Análise conduzida por pesquisadores ligados ao CDC mostra que a vacinação continuou associada a menor risco de atendimento médico, hospitalização e doença crítica, mesmo anos após o início da pandemia
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Mesmo com a Covid-19 tendo deixado de ocupar o mesmo espaço que tinha nos primeiros anos da pandemia, o vírus continua provocando hospitalizações e complicações, principalmente entre pessoas mais vulneráveis. Um novo conjunto de dados produzido por pesquisadores nos Estados Unidos reforça que as vacinas atualizadas continuam oferecendo proteção adicional contra as formas mais graves da doença, reduzindo a probabilidade de que adultos precisem procurar atendimento médico ou sejam internados.
Em uma análise envolvendo centenas de milhares de atendimentos e hospitalizações nos Estados Unidos, pesquisadores encontraram associação entre a vacinação atualizada e uma menor ocorrência de desfechos relacionados à Covid-19. Os resultados mostram que a proteção não desapareceu com a evolução do vírus nem com o fato de grande parte da população já ter sido vacinada ou infectada anteriormente.
Os números ajudam a explicar uma questão que se tornou cada vez mais importante na fase atual da pandemia: a função das vacinas mudou de impedir completamente a infecção para reduzir principalmente o risco de doença grave, hospitalização e outras complicações.
Vacina atualizada reduziu atendimentos e hospitalizações
Um dos estudos analisados por pesquisadores do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) avaliou adultos atendidos em serviços de emergência e unidades de atendimento de urgência, além de pacientes hospitalizados.
Na análise referente à vacina de 2024–2025, adultos imunocompetentes que haviam recebido a formulação atualizada apresentaram:
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26% menos probabilidade de atendimento em emergência ou urgência por Covid-19;
-
35% menos probabilidade de hospitalização associada à doença;
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41% menos probabilidade de doença crítica relacionada à Covid-19.
O estudo acompanhou dados de aproximadamente 431 mil atendimentos e hospitalizações em mais de 380 unidades de emergência e atendimento de urgência distribuídas por seis estados americanos, entre setembro de 2024 e setembro de 2025.
Os resultados são particularmente relevantes porque não representam uma comparação simples entre pessoas completamente sem contato prévio com o coronavírus e pessoas vacinadas.
A população estudada já apresentava diferentes níveis de imunidade adquirida por vacinação e infecções anteriores. Portanto, os pesquisadores estavam tentando medir algo mais específico: quanto de proteção adicional a vacina atualizada ainda poderia oferecer em uma população que já tinha alguma imunidade contra o vírus.
E a resposta encontrada foi positiva.
Proteção não significa que a pessoa não terá Covid
Um ponto importante para interpretar os resultados é que a vacina não deve ser apresentada como uma barreira absoluta contra a infecção.
A Covid-19 evoluiu desde os primeiros anos da pandemia. O vírus continua sofrendo mutações e novas variantes conseguem escapar parcialmente de parte da imunidade adquirida anteriormente.
Por isso, uma pessoa vacinada ainda pode contrair o coronavírus e apresentar sintomas.
O principal benefício observado nos estudos mais recentes está relacionado à redução da probabilidade de desfechos mais graves.
Essa distinção é fundamental.
Uma vacina pode não impedir todas as infecções, mas ainda assim reduzir significativamente o risco de uma pessoa precisar ser internada ou desenvolver uma complicação grave.
É justamente esse tipo de proteção que os dados recentes ajudam a demonstrar.
A proteção é maior pouco tempo depois da vacinação
Outro aspecto importante encontrado pelos pesquisadores é que a proteção oferecida pela vacina atualizada não permanece constante indefinidamente.
Na análise da temporada 2024–2025, a efetividade foi maior nos primeiros meses após a vacinação e diminuiu com o passar do tempo. Para atendimentos em emergência e urgência, por exemplo, a proteção estimada caiu de 38% entre sete e 59 dias após a vacinação para 11% entre 180 e 299 dias.
Esse fenômeno não é exclusivo da Covid-19.
O sistema imunológico pode apresentar uma redução gradual da resposta ao longo do tempo, enquanto o próprio vírus também continua evoluindo.
É por isso que as formulações das vacinas contra Covid-19 são periodicamente atualizadas para acompanhar as variantes que estão circulando.
Dados da temporada 2025–2026 também apontam proteção
Outro conjunto de dados do programa VISION, conduzido com participação do CDC, avaliou a vacina da temporada 2025–2026.
Nesse estudo, pesquisadores analisaram adultos imunocompetentes que apresentavam sintomas semelhantes aos da Covid e haviam sido testados para SARS-CoV-2.
