Pesquisa com 16,8 mil adultos sem histórico de infarto ou AVC encontrou aterosclerose silenciosa em jovens e mostrou que o acúmulo de placas aumenta rapidamente com a idade
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Uma doença que durante décadas foi associada principalmente ao envelhecimento pode começar muito antes do que se imaginava. Um estudo internacional com 16.808 adultos de 18 a 70 anos, todos sem histórico conhecido de doença cardiovascular, identificou sinais de aterosclerose já entre pessoas na faixa dos 20 anos. Entre os participantes de 18 a 29 anos, 8,7% dos homens e 6,7% das mulheres apresentavam placas nas artérias. Com o avanço da idade, a ocorrência aumentou de forma acelerada, chegando a cerca de nove em cada dez pessoas entre 60 e 70 anos.
A pesquisa, denominada REACT, foi realizada na Dinamarca e na Espanha e teve seus resultados publicados em 29 de agosto de 2026 no New England Journal of Medicine. O trabalho também foi apresentado no Congresso Europeu de Cardiologia, em Munique, na Alemanha.
O estudo chama atenção principalmente porque os participantes não tinham diagnóstico conhecido de doença cardiovascular. Os pesquisadores utilizaram exames de imagem para procurar sinais da doença antes que ela provocasse manifestações clínicas.
Ao todo, foram examinadas as artérias carótidas, localizadas no pescoço, as artérias femorais, nas pernas, e as coronárias, responsáveis por levar sangue ao músculo do coração. Para isso, foram utilizados ultrassom vascular tridimensional e angiotomografia computadorizada das coronárias.
Doença começa silenciosamente
A aterosclerose ocorre quando placas se acumulam na parede interna das artérias. Essas placas podem conter colesterol, gordura e componentes inflamatórios e, com o passar do tempo, contribuir para o estreitamento ou instabilidade dos vasos sanguíneos.
O problema é que o processo pode avançar durante anos sem provocar sintomas.
Os resultados do REACT mostram que a aterosclerose silenciosa estava presente em 57,1% de todos os participantes avaliados. Entre os adultos mais jovens, porém, a frequência ainda era relativamente baixa: 8,7% dos homens e 6,7% das mulheres de 18 a 29 anos apresentavam a doença.
Isso significa que aproximadamente uma em cada 13 pessoas nessa faixa etária apresentava algum sinal de aterosclerose detectável pelos exames utilizados na pesquisa.
A partir dos 30 anos, a ocorrência aumenta progressivamente. O estudo constatou que a quantidade de placas também cresce com a idade e que, nas faixas etárias mais avançadas, é mais comum encontrar comprometimento de diferentes regiões das artérias.
Entre 60 e 70 anos, a doença já estava presente em aproximadamente nove de cada dez participantes, de acordo com os resultados divulgados pela Sociedade Europeia de Cardiologia.
As placas não surgem apenas no coração
Um dos pontos importantes da pesquisa foi a distribuição das placas pelo sistema arterial.
Nos participantes mais jovens, a aterosclerose aparecia principalmente em regiões periféricas e, com frequência, estava limitada a um único território vascular. Conforme a idade avançava, entretanto, aumentava o volume das placas e também a quantidade de regiões afetadas.
O estudo também mostrou que a presença de aterosclerose exclusivamente nas artérias coronárias era relativamente incomum. Isso significa que identificar alterações nas artérias do pescoço ou das pernas pode fornecer informações importantes sobre a existência de um processo aterosclerótico mais amplo.
Segundo os pesquisadores, a maioria das pessoas que apresentavam aterosclerose nas coronárias também possuía sinais da doença nas artérias carótidas ou femorais.
O que faz a placa aparecer?
A formação da aterosclerose é resultado de vários fatores. O colesterol LDL elevado, conhecido popularmente como “colesterol ruim”, tem papel importante no processo, mas não é o único elemento envolvido.
Hipertensão arterial, diabetes, obesidade, sedentarismo e tabagismo estão entre os fatores associados ao aumento do risco cardiovascular.
O cigarro merece atenção especial porque as substâncias presentes na fumaça podem provocar danos à parede dos vasos e favorecer o processo inflamatório que participa da formação das placas.
