Estudo aponta doença cerebral em ex-jogadores da NFL mortos entre 2016 e 2021

Pesquisa identificou encefalopatia traumática crônica em 215 dos 878 atletas analisados, mas especialistas afirmam que o percentual pode ser ainda maior
Por Schirley Passos|GNEWSUSA

Um estudo publicado pela revista científica British Medical Journal (BMJ) aponta que pelo menos 24,5% dos jogadores que atuaram na NFL e morreram entre 2016 e 2021 apresentavam sinais de encefalopatia traumática crônica (ETC), uma doença neurodegenerativa associada a impactos repetitivos na cabeça.

A pesquisa analisou 878 atletas que disputaram pelo menos uma partida oficial da liga e morreram durante o período estudado. Desse total, 215 tiveram a ETC identificada após exames em seus cérebros.

O percentual, no entanto, pode ser significativamente maior. Dos 878 jogadores mortos, 643 não tiveram o cérebro examinado, o que impede determinar com precisão a quantidade de casos da doença entre todos os atletas.

Estimativa pode chegar a 97%

A ETC só pode ser diagnosticada de forma definitiva após a morte, por meio da análise do tecido cerebral. Por esse motivo, pesquisas sobre a doença dependem, em grande parte, da doação dos cérebros de jogadores falecidos por familiares.

Segundo o médico Daniel Daneshvar, um dos responsáveis pelo estudo, a taxa de 24,5% deve ser considerada uma estimativa baixa. De acordo com os cálculos apresentados pela pesquisa, a prevalência máxima possível entre os atletas analisados poderia chegar a aproximadamente 97%.

Daneshvar, porém, ressaltou que a taxa real provavelmente está entre esses dois extremos. O BMJ pretende realizar um novo estudo nos próximos meses para tentar calcular com maior precisão a prevalência da ETC entre jogadores da NFL no momento de suas mortes.

“Nós sabemos o que está causando isso. É uma doença neurodegenerativa na qual conhecemos e temos controle completo sobre o risco. Entender a extensão desse risco é um dos passos para garantir que possamos mitigá-lo e diminuí-lo”, afirmou Daneshvar.

Doença está ligada a impactos repetidos na cabeça

A encefalopatia traumática crônica é uma doença degenerativa que pode provocar diferentes alterações neurológicas e comportamentais. Entre os possíveis sintomas estão perda de memória, depressão e mudanças repentinas de humor.

Para Daneshvar, medidas preventivas poderiam reduzir o risco de desenvolvimento da doença sem necessariamente alterar a essência do futebol americano profissional.

O pesquisador defende, por exemplo, impedir que crianças participem de modalidades com tackles, como a praticada na NFL, além de reduzir ou eliminar os contatos físicos durante os treinamentos.

NFL afirma trabalhar para tornar o esporte mais seguro

Após a divulgação do estudo, a NFL afirmou que trabalha continuamente para reduzir os riscos relacionados aos impactos na cabeça e às concussões.

Em comunicado, a liga declarou que busca tornar o futebol americano mais seguro por meio da implementação de estratégias destinadas a diminuir concussões e impactos na cabeça. A entidade também destacou o compromisso de ampliar os recursos voltados ao bem-estar físico e mental de jogadores atuais e aposentados.

Na mesma semana da publicação da pesquisa, a NFL e a Associação de Jogadores da NFL (NFLPA) anunciaram a criação da Rede de Saúde Comportamental (BHN, na sigla em inglês).

A iniciativa tem como objetivo ampliar o acesso de atletas em atividade e aposentados a serviços de saúde mental. O programa prevê cobertura integral dos custos, sem cobrança de coparticipação.

NFLPA pede novas medidas

A NFLPA também se manifestou sobre os resultados do levantamento e classificou a pesquisa como um alerta para os riscos associados ao futebol americano.

A associação afirmou que o estudo reforça a necessidade de reconhecer que a modalidade apresenta riscos reais, que podem provocar consequências permanentes para jogadores e suas famílias.

Para a entidade, os resultados devem servir como um chamado para todo o ecossistema do futebol americano, com investimentos em pesquisas, ampliação do acesso ao atendimento médico, desenvolvimento de tratamentos e suporte às pessoas afetadas pelas consequências de longo prazo dos impactos sofridos durante a prática do esporte.

Casos anteriores chamaram atenção para a ETC

A relação entre o futebol americano e doenças cerebrais já é investigada há anos. Um dos casos que ganharam destaque foi o do ex-linebacker Junior Seau, que morreu em 2012 e teve o cérebro doado para pesquisas sobre encefalopatia traumática crônica.

A nova pesquisa amplia o debate sobre os efeitos dos impactos repetitivos na cabeça e reforça a preocupação com a saúde dos atletas, principalmente diante da dificuldade de diagnosticar a ETC enquanto a pessoa está viva.

Com a maior quantidade de cérebros disponíveis para análise e novas pesquisas em desenvolvimento, os pesquisadores esperam obter uma estimativa mais precisa sobre a dimensão da doença entre jogadores profissionais de futebol americano.

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