Foram avaliados 85.725 atendimentos em serviços de emergência ou urgência e 26.073 hospitalizações, com dados coletados entre setembro e dezembro de 2025.
A efetividade estimada da vacina foi de:
50% contra atendimentos em emergência ou urgência relacionados à Covid-19.
55% contra hospitalização relacionada à Covid-19.
Entre pessoas com 65 anos ou mais, a efetividade estimada foi de 48% contra atendimentos de emergência/urgência e 53% contra hospitalização.
Esses números não significam que exatamente 55% das pessoas vacinadas ficaram protegidas contra hospitalização. Trata-se de uma estimativa de efetividade da vacina obtida a partir da comparação entre pessoas que receberam a dose atualizada e aquelas que não receberam.
Essa diferença é importante para evitar uma interpretação equivocada dos dados.
Por que os idosos continuam sendo uma preocupação?
A idade é um dos principais fatores associados ao risco de desenvolver Covid-19 grave.
Com o envelhecimento, o sistema imunológico sofre alterações que podem reduzir a capacidade do organismo de responder a algumas infecções.
Além disso, pessoas mais velhas apresentam maior frequência de doenças crônicas, como problemas cardiovasculares, diabetes e doenças pulmonares, que podem aumentar o risco de complicações quando ocorre uma infecção respiratória.
No estudo da temporada 2025–2026, os adultos com 65 anos ou mais apresentaram uma efetividade estimada de 53% contra hospitalização, valor próximo ao observado na população adulta geral.
Isso reforça a importância de avaliar a vacinação especialmente entre pessoas que apresentam maior risco de desenvolver doença grave.
E quem tem imunidade por infecção anterior?
Essa é uma das questões mais importantes dos estudos atuais.
Depois de vários anos de circulação do SARS-CoV-2, grande parte da população americana já teve contato com o vírus ou recebeu doses anteriores da vacina.
Isso significa que os pesquisadores não estão mais estudando uma população imunologicamente “virgem”, como aconteceu no início da pandemia.
A análise mostra que a vacina atualizada pode oferecer proteção adicional mesmo sobre uma base de imunidade já existente.
Em outras palavras, ter tido Covid anteriormente ou ter recebido vacinas em anos anteriores não significa necessariamente que uma nova formulação não tenha benefício.
O sistema imunológico pode precisar ser novamente estimulado à medida que o vírus evolui.
O que significa “efetividade” da vacina?
É importante diferenciar dois termos frequentemente usados nas notícias sobre vacinação: eficácia e efetividade.
A eficácia costuma ser avaliada em condições controladas, como nos ensaios clínicos realizados antes da aprovação de uma vacina.
Já a efetividade procura medir o desempenho da vacina no mundo real, considerando pessoas atendidas em hospitais, clínicas e serviços de saúde, com diferentes idades, condições de saúde e históricos de exposição ao vírus.
Os estudos do VISION utilizam grandes bases de dados de saúde e um método conhecido como desenho de teste negativo.
Nesse modelo, pesquisadores comparam pessoas que procuraram atendimento por sintomas compatíveis com Covid-19 e tiveram teste positivo com aquelas que apresentaram sintomas semelhantes, mas tiveram resultado negativo.
Esse tipo de metodologia é amplamente utilizado para estimar a efetividade de vacinas respiratórias.
A proteção contra doença grave é o principal ponto
Durante os primeiros anos da pandemia, uma das principais expectativas em relação às vacinas era evitar que as pessoas fossem infectadas.
Com a evolução do SARS-CoV-2, esse objetivo se tornou mais difícil de alcançar de forma consistente.
Hoje, uma das medidas mais relevantes para avaliar o impacto da vacinação é saber se ela reduz:
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hospitalizações;
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doença crítica;
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necessidade de atendimento de emergência;
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complicações;
-
mortes.
Os dados recentes apontam justamente nessa direção.
No estudo que analisou a vacina 2024–2025, a redução estimada chegou a 41% para doença crítica entre adultos imunocompetentes.
Isso significa que, mesmo quando a proteção contra infecção diminui ou quando ocorre uma infecção após a vacinação, ainda pode existir um benefício importante na redução da gravidade.
Os benefícios podem diminuir com o tempo
A perda gradual de proteção é uma das razões pelas quais as vacinas contra Covid-19 são atualizadas periodicamente.
O estudo mostrou que a proteção contra atendimentos médicos era mais elevada nos primeiros meses e caía posteriormente.
Esse comportamento ajuda a explicar por que o momento da vacinação é relevante, principalmente para pessoas com maior risco de complicações.