A predisposição genética também pode influenciar a forma como cada organismo metaboliza o colesterol e responde aos fatores de risco.
Por isso, duas pessoas com hábitos semelhantes podem apresentar riscos cardiovasculares diferentes.
Homens desenvolvem alterações mais cedo
Outro resultado importante do estudo está relacionado à diferença entre homens e mulheres.
A aterosclerose foi identificada mais cedo entre os homens. Nas mulheres, o crescimento da prevalência ocorreu posteriormente e apresentou uma elevação mais acentuada durante a meia-idade.
Os dados são compatíveis com o padrão já observado na epidemiologia cardiovascular: as mulheres tendem a apresentar o aumento mais expressivo do risco cardiovascular em idades mais avançadas.
O estudo, porém, reforça que essa diferença não significa que mulheres jovens estejam livres do problema. Mesmo entre as participantes de 18 a 29 anos, 6,7% apresentavam aterosclerose silenciosa.
Ter placa aos 20 anos significa que a pessoa terá um infarto?
Não.
A identificação de uma placa em uma pessoa jovem não significa que ela esteja prestes a sofrer um infarto. A principal mensagem do estudo está relacionada ao desenvolvimento gradual da doença e à necessidade de prevenção.
A aterosclerose pode permanecer silenciosa por muitos anos. O risco cardiovascular depende de diversos fatores, incluindo a quantidade e a localização das placas, colesterol, pressão arterial, diabetes, tabagismo, histórico familiar e outros elementos.
Por isso, o resultado não deve ser interpretado como uma previsão individual de infarto.
O próprio estudo não propõe que todos os jovens sejam submetidos indiscriminadamente a exames de imagem. A pesquisa teve como objetivo compreender a distribuição da aterosclerose ao longo da vida adulta e melhorar o conhecimento sobre o início da doença.
A prevenção começa antes dos sintomas
A principal consequência prática dos resultados é reforçar a importância da prevenção cardiovascular antes do aparecimento de sintomas.
Controlar o colesterol, manter a pressão arterial em níveis adequados, praticar atividade física regularmente, evitar o cigarro, controlar o peso e manter uma alimentação equilibrada são medidas importantes para reduzir o risco cardiovascular.
A lógica é simples: como a aterosclerose pode começar silenciosamente e evoluir durante décadas, esperar o primeiro sintoma para agir pode significar perder uma oportunidade importante de prevenção.
O estudo reforça justamente essa mudança de perspectiva: a saúde cardiovascular não deve ser tratada apenas quando aparecem dores no peito, falta de ar ou outros sinais de doença.
O que os resultados significam para o Brasil?
É preciso ter cautela antes de aplicar diretamente os números da pesquisa à população brasileira.
O estudo foi realizado na Dinamarca e na Espanha, com participantes dessas populações. Portanto, não é possível afirmar que exatamente os mesmos percentuais encontrados pelos pesquisadores se repetem no Brasil.
Ainda assim, os resultados têm relevância para a prevenção cardiovascular porque mostram que a aterosclerose pode estar presente muito antes do surgimento de doenças cardiovasculares diagnosticadas.
A pesquisa também reforça a necessidade de identificar fatores de risco precocemente, especialmente colesterol elevado, hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo e sedentarismo.
Um alerta que começa antes dos 30
O principal recado do estudo não é que jovens devam viver com medo de sofrer um infarto. É que o processo que pode levar às principais doenças cardiovasculares começa muito antes de elas serem percebidas.
Entre 18 e 29 anos, aproximadamente uma em cada 13 pessoas examinadas já apresentava sinais de aterosclerose. Décadas depois, a presença da doença se tornava muito mais comum, acompanhada pelo aumento do volume das placas e pelo comprometimento de diferentes artérias.
A descoberta muda o momento da conversa sobre prevenção. Em vez de esperar que o coração dê um sinal de alerta, a estratégia mais eficaz continua sendo identificar e controlar os fatores de risco antes que a doença avance.
Jornal GNewsUSA — BRAZILIANS AROUND THE WORLD
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