Vorcaro delatou mesada de R$ 1 milhão em espécie para grupo ligado ao ex-líder do governo Lula

Arte CNN: Foto 1 - Reprodução | Foto 2: Carlos Moura/Agência Senado
Suposto pagamento a aliados de Jaques Wagner consta de proposta de colaboração premiada rejeitada pela PF e pela PGR por falta de elementos suficientes de corroboração
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, relatou em uma proposta de colaboração premiada que um grupo ligado ao senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo Luiz Inácio Lula da Silva no Senado, teria recebido uma espécie de mesada de R$ 1 milhão em dinheiro vivo.

O relato faz parte de uma proposta de delação que foi rejeitada pela Polícia Federal (PF) e pela Procuradoria-Geral da República (PGR). As autoridades entenderam que as informações apresentadas não estavam acompanhadas de elementos suficientes de corroboração.

Por isso, as acusações apresentadas por Vorcaro não podem ser tratadas como fatos comprovados. Elas fazem parte de um documento produzido durante uma tentativa de negociação de colaboração premiada que não foi aceita pelas autoridades.

Segundo informações divulgadas pelo UOL e posteriormente repercutidas pela CNN Brasil, o suposto pagamento estaria relacionado a uma estrutura envolvendo o Banco Master, a empresa PKL One e o Credcesta, cartão de crédito consignado destinado a servidores públicos da Bahia.

Supostos pagamentos chegariam a R$ 3 milhões por mês

De acordo com o relato atribuído a Vorcaro, os pagamentos destinados ao grupo ligado a Wagner poderiam chegar a R$ 3 milhões por mês.

Uma parcela de aproximadamente R$ 2 milhões estaria relacionada a contratos envolvendo o Master e a PKL One. Outra parcela, de R$ 1 milhão, teria sido entregue mensalmente em espécie.

Segundo a proposta, o pagamento em dinheiro teria ocorrido até a liquidação do Banco Master, em novembro de 2025.

O ex-banqueiro, entretanto, afirmou que não teria presenciado diretamente o acerto dos pagamentos. As informações sobre a suposta estrutura teriam sido repassadas a ele por Augusto Lima, seu ex-sócio e empresário ligado à operação do Credcesta.

Essa circunstância é importante para a compreensão do caso, já que parte relevante da acusação teria origem em informações de terceiros, e não em fatos presenciados diretamente pelo próprio Vorcaro.

Relação com o Credcesta

O suposto esquema descrito na proposta de delação estaria relacionado ao Credcesta, cartão de crédito consignado voltado a servidores públicos da Bahia.

A operação tem origem na Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), estatal responsável pela rede Cesta do Povo.

Em 2018, a Ebal foi privatizada. A NGV Empreendimentos e Participações, ligada a Augusto Lima, venceu o leilão por aproximadamente R$ 15 milhões.

Posteriormente, a operação do Credcesta ganhou espaço no mercado de crédito consignado para servidores públicos estaduais.

Documentos analisados pelo Senado Federal registram a trajetória da privatização e a posterior expansão do Credcesta, além da participação de Augusto Lima na estrutura empresarial que envolvia o negócio.

Na época da privatização, Jaques Wagner era secretário do Desenvolvimento Econômico da Bahia, durante o governo de Rui Costa.

Vorcaro cita suposta participação de Wagner

Na proposta de colaboração, Vorcaro teria afirmado que Wagner possuía uma participação oculta na operação que teria favorecido uma empresa ligada a Augusto Lima.

O relato também menciona supostos benefícios distribuídos ao grupo por meio de lucros, dividendos e contratos.

Entre os contratos citados estaria um envolvendo uma pessoa indicada por Wagner, além de uma empresa offshore relacionada à filha do senador.

Entretanto, os detalhes dessas alegações não foram integralmente disponibilizados nos documentos divulgados publicamente.

De acordo com informações publicadas pelo UOL, parte dos dados estaria em anexos aos quais o veículo não teve acesso. Isso inclui informações que poderiam permitir uma análise mais precisa sobre valores, datas, empresas e beneficiários.

Dessa forma, essas afirmações também devem ser tratadas como alegações ainda não comprovadas.

PF e PGR rejeitaram a delação

A proposta apresentada por Daniel Vorcaro não resultou em um acordo de colaboração premiada.

A Polícia Federal rejeitou as propostas apresentadas pelo ex-banqueiro, avaliando que as informações fornecidas não apresentavam elementos novos ou suficientes para justificar a celebração do acordo.

Em junho, uma segunda proposta também foi rejeitada.

A PGR posteriormente analisou o material e igualmente decidiu não aceitar a colaboração. Entre os motivos apontados estava a ausência de elementos suficientes para corroborar as declarações apresentadas.

Em outras palavras, Vorcaro apresentou informações e acusações durante uma tentativa de obter um acordo de colaboração, mas não conseguiu transformar esses relatos em uma delação premiada homologada pela Justiça.

O que significa uma delação rejeitada?

A diferença é importante.