Também é necessário considerar que a composição das vacinas precisa acompanhar a evolução do vírus.
As formulações utilizadas nos Estados Unidos são atualizadas para se aproximarem das variantes que circulam ou das linhagens consideradas relevantes para a temporada.
Vírus continua mudando
O SARS-CoV-2 não permaneceu geneticamente igual desde 2020.
A evolução contínua do vírus é um dos motivos pelos quais as autoridades sanitárias e regulatórias precisam avaliar periodicamente quais cepas devem ser utilizadas nas vacinas.
Dados referentes à temporada 2025–2026 mostram que as formulações foram baseadas na linhagem Omicron JN.1, com preferência pela cepa LP.8.1 na composição daquele período.
Enquanto isso, outras linhagens continuaram aparecendo e ganhando ou perdendo predominância.
Esse processo é semelhante, em alguns aspectos, ao que ocorre com a influenza, embora os vírus sejam diferentes.
O estudo tem limitações
Como ocorre com qualquer estudo observacional, os pesquisadores apontam limitações.
Os resultados não devem ser interpretados como uma prova de que a vacina impede todos os casos graves.
Entre os fatores que podem influenciar as estimativas estão diferenças entre pessoas vacinadas e não vacinadas, histórico de infecção anterior, comportamento de prevenção, acesso ao atendimento médico e uso de medicamentos antivirais.
No estudo da temporada 2025–2026, por exemplo, os pesquisadores não conseguiram controlar completamente o histórico de infecções anteriores ou todas as doses de vacina recebidas anteriormente.
Também houve limitações estatísticas para calcular a efetividade em alguns grupos específicos.
Por isso, os próprios autores tratam os números como estimativas, e não como uma garantia individual de proteção.
O que os dados significam para quem está vacinado?
A principal mensagem é que a vacinação continua tendo utilidade mesmo em uma fase diferente da pandemia.
Uma pessoa vacinada ainda pode contrair Covid-19. Entretanto, os dados indicam que a vacinação atualizada pode diminuir a probabilidade de precisar de atendimento médico e, principalmente, de ser hospitalizada.
Isso é especialmente relevante para pessoas com maior risco de evolução grave.
A decisão sobre vacinação deve considerar idade, condições de saúde, histórico de vacinação e orientação médica, além das recomendações vigentes para a temporada.
Covid-19 mudou, mas não deixou de representar um risco
A situação atual é muito diferente da observada em 2020 e 2021.
A população possui níveis muito maiores de imunidade, os médicos têm mais experiência para tratar a doença e existem medicamentos antivirais para determinados pacientes.
Como resultado, a Covid-19 deixou de provocar o mesmo número de casos graves observado durante os períodos mais críticos da pandemia.
Mas isso não significa que o vírus tenha se tornado irrelevante.
Os dados continuam mostrando hospitalizações e casos graves, especialmente entre grupos de maior risco.
É nesse cenário que as vacinas atualizadas assumem uma função diferente: não necessariamente impedir que todas as pessoas contraiam o vírus, mas reduzir a chance de que uma infecção resulte em uma ida ao hospital ou em uma complicação grave.
O que os pesquisadores querem que a população entenda
Os resultados das pesquisas mais recentes não sustentam a ideia de que a vacina seja uma proteção absoluta contra a Covid-19.
O que os dados mostram é algo mais específico e clinicamente importante: a vacinação atualizada está associada a uma redução mensurável do risco de atendimento médico, hospitalização e doença crítica.
Na temporada 2025–2026, a estimativa de proteção contra hospitalização chegou a 55% entre adultos imunocompetentes, enquanto entre pessoas com 65 anos ou mais ficou em 53%.
Na análise anterior, referente à vacina 2024–2025, a redução estimada da hospitalização foi de 35%, acompanhada por reduções de 26% nos atendimentos de emergência/urgência e de 41% na doença crítica.
Os percentuais variam porque os estudos analisaram diferentes períodos, populações e formulações da vacina. Ainda assim, os resultados apontam para uma mesma direção: a vacina atualizada continua oferecendo uma camada adicional de proteção contra as consequências mais graves da Covid-19.
Para a saúde pública, essa diferença pode representar menos internações, menor pressão sobre os hospitais e menor risco de complicações para os grupos mais vulneráveis.
E, para o indivíduo, significa que a proteção contra a Covid-19 não deve ser avaliada apenas pela pergunta “a vacina impede que eu pegue o vírus?”, mas também por uma questão mais importante: se eu for infectado, qual é a chance de a doença se tornar grave?
É justamente nessa segunda frente que as evidências mais recentes continuam encontrando benefício.
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