paloma de Sá |GNEWSUSA
Antes mesmo de respirar pela primeira vez, o bebê já começa a receber uma importante proteção do sistema imunológico da mãe. Durante a gestação, determinados anticorpos maternos atravessam a placenta e chegam à circulação fetal, um processo que contribui para a defesa do recém-nascido em uma fase em que seu próprio sistema imunológico ainda está em desenvolvimento. Esse mecanismo também explica por que algumas vacinas indicadas durante a gravidez conseguem proteger não apenas a gestante, mas também o bebê após o nascimento.
O principal tipo de anticorpo envolvido nessa transferência é a imunoglobulina G, conhecida como IgG. Ela é transportada ativamente pela placenta por meio de um mecanismo que envolve o receptor neonatal Fc, chamado FcRn, presente nas células da placenta. A passagem aumenta ao longo da gravidez e é particularmente intensa no terceiro trimestre. Por isso, bebês prematuros podem receber uma quantidade menor de anticorpos maternos antes do nascimento.
Como a vacinação da mãe beneficia o bebê
Quando uma gestante recebe uma vacina indicada para esse período, seu sistema imunológico é estimulado a produzir anticorpos específicos contra determinados agentes infecciosos. Parte dessas imunoglobulinas pode posteriormente atravessar a placenta e chegar ao bebê. Assim, a criança pode nascer com anticorpos capazes de oferecer imunidade passiva, ou seja, uma proteção temporária que não foi produzida pelo próprio sistema imunológico do bebê.
Esse princípio é utilizado em estratégias de vacinação materna contra doenças que podem representar risco importante nos primeiros meses de vida. Entre os exemplos estão a coqueluche e a gripe, para as quais existem recomendações de vacinação durante a gestação em diferentes diretrizes de saúde. No caso da coqueluche, a transferência de anticorpos após a vacinação materna é especialmente relevante porque os bebês pequenos ainda não completaram o esquema próprio de vacinação e estão mais vulneráveis às formas graves da doença.
A proteção, no entanto, não significa que o bebê ficará permanentemente imune. Os anticorpos recebidos da mãe são gradualmente eliminados do organismo ao longo das semanas ou meses. Trata-se de uma proteção temporária, que funciona como uma espécie de escudo enquanto o sistema imunológico da criança amadurece e ela passa a desenvolver sua própria resposta às vacinas e às infecções.
O momento da vacinação pode fazer diferença
A quantidade de anticorpos que chega ao bebê depende de diversos fatores, entre eles a idade gestacional, os níveis de anticorpos da mãe, o tipo de imunoglobulina e as características da própria placenta. Estudos mostram que a transferência de IgG se torna mais eficiente conforme a gestação avança, com grande parte da passagem ocorrendo no terceiro trimestre.
Por esse motivo, algumas vacinas são recomendadas em períodos específicos da gravidez. As orientações, porém, não são iguais para todos os imunizantes e podem mudar conforme o país, o calendário de vacinação e as condições de saúde da gestante. Nos Estados Unidos, por exemplo, o CDC recomenda a vacina contra difteria, tétano e coqueluche (Tdap) durante cada gestação e também possui recomendações específicas para a vacinação contra influenza e vírus sincicial respiratório (VSR).
Uma proteção que começa antes do parto
A transferência de anticorpos pela placenta mostra que a proteção do bebê contra algumas doenças pode começar ainda durante a gestação. A vacinação materna, quando indicada por profissionais de saúde, atua em duas frentes: ajuda a proteger a própria gestante e pode fornecer ao bebê anticorpos capazes de reduzir o risco de determinadas infecções no início da vida.
Por isso, o acompanhamento pré-natal também é uma oportunidade para verificar a situação vacinal da gestante e identificar quais imunizantes são recomendados naquele período. A decisão sobre quais vacinas devem ser tomadas durante a gravidez deve ser feita com orientação de um profissional de saúde, considerando o histórico de vacinação, a idade gestacional e as condições individuais da mãe e do bebê.
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