Uma colaboração premiada envolve um acordo entre o investigado e as autoridades, no qual o colaborador fornece informações, documentos ou outros elementos relevantes em troca de benefícios previstos em lei.

Para que as informações tenham peso investigativo maior, elas precisam ser acompanhadas de elementos de corroboração independentes.

No caso de Vorcaro, PF e PGR entenderam que os elementos apresentados não eram suficientes para justificar a aceitação da colaboração.

Isso não significa automaticamente que todas as informações sejam falsas. Significa que, até aquele momento, as autoridades não consideraram haver elementos suficientes para celebrar o acordo.

Eventuais documentos, mensagens, registros financeiros ou depoimentos independentes podem ser analisados separadamente no decorrer das investigações.

Jaques Wagner já era alvo de investigação

As acusações aparecem em um momento no qual Jaques Wagner já estava sendo investigado no contexto da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas relacionadas ao Banco Master.

O senador foi alvo de medidas da Polícia Federal em junho de 2026.

As investigações analisam possíveis relações entre integrantes do grupo Master e agentes políticos, além de possíveis vantagens econômicas e articulações relacionadas ao banco.

Após ser alvo da operação, Wagner deixou a liderança do governo Lula no Senado, em junho deste ano.

Na ocasião, o senador afirmou que sua saída da liderança ocorreu em comum acordo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e disse que sua prioridade seria se dedicar à defesa diante das investigações.

Wagner nega as acusações

A defesa de Jaques Wagner nega as acusações apresentadas por Vorcaro.

Segundo manifestação divulgada pelo UOL, os advogados classificaram as declarações como falsas e oportunistas.

A defesa também afirmou que o senador não tem conhecimento de contratos fictícios envolvendo a PKL One e negou qualquer participação em esquema de recebimento de valores.

Wagner já havia negado anteriormente ter recebido dinheiro do Banco Master ou de Augusto Lima.

O senador também afirmou que não cometeu irregularidades e que pretende demonstrar sua inocência no decorrer das investigações.

Augusto Lima também aparece no relato

O empresário Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, ocupa papel central no relato apresentado pelo banqueiro.

Foi Lima quem, segundo Vorcaro, teria repassado informações sobre a suposta estrutura de pagamentos.

Lima também foi alvo da Operação Compliance Zero e chegou a ser preso preventivamente.

Posteriormente, ele foi solto por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), permanecendo submetido a medidas cautelares.

A defesa do empresário também contesta as acusações.

Supostos contratos fictícios

Outro ponto citado na proposta de colaboração é a existência de contratos que Vorcaro teria classificado como fictícios.

Segundo o relato, esses contratos seriam utilizados para distribuir recursos a pessoas indicadas por integrantes do grupo político.

A proposta também menciona distribuição de lucros e dividendos.

No entanto, como a colaboração não foi aceita e os documentos de comprovação não foram apresentados publicamente em sua totalidade, não é possível afirmar que esses contratos tenham sido efetivamente fictícios ou que tenham servido para pagamentos ilícitos.

Esses pontos dependem de comprovação documental e do avanço das investigações.

O papel da privatização da Ebal

A privatização da Ebal em 2018 é um dos elementos que ajudam a entender a origem do negócio.

A empresa estatal administrava a rede Cesta do Povo, que atuava no comércio de alimentos na Bahia.

Após a privatização, a operação relacionada ao Credcesta passou a ganhar importância no mercado de crédito consignado para servidores estaduais.

Relatório produzido no Senado Federal registra que a Ebal foi vendida por aproximadamente R$ 15 milhões e que alterações posteriores ampliaram as possibilidades de utilização do Credcesta como instrumento de crédito.

O fato de Wagner ocupar cargo na área de Desenvolvimento Econômico naquele período passou a ser considerado relevante dentro das investigações posteriores.

Isso, contudo, não comprova por si só qualquer participação ilícita do senador.

Investigação continua

A investigação envolvendo o Banco Master permanece em andamento.

O caso envolve suspeitas relacionadas a operações financeiras, contratos, movimentações empresariais e possíveis relações entre integrantes do setor privado e agentes públicos.

As informações apresentadas por Daniel Vorcaro fazem parte desse contexto, mas a rejeição da delação pela PF e pela PGR estabelece uma diferença importante entre o conteúdo de uma proposta de colaboração e uma acusação comprovada judicialmente.

Para que as declarações sobre os supostos pagamentos de R$ 1 milhão em espécie sejam confirmadas, seria necessário que investigadores encontrassem elementos independentes capazes de demonstrar a existência dos pagamentos, identificar sua origem e destino e estabelecer eventual relação com atos ilícitos.

Até o momento, esses pontos permanecem sob investigação.

A investigação poderá avançar caso as autoridades encontrem documentos, registros financeiros, mensagens ou outros depoimentos que confirmem ou contradigam as declarações apresentadas pelo ex-banqueiro.

Por enquanto, a acusação sobre a suposta mesada de R$ 1 milhão em espécie permanece como uma alegação apresentada em uma proposta de delação rejeitada, e não como uma conclusão definitiva da Polícia Federal, da PGR ou da Justiça.

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